segunda-feira, 20 de junho de 2016

Qual religião segue 100% a Bíblia?

          “Não deveria haver religiões, igrejas, formas diferentes de ver Deus, já que só existe uma Bíblia!”. Quem nunca ouviu essas palavras? Talvez o próprio leitor já tenha pensado nessa afirmação, ao se deparar com a realidade das brigas entre as religiões.
Este artigo tem como objetivo estudar a visão que diferentes religiões têm em relação à Bíblia, para concluir se há alguma religião que segue de fato a Bíblia como única coisa que tem autoridade para a fé e prática do crente. Na primeira parte, citaremos brevemente as principais religiões que dizem crer na Bíblia ou parte dela (islã, catolicismo, judaísmo e protestantismo), e explicaremos qual é a visão de Bíblia que cada uma dessas religiões tem. Em seguida, nós analisaremos de modo independente de religiões se a Bíblia possui ou não lacunas e ambiguidades que precisem ser resolvidas pelo homem.  Veremos também o que a Bíblia diz de si mesma e de seu autor. A Bíblia diz que ela é o “manual para todos os assuntos”? Ela diz que ela é a única coisa que tem a autoridade em fé e prática? A Bíblia diz que seu autor é Deus? Finalmente, vamos responder a pergunta que dá título ao artigo, ou seja, se existe uma religião ou sistema de crenças que siga plena e unicamente os ensinamentos bíblicos.

O que as principais “religiões bíblicas” dizem da Bíblia?

            Para saber qual religião segue realmente a Bíblia, podemos tomar um atalho, para ver se as grandes religiões têm a pretensão de seguir plena e unicamente os ensinamentos bíblicos. Ou seja: quem diz que segue a Bíblia?
            Gostaria de abrir aqui um breve parêntese: a palavra “religião” tem sido “demonizada” por muitas pessoas. Antigamente, religião significava algo como “sistema de crenças” ou “sistema de se louvar um Deus”; hoje em dia, no entanto, principalmente no meio cristão evangélico pentecostal, as pessoas acham que religião é algo ruim, porque é humano e “na verdade o que se deve seguir é a Bíblia”. Porém, na língua portuguesa, independente do que fulano ache ou pense, “religião” tem mais ou menos os significados que foram apresentados acima. Basta consultar dicionários para conferir. Ou seja, as igrejas pentecostais são religiões também, porque são sistemas de crenças em uma divindade e de rituais para cultuar essa divindade.
            As religiões analisadas serão: judaísmo, cristianismo católico, islã e cristianismo protestante. É verdade que existem outras religiões que dizem basear seus ensinamentos, ou parte deles, na Bíblia, mas escolhemos apenas essas quatro pelo valor histórico/cultural delas, além de serem, na opinião do autor deste texto, as que mais citam textos escritos, entre eles a Bíblia, como autoridades para crença e comportamento.

