terça-feira, 22 de março de 2016

Mentiram para você! A Bíblia NÃO garante uma vida de bênçãos para as pessoas!

O ser humano, em sua arrogância por ser o "animal racional", está sempre orgulhoso de sua suposta propriedade de planejar, de dominar a natureza, de controlar as coisas. Mas, se pararmos para observar o mundo ao redor, veremos que pouquíssimas coisas estão realmente sob nosso controle. Não controlamos doenças, catástrofes naturais, acidentes, crises econômicas. Quantas vezes planejamos algo para certa data e nos frustramos por não ter dado certo? Isso acontece a todo mundo. Não controlamos a criação. Qualquer um que já tenha assistido a um telejornal sabe disso. 

Só que o sentimento de não termos poder sobre os elementos é insuportável. Não conseguimos lidar com o fato de que podemos morrer a qualquer momento e criamos, sem que percebamos, os mais variados trambiques para provarmos o contrário. Vou citar exemplos. Em primeiro lugar, o misticismo. O misticismo (astrologia, bruxaria, crença em carma, magia, simpatias com santos, espiritualidade pentecostal etc.) é a forma mais fácil e colorida de jogar a outras coisas as nossas responsabilidades, nossos altos e baixos, perdas e vitórias. É muito agradável dizer que algo aconteceu a fulano por castigo devido a seus pecados. Isso liberta a psicologia da velhinha beata de pensar que o mesmo pode acontecer com ela, que vive "louvando a Deus".

A religião mais primitiva surgiu para "enganar" a morte. Percebemos que somos mortais e, para acalmar os "espíritos da natureza" (mais tarde chamados deuses), que não controlamos naturalmente, começaram-se a oferecer sacrifícios. Esta é a raiz e o tronco do paganismo: louvam-se os deuses para que o "adorador" obtenha boas chuvas, colheitas, e não sofra a ira dos espíritos. A Torá (Pentateuco) aceitou algumas das práticas do paganismo, segundo o filósofo Maimônides, porque o povo não conhecia outra forma de religião. As mentes das pessoas da época não eram capazes de absorver a verdade monoteísta assim da noite pra o dia. Assim, foram aceitas práticas como os sacrifícios, só que receberam novas regras, no caso, só poderiam ser oferecidos sacrifícios ao Senhor, e no local designado. Sugiro que o leitor, para mais informações sobre este tema, leia o artigo “Elementos pagãos” na Bíblia: um problema?

A Torá continuou com muitas práticas da região do Oriente Médio, mas deu-lhes novos significados, para afastar o coração do povo de seus antigos conceitos. As festas, por exemplo, ao invés de comemorações das colheitas, que era o sentido que tinham a princípio, passaram a celebrar a liberdade e feriados nacionais (PêssahHanucá, Purim), a proteção de Deus (Sucôt), etc.

"Não há nada de novo debaixo do sol", como diz o escritor do Eclesiastes. As religiões populares hoje, em 2016 têm os mesmos elementos daquelas antiquíssimas formas de paganismo que bajulavam os deuses à procura de "bênçãos". Para justificarem o "vazio" ocasionado pela contemplação das tragédias do mundo, as pessoas recorrem à Bíblia, distorcendo vários versículos para prometerem aos outros e principalmente a si mesmos que tudo dará certo, sob suposta garantia divina. Neste artigo, analisaremos alguns textos que os "positivos" postam na internet todos os dias, repetem como mantra e gritam nas igrejas. Todos eles foram distorcidos e tirados do contexto, para afirmar que as pessoas justas têm o “direito” de não ficarem doentes, não serem pobres e não sofrerem. 

Em nenhum lugar da Bíblia está escrito que a pessoa que vive com Deus não pode sofrer nem morrer miseravelmente. Muito pelo contrário, temos vários relatos de profetas, homens santos que sofreram, foram abandonados por todo o seu povo, foram celibatários, absolutamente sozinhos, deprimidos, desejaram a morte (Elias, Jeremias, Jonas e outros). José, exemplo clássico da superação e do drama familiar, passou uns vinte anos de grandes sofrimentos antes de chegar a ser governador do Egito. Mas é fácil pular com os olhos os vinte anos e chegar à coroa, não é mesmo? É muito fácil ver os milagres que ocorreram ao povo hebreu no deserto, mas quem pensa que eles sofreram durante quarenta anos? Ora, não está escrito que eles não sofreram! 

