quarta-feira, 23 de março de 2016

"Resumão" de todos os dízimos e ofertas da Torá (Lei)

Neste artigo, tentarei apresentar brevemente uma visão geral de todas as doações que um israelita fiel que possuísse terras (colheitas e gado) faria na época em que o Templo em Jerusalém estava em pé. As ofertas serão detalhadas e seguidas por versículos bíblicos/citações rabínicas para que se confira o que está sendo dito. Claro que queremos responder à pergunta que milhares de pessoas fazem todos os dias: afinal de contas, qual era o dízimo de que Malaquias falava? Quem não dá dez por cento de seu salário a um líder religioso hoje estaria em pecado?

Não há dúvida sobre que os versículos da Torá citados se referem às práticas enumeradas¹. No entanto, a Torá não dá às ofertas os nomes (exemplo: Ma`asser richon ²— primeiro dízimo). Para organizarmos as doações de acordo com os nomes que recebem na tradição judaica, recorremos ao Sêfer hamisvot ³. Algumas ofertas, como os sacrifícios e a pele dos animais queimados em holocaustos, que poderia ser dada ao sacerdote (descendente de Arão), não foram contadas.

 Enumeremos as ofertas:

Nome da oferta
Beneficiário
Referências
Observações
Mahassit hachéquel – Meio siclo
Despesas do santuário
Ex 30, 13-16
(sêfer hamisvôt, M. 171)
Esta oferta tinha a finalidade de fazer a contagem do povo. Só é válida, naturalmente, na existência do Templo de Jerusalém e era anual.  Era a única dada por todas as pessoas, pobres e ricas!
Terumá guedolá – Grande oferenda
Sacerdote (descendente de Arão)
Dt 18, 4
(sêfer hamisvôt, M. 126)
Era a primeira oferta separada do produto do campo (sêfer hamisvot P.154). Entre 1/40 e 1/60 da produção
Ma`assêr richon – Primeiro dízimo
Levitas (descendentes de Levi)
Nm 18, 24
(sêfer hamisvôt, M. 127)
Separado após a Terumá guedolá, dos produtos do campo.
Ma`assêr cheni – Segundo dízimo
Contribuinte
Dt 14, 22 ss
(sêfer hamisvôt, M. 128)


O próprio contribuinte comia esse dízimo, em Jerusalém apenas. Caso morasse longe, poderia converter em dinheiro e levá-lo para comprar o que desejasse.
Terumat ma`asser – Oferta extraída do dízimo
Sacerdote (recebe do levita)
Nm 18, 26
(sêfer hamisvôt, M. 129)
Dízimo do dízimo, dado pelo levita, após receber o Ma`assêr richon, ao sacerdote.
Ma`assêr `ani—Dízimo do pobre
Pobres
Dt 14, 28
(sêfer hamisvôt, M. 130)
Esse dízimo era dado no terceiro e sexto anos no ciclo de sete anos.
Halá – Oferta de parte das massas
Sacerdote (descendente de Arão)
Nm 15, 21
(sêfer hamisvôt, M. 133)
Só válido na Terra de Israel.
Neta` reva`i – colheita do quarto ano
Contribuinte
Lv 19, 25
(sêfer hamisvôt, M. 119)
Frutos da colheita do quarto ano no ciclo de sete anos eram levados a Jerusalém e comidos pelo ofertante.
Parte de cada animal abatido
Sacerdote (descendente de Arão)
Dt 18, 3
(sêfer hamisvôt, M. 143)
Algumas partes dos animais sacrificados eram direitos dos sacerdotes.
A primeira tosquia das ovelhas
Sacerdote (descendente de Arão)
Dt 18, 4
(sêfer hamisvôt, M. 144)
Obrigatório somente em Israel
Ma`assêr behemá – O dízimo do gado
Contribuinte, após oferecer parte no altar
Lv 27, 32
(sêfer hamisvôt, M. 78)
Pela determinação dos sábios, só deve ser dado quando o Templo estiver em pé.
`Arakhin/ Haramim –  Avaliações/Coisas consagradas
Sacerdote (descendente de Arão)
Lv 27, 11-12; 14; 16; 28
(sêfer hamisvôt, M. 115, 116, 117, 145)
Havia `Arakhin e Haramim de animais, casas e campos. A pessoa poderia fazer voluntariamente essas consagrações para o sacerdote ou para Deus (Templo).
Pidion haben – Dinheiro do resgate do primogênito
Sacerdote (descendente de Arão)
Ex 22, 29
(sêfer hamisvôt,
M. 80)
Os primogênitos originalmente deveria ser sacerdotes. O resgate é uma forma de “eximi-los”, através da quantia de cinco moedas.
Pidion péter hamor – Resgate do primogênito de um jumento
Sacerdote (descendente de Arão)
Ex 34, 20; 13, 13
(sêfer hamisvôt,
M. 81)
O dono do animal poderia decidir entre matar o jumento ou resgatá-lo, dando um cordeiro, carneiro ou cabrito ao sacerdote.
Bicurim – Primícias
Sacerdote (descendente de Arão)
Ex 23, 19
(sêfer hamisvôt,
M. 125)
Só eram separadas as primícias (primeiros frutos) de sete espécies, de frutas de Israel, Síria e Transjordânia estando o Templo em pé.
Peá – Canto dos campos
Pobres
Lv 19, 9
(sêfer hamisvôt,
M. 120)
Como obrigação, o mandamento refere-se à Terra de Israel apenas.
Léquet – Espigas caídas
Pobres
Lv 23, 22
(sêfer hamisvôt,
M. 121)
Como obrigação, o mandamento refere-se à Terra de Israel apenas.
`Olelôt – Cachos de uva não totalmente desenvolvidos
Pobres
Lv 19, 10
(sêfer hamisvôt,
M. 123)
Como obrigação, o mandamento refere-se à Terra de Israel apenas.
Péret – Uvas caídas (“bagos”)
Pobres
Lv 19, 10
(sêfer hamisvôt,
M. 124)
Como obrigação, o mandamento refere-se à Terra de Israel apenas.
Chihekhá – Cereais esquecidos
Pobres
Dt 24, 19
(sêfer hamisvôt,
M. 122)
Como obrigação, o mandamento refere-se à Terra de Israel apenas.
Sedaqá – Caridade
Pobres
Dt 15, 11; lv 25, 35-36
(sêfer hamisvôt,
M. 195)
Devem-se sustentar os pobres em todas as suas necessidades.