a)   O Judaísmo – O judaísmo é a primeira “religião da Bíblia”. A Bíblia (Hebraica) foi escrita por judeus, para judeus, sobre judeus. Quem canonizou o “Antigo Testamento” foi o povo judeu, foram os rabinos. Alguns livros sempre foram tidos como sagrados, o que é sobretudo o caso da Torá (cinco livros de Moisés). Os livros dos profetas também sempre tiveram mais ou menos uma aceitação unânime na religião judaica. A canonização definitiva de alguns livros da seção “escritos”, no entanto, foi bastante discutida, sendo que alguns rabinos criticaram bastante a colocação de livros como Cântico dos Cânticos, Eclesiastes e Ester na Bíblia¹. Nunca caiu do céu uma lista dos livros da Bíblia. A decisão de quais livros são sagrados e quais não são foi feita por seres humanos crentes naquele material. Existem livros muito antigos que não entraram no cânon da Bíblia, como os livros dos Macabeus e muitos outros, chamados “apócrifos”, termo de origem grega que significa “ocultos”. Esses livros, apesar de não estarem na Bíblia, são importantes para o conhecimento da história do povo judeu. Nos Macabeus, por exemplo, lemos sobre a vitória dos hebreus sobre o opressor império grego, que perseguiu os fiéis da Lei de Moisés. Essa vitória militar/cultural originou a celebração chamada “Hanucá”, “festa da dedicação” ou “festa das luzes”, uma importante celebração anual judaica que é considerada com o mesmo status da festa de Purim, citada no livro de Ester, da Bíblia.
Para o judaísmo tradicional, o livro que tem autoridade para a prática diária dos fiéis é a Torá, fonte de 613 mandamentos que devem ser obedecidos, e que possuem origem divina. Os Profetas, Escritos e centenas de outros livros de todas as épocas são considerados importantes para o judaísmo, mas nenhum tem o status dos cinco primeiros livros da Bíblia. Isso acontece porque, de acordo com a fé judaica como explicada por Moisés Maimônides (1135 -1204), Moisés é o profeta superior. Não existe profeta como Moisés, nem existiu antes dele, nem depois. A profecia dos demais profetas, portanto, deve ser medida pela Torá. Os demais livros da Bíblia Hebraica não possuem o mesmo valor para a fé e prática que a Torá². A visão que o judaísmo tem da Bíblia é, portanto, diferente da que tem o cristianismo. É verdade que, de acordo com os princípios da fé judaica, a Torá é de origem divina³. Maimônides sustentava que até mesmo o texto da Torá é de origem divina, nenhuma passagem sendo inferior às outras. O mesmo autor jamais disse a mesma coisa sobre as outras duas partes do Tanakh (Profetas e Escritos).
Outra crença estranha ao judaísmo tradicional é: “a única fonte de autoridade religiosa é a Bíblia”. Apesar de a Torá ter o valor exposto acima, é fácil perceber que há lacunas, ambiguidades e problemas de tradução na Torá, de modo que as informações necessárias para decodificar e explicar os mandamentos são também consideradas sagradas, e chamadas “Torá Oral”. O judaísmo ensina que a Torá Escrita possui apenas parte da Torá, sendo a Torá Oral codificada posteriormente em livros como a Michná e o Talmud. Esses livros não são considerados como tendo texto de origem divina, mas seu conteúdo é importante pois os rabinos teriam a autoridade para explicar questões da Torá Escrita. Alguns exemplos de lacunas da Torá Escrita: Somos ordenados a considerar certo mês como o primeiro do ano (Ex 12, 2), mas não há nada escrito sobre “o que é um mês” ou como funciona o calendário. Somos proibidos de fazer “obras”/trabalho no sétimo dia (Ex 20, 10), mas não está na Torá escrita quais são essas obras. Muitíssimos outros argumentos são usados para provar a existência de uma Torá Oral. 
A própria Torá Escrita institui um tribunal humano para julgar dentro das leis, ordenando que o povo obedeça a decisão desse tribunal (Dt 16, 18; 17, 8-11). Assim, em casos de dúvidas ou necessidade de explicação da Lei Escrita, considera-se lícito que o tribunal rabínico devidamente credenciado decida como as pessoas devem se comportar.  Essas decisões não são consideradas “acréscimos” à Torá.
 A posição do judaísmo tradicional, portanto é: a Torá (cinco primeiros livros da Bíblia) tem autoridade e é de origem divina. Os demais livros da Bíblia (Profetas e Escritos) são importantes, porque falam sobre a Torá. É impossível seguir apenas a Torá Escrita, pois ela contém lacunas e deixa o praticante na dúvida. É necessário seguir uma tradição fora da Torá Escrita para entender a forma verdadeira de obedecer a Torá. Essa tradição é chamada “Torá Oral” e está em outros livros.
Existem ramificações judaicas minoritárias, como os caraítas, que pregam que as tradições dos rabinos não devem ser obedecidas, toda a autoridade pertencendo à Bíblia. Esses movimentos, no entanto, apesar de possuírem casas de oração no mundo todo, não têm grande força no mundo judaico e são considerados pelos judeus ortodoxos como grupos “de fora”.