Alguns textos que parecem prometer bênçãos

a) Êxodo 15, 26

Se vocês derem atenção ao Senhor, ao seu Deus e fizerem o que ele aprova, se derem ouvidos aos seus mandamentos e obedecerem a todos os seus decretos, não trarei sobre vocês nenhuma das doenças que eu trouxe sobre os egípcios, pois eu sou o Senhor que os cura. 
O texto compara dois povos: o povo judeu, que havia acabado de sair do Egito (Êx 12, 41) e os egípcios, que haviam sofrido as famosas dez pragas (7, 17 em diante). O povo reclamou de sede e Moisés milagrosamente tornou potáveis as águas amargas de Mará (15, 23 ss). Após o milagre, Moisés adverte ao povo que se todos cumprissem as leis, as calamidades que ocorreram com os egípcios, entre elas não poder beber água (na primeira praga do Egito, as águas tornaram-se como sangue), não ocorreriam com o povo hebreu. De que mandamentos o versículo está falando? Dos mandamentos da Torá, a Lei de Moisés. Por que os líderes dizem que a Lei foi abolida, mas as promessas para quem guardam esta Lei não foram? O versículo não promete saúde eterna para as pessoas que temem a Deus. Todas as pessoas adoecem, cedo ou tarde.


b) Deuteronômio 28

 Este texto promete bênçãos dulcíssimas ao povo judeu se ele cumprisse, COLETIVAMENTE, a Lei de Moisés. Veja: aquilo foi dito ao povo, não a indivíduos! Se fosse a indivíduos, os exemplos de fiéis sofredores já citados seriam inaceitáveis! Quando o povo era exilado em consequência de seus erros, até os justos como Jeremias e Daniel sofriam também! Mas não é só isso: o famoso capítulo do "bendito serás", tem apenas 14 versículos de bênçãos para o povo que cumpre os mandamentos , e surpreendentes 55 com as maldições mais pesadas que uma pessoa pode imaginar, para quem não cumpre!!! As mesmas pessoas que dizem que "texto sem contexto é heresia" pregam que todo mundo será abençoado, porque Dt 28 afirma! É claro! Falando a língua do povo: "quem diabo quer saber de coisas ruins?" Muito melhor é se iludir, enganar o povo e fingir que a coisa ruim nem existe! Mas ela existe:

Entretanto, se vocês não obedecerem ao Senhor, ao seu Deus, e não seguirem cuidadosamente todos os seus mandamentos e decretos que hoje lhes dou, todas estas maldições cairão sobre vocês e os atingirão: Vocês serão amaldiçoados na cidade e serão amaldiçoados no campo. A sua cesta e a sua amassadeira serão amaldiçoadas. Os filhos do seu ventre serão amaldiçoados, como também as colheitas da sua terra, os bezerros e os cordeiros dos seus rebanhos. Vocês serão amaldiçoados em tudo o que fizerem. (Dt 28, 15- 19)

Vejam que os primeiros versículos do capítulo falam claramente que as bênçãos eram condicionadas ao povo, coletivamente, se ele cumprisse a Lei:

"Se vocês obedecerem fielmente ao Senhor, ao seu Deus, e seguirem cuidadosamente todos os seus mandamentos que hoje lhes dou, o Senhor, o seu Deus, os colocará muito acima de todas as nações da terra. Todas estas bênçãos virão sobre vocês e os acompanharão, se vocês obedecerem ao Senhor, ao seu Deus" (Dt 28, 1-2)
Perceba que o povo é aqui comparado às demais nações. O texto não fala de indivíduos, fala da nação inteira, se seguisse os mandamentos da Lei Mosaica. Veja também, a esse respeito, Dt 4,1, falando sobre a mesma ideia.


c) Salmo 37, 25

Já fui jovem e agora sou velho, mas nunca vi o justo desamparado, nem seus filhos mendigando o pão.
O livro de Salmos não é uma fala de Deus para o povo. É uma coleção de poesias hebraicas, muitas delas escritas pelo Rei David. O rei expressa seus sentimentos através de sua habilidade com a composição, colocando "no papel" seus sofrimentos, devido aos momentos de perseguição por Saul ou outros inimigos (Salmo 57),  seu amor por Jerusalém (137), seu sentimento de culpa pelos seus pecados (51), seu sentimento de ter alcançado graça aos olhos de Deus etc. 