Constatações:

Das vinte e uma ofertas que enumeramos, nove deveriam ser entregues ao sacerdote (descendente de Arão), que servia no Templo. Uma deveria ser dada aos levitas (descendentes de Levi), que ajudavam os sacerdotes, sete beneficiariam os pobres, órfãos viúvas e outras pessoas vulneráveis, três ofertas eram comidas pelo próprio ofertante e apenas o “meio siclo” era usado para as despesas do santuário.

A única contribuição dada por todos, pobres e ricos, era o “meio siclo”, usado para manter as despesas do Templo de Jerusalém (atualmente inexistente).

Em lugar nenhum de toda a Lei Mosaica existe o conceito de uma pessoa separar 10% de todas as suas entradas em dinheiro para ajudar nas despesas de templos religiosos ou sacerdotes. O que havia era uma enorme lista de dádivas separadas pelo produtor de cereais e criador de gado, para diminuir a desigualdade social e manter os sacerdotes e levitas, que oficiavam no serviço religioso pelo povo. O assalariado que não tinha gado nem cereais nem frutos não estava obrigado a oferecer o “décimo boi de seu gado” como sacrifício e comer sua carne, assim como não levaria as primícias, não separaria a terumá guedolá e depois 10% e depois outros 10%!

Essas ofertas são apresentadas por certas denominações cristãs de forma extremamente simplificada (para falar a verdade, distorcida), como um dízimo que os israelitas levavam. Nunca existiu tal dízimo, e sim dízimos e outras ofertas, que eram feitas em um contexto agropecuário, na Terra de Israel, morasse o judeu onde fosse! O único dízimo que poderia significar dinheiro era o segundo dízimo, unicamente se o ofertante morasse longe de Israel, para, ao lá chegar, gastar seu dinheiro em comida e bebidas, como está claro no capítulo 14 de Deuteronômio.

Os dízimos de que Malaquias falava NÃO ERAM apenas 10% do dinheiro dados aos líderes religiosos! Os líderes religiosos que pedem 10% do dinheiro hoje em dia afirmando que estão cumprindo leis bíblicas estão enganando as pessoas em benefício próprio. Peço que o leitor compartilhe esse estudo com todas as pessoas que conhece que estão sendo enganadas neste exato momento no assunto do dízimo.
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¹ Existe um relato no livro apócrifo (ou deuterocanônico) chamado Tobit que expõe como eram feitos os dízimos e demais ofertas. Compare com o que é afirmado pela tradição rabínica e reproduzido em nosso artigo:
“E eu me via muitas vezes sozinho para ir a Jerusalém por ocasião das festas, conforme prescrito em todo Israel por um decreto perene. Eu acudia a Jerusalém com as primícias, os primogênitos, o dízimo do gado e a primeira tosquia das ovelhas e os dava aos sacerdotes, filhos de Aarão, para o altar. Eu também dava o dízimo do trigo, do vinho, das azeitonas, das romãs, dos figos e das demais frutas aos filhos de Levi em serviço em Jerusalém; o segundo dízimo, eu o tributava em dinheiro e ia apresenta-lo cada ano em Jerusalém. O terceiro, eu o dava aos órfãos, às viúvas e aos estrangeiros que residiam com os filhos de Israel; eu o trazia e lho dava de três em três anos, e nós o comíamos de acordo com a prescrição dada a este respeito na Lei de Moisés e as instruções dadas por Debora, mãe de Ananiel nosso pai (...)”
Bíblia TEB, Tobit 1, 6-8

² Para compreender o sistema de transliteração de termos hebraicos que usamos, leia o artigo: http://biblia-hebraica.blogspot.com.br/2015/02/sobre-transliteracao.html
CH, por exemplo, deve ser lido COMO EM PORTUGUÊS, chá, por exemplo, e não como em alemão.


³ Sêfer hamisvot (“livro dos mandamentos”) é uma obra escrita pelo filósofo, médico e grande rabino Moisés Maimônides (1135 -1204). O livro separa e dá uma pequena explicação para os 613 mandamentos da Torá (Lei de Moisés), usando como fontes o Talmud e midrachim. Pode ser encontrado em português, na editora e livraria sêfer. Nas citações ao sêfer hamitzvot, “M” significa Mandamento, e P, Proibição. Não atribuímos aqui qualquer caráter de “cânon” a esse livro. Apenas o usamos como forma de organizar os mandamentos da Torá.  




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