b)      O Islã – A religião islâmica reconhece a Bíblia como fonte de histórias e ensinamentos verdadeiros, apesar de considerar que a revelação definitiva não é a Bíblia nem o Novo Testamento, e sim o Alcorão, texto revelado ao profeta Maomé (Muhâmad), de acordo com essa religião. Muitos personagens do Antigo e do Novo Testamentos aparecem no Alcorão, como Noé, Abraão, Isaac, Ismael, Moisés, João, José, Maria e Jesus. Apesar disso, de acordo com certo escritor sobre o islã:

Para o Alcorão – que é a palavra de Deus – judeus e cristãos desnaturaram a Revelação. Por esse motivo, Maomé é “o Selo dos profetas”, enviado para purificar a Revelação até o final dos tempos

Assim, apesar de aceitar as mensagens bíblicas, o islã defende que judeus e cristãos corromperam o ensinamento verdadeiro da Revelação (inclusive adulteraram os textos), que foi resgatado no livro que, esse sim, é o presente supremo para a humanidade, o Alcorão (ou simplesmente Corão. O nome significa “a recitação”). Apesar de venerar o Alcorão, os muçulmanos não dizem que este livro é autoexplicativo e suficiente para a prática do fiel. Portanto, além do Alcorão, os muçulmanos recorrem à “sunna” (“tradição de Maomé”) e à “fiqh” ou jurisprudência. Como este artigo trata apenas da Bíblia, uma discussão a respeito da veracidade do Islã está fora dos nossos interesses agora. Passemos aos cristianismos.

c)      O Cristianismo Católico – Esta informação pode surpreender a muitos, mas de acordo com a doutrina católica, a Bíblia (somada ao Novo Testamento) não é a única coisa que tem autoridade sobre a vida cristã. A Bíblia não engloba todo o plano de Deus para a humanidade. Para essa religião, a Bíblia é o registro escrito, apesar de revelado, de uma época da Igreja, uma época em que a Igreja já estava bem estabelecida, com apóstolos e pessoas que tinham o conhecimento de como os textos devem ser interpretados. Há o texto da Bíblia e a Igreja viva que o interpreta e vive de acordo com ele. Assim sendo, a Igreja Católica reconhece a tradição e o chamado Magistério da Igreja (instituição com autoridade transmitida por Jesus) como os únicos meios corretos de se interpretar a Bíblia, sendo que outras formas de entender o livro não são consideradas corretas. Os seguintes textos pertencem ao Catecismo da Igreja Católica :


80. «A Tradição sagrada e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito, derivando ambas da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim» (...).

81. «A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito divino».

«A sagrada Tradição, por sua vez, conserva a Palavra de Deus, confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos, e transmite-a integralmente aos seus sucessores, para que eles, com a luz do Espírito da verdade, fielmente a conservem, exponham e difundam na sua pregação» (47).

82. Daí resulta que a Igreja, a quem está confiada a transmissão e interpretação da Revelação, «não tira só da Sagrada Escritura a sua certeza a respeito de todas as coisas reveladas. Por isso, ambas devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de piedade e reverência» (48).

85. «O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo (51), isto é, aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma.

86. «Todavia, este Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado» (52).


88. O Magistério da Igreja faz pleno uso da autoridade que recebeu de Cristo quando define dogmas, isto é, quando propõe, dum modo que obriga o povo cristão a uma adesão irrevogável de fé, verdades contidas na Revelação divina ou quando propõe, de modo definitivo, verdades que tenham com elas um nexo necessário.