Assim sendo, não vamos distorcer os textos! O autor está dizendo que nunca viu um justo desamparado. Nem ao menos significa que os justos pobres e sofredores não existem! Ora! Muitos justos foram e são pobres! Veja o que a Lei de Moisés diz:

Sempre haverá pobres na terra. Portanto, eu lhe ordeno que abra o coração para o seu irmão israelita, tanto para o pobre como para o necessitado de sua terra. (Deuteronômio 15, 11)

Nunca vai deixar de haver pobreza. A pobreza é um resultado da ganância e perversidade humanas, da vida do homem como ser social e de circunstâncias externas! Como assim temos o “direito” de sermos todos ricos?


d) Salmo 121 

(...) sim, o protetor de Israel não dormirá, ele está sempre alerta! O Senhor é o seu protetor; como sombra que o protege, ele está à sua direita. De dia o sol não o ferirá, nem a lua, de noite. O Senhor o protegerá de todo o mal, protegerá a sua vida. O Senhor protegerá a sua saída e a sua chegada, desde agora e para sempre.

Os salmos são poesia. São opinião do autor, beleza vinda de sua mente e suas mãos. O salmo 121 representa a fraqueza do ser humano diante dos acontecimentos e sua espera em um Deus Onipotente que PODE atuar na história a favor de seu povo (não estamos negando isso neste artigo!). Quando eu digo a uma pessoa “Deus o abençoe”, estou expressando uma vontade sincera de que aquela pessoa receba coisas boas em sua vida. Mas isso, infelizmente, não significa que a bênção está nos planos de Deus!


 Pode ser que SEJA A VONTADE DE DEUS nos dar uma vida agradável, assim como pode ser da vontade dele fazer com que um ímpio tenha uma vida de riquezas NESTE MUNDO ¹. Quem somos nós para discutir os planos de Deus? Lemos que José passou por sofrimentos para que no futuro se tornasse aquele que sustentaria o povo de Israel, assim como lemos (Nm 42) que Deus poupou o povo moabita, que tinha acabado de causar um pecado horroroso, resultando em mortes para o povo de Israel, ao mesmo tempo que outro povo, o midianita, deveria receber vingança. Por quê? Temos uma boa explicação da parte dos nossos exegetas: do povo moabita viria Rute, a famosa convertida ao judaísmo que se tornaria ancestral do rei Davi e, portanto, de todos os reis de Judá! Deus, ao contrário de nós, pensa longe, vê a história inteira, e sabe o que é melhor para nós!


e) Isaías 54 

(...) Alargue o lugar de sua tenda, estenda bem as cortinas de sua tenda, não o impeça; estique suas cordas, firme suas estacas. Pois você se estenderá para a direita e para a esquerda; seus descendentes desapossarão nações e se instalarão em suas cidades abandonadas. (...)

Escolhi esse versículo para simbolizar todos os versículos dos profetas (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os doze profetas menores) usados para “prometer bênçãos” para as pessoas. Qual era a função de um profeta? Sabemos que o povo de Israel vivia altos e baixos. Pelos livros históricos da Bíblia, percebemos que houve reis excelentes como Ezequias (II Reis 18, 5ss), que acabou com práticas idolátricas e “pôs sua confiança no Senhor”, e também reis escandalosamente maus, como Manassés (II Reis 21, 2ss), que “fez passar seu filho pelo fogo”. As políticas desses reis influenciavam diretamente na conduta do povo, que lhes obedecia diretamente. Era na época desses reis que viviam os profetas. Isaías, por exemplo, foi contemporâneo de reis como Ozias, Iotâm, Acaz e Ezequias (Is 1, 1).

Os profetas serviam para reprovar as práticas erradas do povo e das elites de Judá e Israel, e também para anunciar a bênção divina, em consequência de eles seguirem ou não as leis de Deus. Lemos, por exemplo, sobre o profeta Jonas, que foi enviado a Nínive com o seguinte comando: “Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até à minha presença.” (Jonas 1, 2). Jonas anunciaria a perdição para a cidade de Nínive caso ela não se arrependesse, o que aconteceu, fazendo com que o povo fosse perdoado (capítulo 3). Esses eram os profetas! Eles enfrentavam os reis, falavam aos povos as mensagens do Senhor. No capítulo 54, o profeta Isaías está falando para a cidade de Jerusalém², comparada a uma mulher estéril, sem vida, porque a cidade estava desolada.