            Sabemos, portanto, pelas palavras do documento acima, que, do ponto de vista católico, o fiel em particular, estudando sua Bíblia traduzida, não necessariamente chegará ao conhecimento das verdades bíblicas e vai interpretar tudo errado se não estiver conectado com a fonte viva da Igreja, que tem autoridade para interpretar a Bíblia. Assim como o Judaísmo, o Catolicismo entende que as Escrituras contêm lacunas, ambiguidades e talvez até problemas de tradução. Ambas as religiões confiam nas tradições, nas opiniões das autoridades religiosas, dos grandes filósofos, doutores e sábios do passado, nas pessoas que estavam mais próximas às que escreveram os textos. Ambas se consideram religiões “organizadas”, bem fundamentadas, firmes, que não estão baseadas na intuição da leitura particular de um leigo, supostamente inspirado ou coisa parecida, e sim em explicações feitas há milhares de anos por autoridades.
            Dito isso, não é possível que se considere normal que tantos protestantes vivam revoltados porque os católicos “leem versículos que proíbem a idolatria e não se sensibilizam”, já que não bastam os textos, há também a interpretação deles! A Igreja Católica Romana não ensina que você deve ler a Bíblia e entendê-la individualmente! Ora, o fato de a Igreja Católica estar aí há milhares de anos parece sugerir que pelo menos algum padre em todo esse período leu os textos contra “procissões” e explicou de uma forma diferente! Parece óbvio, não? Não é muito pretensioso pensar que padres nunca leram a Bíblia? Por outro lado, também não pode ser normal que tantos católicos se deparem com o discurso protestante e não tenham conhecimento de fontes como o Catecismo, citado acima, para dar-lhes a resposta de sua própria fé. É uma falha educacional dos religiosos.   


d)     O Cristianismo Protestante – As atuais igrejas protestantes e evangélicas são frutos históricos do movimento chamado Reforma Protestante. Na Idade Média, a Igreja Católica Romana exercia um poder imenso sobre as vidas das pessoas no mundo ocidental. Muitas coisas, desde o dia a dia dos camponeses até questões políticas internacionais, eram orientadas pela Igreja. Como vimos acima, a Igreja Católica afirma ter autoridade dada por Cristo para aplicar as leis cristãs. Essa forma de ver as coisas baseia-se em versículos como Mt 16, 18-19, em que, para o católico, Jesus dá a Pedro (“primeiro papa”) autoridade espiritual sobre os cristãos. Como tudo funcionava organizado hierarquicamente, havia uma enorme separação entre o clero e os leigos. Muitos destes últimos, por não terem uma educação religiosa e secular adequada, não conheciam as escrituras e muitas vezes nem entendiam direito as doutrinas eclesiásticas, desenvolvendo superstições que muitas vezes também eram ensinadas por ministros pouco instruídos. A Igreja foi usando cada vez mais sua suposta autoridade para ordenar como os cristãos deveriam se portar, instituindo, em seus concílios, novas crenças e práticas. Algumas pessoas de educação religiosa começaram a ver que várias dessas crenças e práticas não pareciam harmoniosas com o que aparentemente os evangelhos ensinam. Coisas como batismo infantil, vendas de indulgências e relíquias, separação entre o clero e o povo, ignorância das Escrituras (mantidas em latim, língua dos intelectuais) e veneração exagerada dos santos pareciam tão distantes do evangelho! Homens como John Wycliffe (1328-1384), John Huss (1369-1415) e Martinho Lutero (1483 - 1546), em lugares e épocas diferentes, questionaram práticas católicas, baseados no Evangelho. Todos esses questionadores e seus seguidores foram perseguidos, muitos chegaram a ser executados ou mortos em massacres. A Reforma Protestante (movimento de contestação e reformulação dos dogmas cristãos) não foi obra de um único homem, e sim um produto histórico de diversos fatores religiosos, sociais e políticos.
É muito importante falar sobre a história das religiões protestantes, porque muitos dos atuais evangélicos desconhecem totalmente essa história, que é tão importante para eles! Mas falar, em uma página ou duas, de todos esses homens e seus feitos e das questões sociais e políticas que levaram à Reforma não é possível. É necessário que outros textos sejam produzidos para esclarecer mais às massas o que foi a Reforma, quais eram as grandes diferenças entre o que os reformadores pregavam e a doutrina católica e também as diferenças entre aqueles e os atuais evangélicos. As crenças de muitos desses reformadores não eram iguais ao que se prega hoje nas religiões evangélicas!
Nesta breve síntese, elegemos, por questão de espaço, o reformador Martinho Lutero para comentarmos, muito brevemente, quais foram suas principais obras e como contribuiu para o rompimento com o catolicismo romano. Lutero era filho de um alemão rico – que queria que o filho fosse advogado – e teve uma boa educação, alcançando o grau de bacharel em Artes e o de mestre em Artes. Movido por seus conflitos interiores e, segundo dizem vários livros, após fazer uma promessa a Santa Ana dizendo que seria monge caso escapasse de uma grande tempestade com raios, entrou para um convento de agostinianos. Martinho Lutero sempre foi marcado por um grande apreço pelas escrituras e teve amigos sinceros e devotos dentro da religião católica. Tornou-se padre em 1507. Muitos dizem que os conflitos morais de Lutero se acentuaram enquanto ele servia como sacerdote, e que ele não se sentia bem ao celebrar a missa. Sentia-se indigno. Na área dos estudos, porém, ele era um sucesso. Recebeu o título de bacharel em Teologia e foi enviado a Roma para tratar de interesses de sua ordem. Na capital da Cristandade, em 1510, Lutero se surpreendeu e ficou chocado com a visão da corrupção e desleixo de muitos membros do clero e dos leigos, que usavam de tudo quanto era artifício para não fazerem penitência (contrição e arrependimento), usando como desculpa a facilidade das relíquias, missas e indulgências compradas de religiosos, que asseguravam o perdão de pecados nesta vida e na vida após a morte!
Além de promover uma clara inversão de valores, é necessário explicar que o “comércio da fé” tinha uma implicação desfavorável para a nação alemã, ao mesmo tempo que enriquecia Roma: indulgências também se vendiam na Alemanha, mas o dinheiro, ou grande parte dele, ia para Roma, sobretudo para ser usado na reforma da basílica de São Pedro. Os políticos alemães, todo o povo e o próprio Lutero eram conscientes disso e reclamavam dessa exploração excessiva do povo cristão. Havia uma parte do povo que veria também no que futuramente seriam as reivindicações teológicas de Lutero uma mudança de vida, após a qual seria liberta não somente da religião católica como também da opressão de uma elite representada por pessoas que enriqueciam através da religião.
As plenamente conhecidas 95 teses vieram a ser publicadas em 1517. Lutero, nesta época, não tinha a intenção de dividir a Igreja. Ele queria tão somente debater, enquanto teólogo, a validade, para o catolicismo, da doutrina das indulgências como eficazes para perdoar pecados após a morte! A reação católica, porém, não foi tão amigável. Lutero foi chamado a comparecer em Roma. Usando da proteção política de Frederico, o Sábio, Lutero conseguiu fazer com que fosse ouvido em território alemão. Após diversos debates, audições e controvérsias, as ideias luteranas foram finalmente declaradas heréticas em 1520 por bula papal. Martinho Lutero queimou publicamente, neste mesmo ano, o documento. É o início de uma nova era para o cristianismo.
Na obra “do Cativeiro Babilônico da Igreja”, publicada também em 1520, Lutero explica suas discordâncias teológicas com os fundamentos da doutrina católica dos sacramentos. A Igreja Católica ensina que existem sete sacramentos. Lutero pregou que só podem ser reconhecidos dois sacramentos através das escrituras: o batismo e a eucaristia. Podemos observar a partir dessa redução que Lutero não considerava as decisões que a Igreja tomava com base na tradição e nos chamados concílios como tendo o mesmo valor que as Escrituras. Para Lutero, não se pode colocar outra coisa no mesmo nível de autoridade religiosa para o cristão que a Bíblia.
Duas outras coisas precisam ser ditas a respeito da visão luterana sobre o Livro Sagrado: Lutero considerava que existem níveis de autoridade dentro do Novo Testamento. Em “o Cativeiro Babilônico da Igreja”, ele afirma que o autor da carta de Tiago “(...) ainda que fosse o apóstolo Tiago, diria que não é lícito que o apóstolo institua um Sacramento por sua autoridade (...), pois isso cabe somente a Cristo.” . Não há dúvida sobre o quanto isso pode soar estranho para o evangélico que afirma que a Bíblia inteira, de capa a capa, é o livro da autoridade! O líder protestante também citou livros apócrifos. Eclesiástico, por exemplo. Finalmente, Lutero jamais rejeitou a ideia de tradições, enquanto práticas “opcionais”, mas salutares. Na mesma obra que estamos citando, o autor reconheceu como válidas e elogia várias tradições católicas! Lutero não considerava obrigatória a submersão na água no momento do batismo (idem, p. 68), julgava útil e necessária a confissão, assim como praticada no catolicismo (idem, p. 82) e não considerava correto abolir a ordenação de religiosos (idem, p. 101). Em síntese, citando as palavras do autor (idem p. 92):