Os profetas traziam uma mensagem clara, real, que as pessoas receberiam EM SUAS ÉPOCAS. Podemos sim usar essas mensagens para fortalecimento e edificação de alguém, mas isso está sendo usado COMO REGRA, como promessa de riqueza e bênção, sem ao menos citar o contexto histórico em que o texto se situava! Isso é errado! Não era isso que o texto estava falando! Amigo, estão SELECIONANDO os textos para passarem para você! Se a regra de “pegar um texto dos profetas” e aplicar aos dias de hoje para QUALQUER CIRCUNSTÂNCIA é válida, então, por favor, explique-me porque pegar textos positivos está tudo bem, e textos como o seguinte, do mesmo profeta Isaías, são ignorados:
“Diz ainda mais o Senhor: Porquanto as filhas de Sião se exaltam, e andam com o pescoço erguido, lançando olhares impudentes; e quando andam, caminham afetadamente, fazendo um tilintar com os seus pés; Portanto o Senhor fará tinhoso o alto da cabeça das filhas de Sião!” (Is 3, 16 – 17) “E será que em lugar de perfume haverá mau cheiro; e por cinto uma corda; e em lugar de encrespadura de cabelos, calvície; e em lugar de veste luxuosa, pano de saco; e queimadura em lugar de formosura. Teus homens cairão à espada e teus poderosos na peleja. E as suas portas gemerão e prantearão; e ela, desolada, se assentará no chão.” (Is 3, 24-26)


Ninguém quer saber desses versículos, não é verdade?

Não é nossa intenção aqui falar de TODOS os versículos usados para prometer positividade, pois isso resultaria em um artigo infinito. Expusemos textos centrais usados para essa finalidade, nos profetas, nos salmos, e no pentateuco. Todos os demais textos, sem exceção, devem passar pelas mesmas regras: em que época foram escritos? Qual o gênero literário desse texto? Para quem o autor escreveu? Qual era a situação da pessoa/povo para quem o autor escreveu?

É possível sim, repito, usarmos os acontecimentos e histórias narradas na Bíblia, assim como os salmos, provérbios etc, para nos edificar, encorajar e citar exemplos para nossa vida prática. Não há problema algum nisso! O problema é criar uma REGRA, uma promessa! Isso não é válido! É uma atitude problemática, pois, afinal de contas, se a pessoa não for abençoada, a conclusão óbvia seria que a promessa é falsa! É a coisa mais óbvia do mundo! Não custa nada citar a situação em que o texto se situa na Bíblia. Exemplo: "amigo, o povo de Israel aqui estava passando por problemas, assim como você, e Deus pode te ajudar...". Faça isso sempre!

Conclusão: o problema da “positividade”


Além de ser falsa, como espero ter provado nesse artigo, a positividade baseada no mau uso de textos bíblicos está associada a um forte problema: esperar por coisas do céu acreditando estar amparado por promessas pode fazer com que você desvie o seu pensamento da realidade do dia a dia!

Os poderosos adoram a positividade do povo, porque ela mantém este totalmente cego, sem ver as crises, sem ver os problemas e sempre esperando pelo melhor, com amuletos, com repetição do nome de Deus e com pensamento positivo! Uma pessoa “positivinha” nunca reclama de sua sorte, nunca vê as injustiças sociais, nunca vê os abusos de poder, porque enxerga o mundo apenas com olhos de "vencer", de "Deus" e de "bons sentimentos". Quantas pessoas já postam na internet momentos após acordar sua primeira coisinha positiva do dia? Desejos bons, boas sementes...? acordemos para a vida! Há poderosos detendo direitos de vida e morte sobre o povo! Há leis injustas! Há políticos roubando milhões! Por tudo que compramos, pagamos altos impostos e não recebemos nada em troca! Enquanto isso, uma enorme massa, ao invés de entrar na ação política, de se informar, pelo menos, fica postando Maria e Jesus na internet e postando amém em fotos de criancinhas deficientes!

Percebam que a positividade, a crença PAGÃ em direitos a bênçãos faz muito mais mal do que bem, pois nos mantém alienados deste mundo e acomodados, atribuindo sempre a coisas sobrenaturais coisas que estão na esfera dos seres humanos, da nossa ação e responsabilidade! Vamos concluir com um versículo que se situa no contexto da travessia do mar, quando os israelitas rogaram a Deus para que agisse em favor deles. Se você foi impactado por este artigo, peço que passe adiante.

“Então disse o Senhor a Moisés: Por que clamas a mim? Dize aos filhos de Israel que marchem” (Êxodo 14, 15).

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¹ Nossa real esperança deve ser no pós morte, na recompensa que nosso Deus nos dará (ver Daniel 12, 2). Muitos ímpios parecem ser felizes aqui na terra, e muitos justos não têm suas riquezas materiais. Devemos sim buscar uma vida feliz aqui, e podemos pedir a Deus por proteção, não há nada de errado nisso. Mas quem sabe os melhores caminhos para nós é o Criador!

² Segundo o comentário de Rachi sobre o primeiro versículo desse capítulo.

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