Devemos discernir muito bem entre as coisas que foram dadas por Deus nas Sagradas Escrituras e aquelas que foram inventadas por homens na Igreja, qualquer que seja a santidade e a doutrina pela qual se destacam.

Hoje, faltando um ano para se completar meio milênio da publicação das 95 teses de Lutero, temos um número imenso de denominações chamadas evangélicas, protestantes ou reformadas, espalhadas por todos os cantos do planeta. Após homens como Lutero e Calvino darem os primeiros passos, o protestantismo foi se dividindo cada vez mais, pois discordâncias de pensamento foram surgindo. Isso acontece porque as denominações evangélicas (e também as dissidentes que rejeitaram o rótulo) afirmam “seguir a Bíblia”, “seguir apenas a Bíblia”. Quando uma pessoa do clero de uma igreja evangélica “descobre” na Bíblia que as doutrinas da denominação não estão de acordo com diversos versículos unidos entre si, ela sai e se une a outra denominação, ou funda uma nova igreja, essa sim, “totalmente bíblica”. Muitos amigos evangélicos que o leitor possa ter diriam, em uma discussão a respeito de teologia, que não seguem religião nenhuma, seguem apenas as Escrituras como o “único manual de fé e prática”.

Agora, após essa pequena viagem pelas principais religiões “bíblicas” do mundo, vamos tentar discutir o assunto de modo menos parcial possível. Será que a afirmação de que “é possível crer só na Bíblia” faz sentido? A Bíblia é o manual para tudo? É a única fonte? O que a Bíblia diz de si mesma?  


A Bíblia é o manual que fala de todos os assuntos?
           
É verdade que a Bíblia trata de uma imensa gama de temas diferentes. Desde espiritualidade, história, dia a dia, dinheiro, casamento, tudo isso está dentro das páginas desse grande volume que é a Escritura. Mas todos os assuntos, as respostas para todas as perguntas que o fiel possa fazer, estão na Bíblia?
Na verdade, existem temas de que a Bíblia não fala quase nada ou nada, como por exemplo a vida após a morte, ciência, política e artes. No “Antigo Testamento”, as citações a ressurreição e vida após a morte são pouquíssimas, geralmente indiretas e sutis (Dt 32, 39; Is 26, 19; Dn 12, 2). No Novo Testamento há muitas citações à ressurreição dos mortos, mas não sobre a vida após a morte, no sentido de imortalidade da alma. As denominações protestantes, por esse motivo, estão divididas quanto ao pós-morte. Alguns pregam um estado de sono totalmente inconsciente para o ser humano até a ressurreição, outros usam resquícios de versículos para defender a imortalidade da alma. Os textos usados para defender a imortalidade no Novo Testamento são: a parábola do rico e Lázaro (Lc 16, 19-31), uma visão de almas sob o altar (Ap 6, 9), e a fala controversa de Jesus ao ladrão da cruz, sobre estar “hoje” no paraíso (Lc 23, 43). Os que defendem o sono inconsciente usam versículos “pessimistas” de Eclesiastes e a suposta fórmula “corpo + espírito = alma”, retirada de Gn 2,7. Mas esses versículos foram escritos com a intenção de estabelecer doutrina a respeito da vida humana? Não podem ser relatos e reflexões que não tinham a intenção de serem artigos de fé? Tanto o Judaísmo quanto as autoridades cristãs chamam atenção para o perigo de se entender errado o Eclesiastes, livro “filosófico” que sugere que tudo é vaidade e que quase ficou de fora do cânon. Será que só existe uma forma de interpretar cada texto?


Só existe uma maneira, clara e inequívoca, de se entender a Bíblia?

Perceba, leitor, que tanto uma quanto outra ramificação protestante citadas acima usam versículos da Bíblia geralmente sem considerar gêneros textuais, contexto dos livros, crítica textual, tradição, nada disso! Apenas usam os textos convictos de que cada versículo da Bíblia é uma revelação Divina, livre de qualquer intervenção humana e de contradições, ambiguidades, figuras de linguagem, gêneros textuais, lacunas etc.! Tratam a Bíblia como se fosse o manual divino para todos os assuntos! Mas ela não é esse manual! Se a Bíblia fosse o manual dado por Deus para todos os leigos do mundo, contendo orientações para todas as áreas da vida, por que ela não é mais curta, clara e sem nenhum problema de compreensão? Por que ela contém tanta história de Israel, genealogias e versículos que deixam dúvidas?
Parece-me que o fato de existirem milhões de igrejas protestantes espalhadas pelo mundo é por si só o argumento que mostra que a Bíblia não é suficientemente clara e com apenas uma leitura possível! Por que as igrejas que defendem a divindade de Jesus têm tantos bons argumentos dentro do Novo Testamento (Jo 1, 1-14; Fl 2, 5-6; 9-11 cp. Is 45, 22-23; Tt 2, 13; I Jo 5,20; II Co 4, 4 etc.) e os que condenam a trindade como idolatria também têm (Jo 14, 28; 17, 3; 20, 17; I Co 8, 6; II Co 1, 3; Mt 24, 16; 27, 46 etc.)? A mesma coisa acontece com uma infinidade de outras doutrinas, como abolição da Lei versus vigência da Lei ou de parte dela, morada futura no céu versus morada na terra (esse tema insignificante é motivo de separação e gritos entre igrejas protestantes!), batismo trinitariano versus batismo em nome de Jesus, etc. No campo da escatologia (estudo do final dos tempos), as diferenças vão para o infinito!
Se a Bíblia é clara o suficiente, por que isso acontece, então? É claro, muitos que estão lendo este artigo e chegaram até aqui estão agora dizendo que explicam os versículos “do outro lado” através de uma lógica, de uma interpretação pessoal. Ora, se há interpretação pessoal, lógica humana, logo há uma tradição, um sistema organizacional dos textos, uma religião! Não se está seguindo só a Bíblia! Vamos parar com esse negócio de dizer que você não segue religião e sim a Bíblia, por favor! Milhões de igrejas que discordam muito de você afirmam a mesma coisa!
A Bíblia é como a constituição ou outro texto. Não em seu valor, já que nenhum outro livro tem o valor que tem a Bíblia, mas sim em sua interpretação. A Bíblia é um texto, e precisa ser interpretado. Por que cada jurista tem, frequentemente, uma diferente visão a respeito da interpretação de certa parte da constituição? Por que os políticos de posições opostas citam a constituição para afirmar que a posição do outro é inaceitável? Temos sete bilhões de pessoas no mundo. Quem garante que a interpretação de uma delas é a correta, enquanto as demais estão erradas? Cada pessoa, interpretando a Bíblia independentemente, vai chegar a conclusões diferentes! E é por isso que surgem tantas igrejas todos os dias, cada uma dizendo que entendeu a Bíblia. A interpretação da Bíblia feita por qualquer pessoa só pode produzir esse efeito! Comprovaremos essas afirmações! Vamos ver na prática como opera a interpretação bíblica. Veja algumas questões:

a)        A oração do “Pai-nosso” deve ser sempre feita ou era um “modelo” alterável? – “Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome (...)” (Mt 6, 9).

b)        A prática do “lava-pés” deve acontecer nas igrejas? Quando deve ser feita? Ou estas palavras são simbólicas? – “Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.” (Jo 13,14-15)

c)        Quando comemorar a “ceia do senhor”? Diariamente? Semanalmente? Mensalmente? Anualmente? Há igrejas para cada uma dessas opções e para outras! Qual está cumprindo o mandamento de Jesus?

d)       A mulher deve usar véu ou era apenas um costume local da época? - “e toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça; pois é como se a tivesse rapada.  Se a mulher não cobre a cabeça, deve também cortar o cabelo; se, porém, é vergonhoso para a mulher ter o cabelo cortado ou rapado, ela deve cobrir a cabeça.” (1 Co 11, 5-6)

A quantidade de polêmicas como essas acima é imensa! É por isso que há tantas igrejas! Existem também textos que têm tradução muito difícil desde o original. Veja um exemplo:

a)      “José é um ramo frutífero, ramo frutífero junto à fonte; seus ramos correm sobre o muro. Os flecheiros lhe deram amargura, e o flecharam e odiaram” (Gn 49, 22-23 - ACRF)

b)      “Filho frutífero será José, filho frutífero junto à fonte; moças andaram sobre a muralha para vê-lo. Os flecheiros o amarguraram, inimizaram-se com ele e o torturaram” (Idem, Bíblia Hebraica)

c)      “José é o rebento de uma planta frondosa, rebento de uma planta frondosa perto de uma fonte; seus ramos transpõem o muro. Provocaram-no, brigaram com ele, os arqueiros guerrearam contra ele” (idem, TEB).

É verdade que esse texto, aparentemente, não tem nenhuma implicação teológica importante, mas o mesmo fenômeno ocorre envolvendo textos “decisivos”, como o já citado Lc 23, 4, que em algumas versões traz “te digo hoje: estarás comigo no paraíso” e em outras “te digo: hoje estarás comigo no paraíso”. Ora, isso é importante para a doutrina da imortalidade ou aniquilamento da alma! Outro caso é o primeiro capítulo de João, que, em várias traduções, afirma que “o verbo era Deus”, e segundo outras, baseados na gramática grega, afirma que “o verbo era divino” ou coisa parecida! Isso é importante para a doutrina da trindade/unidade!
A essa altura do campeonato, muitos protestantes apelarão para a afirmação de que “a Bíblia é compreendida através de revelações”. Bem, existem dois problemas com essa afirmação: em primeiro lugar, não se pode verificar se fulano teve ou não revelação! Como posso conferir se é verdade que fulano teve revelação e eu não? Não é um argumento “justo”! É muito fácil ganhar uma discussão bíblica com essa afirmação, que muito facilmente vira uma desculpa que beira a brincadeira com Deus! O profeta Jeremias, falando em nome de Deus, afirma:Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jr 17, 9). Deus falou é que muito fácil que nos enganemos por nossos próprios corações! Como podemos nos basear em supostas revelações, que se confundem com as emoções que as pessoas têm, por já acreditarem na ocorrência de revelações?
Em segundo lugar, pressupondo que a Bíblia é a chave para tudo, onde a própria Bíblia afirma que precisa das revelações para ser entendida? Vão citar I Co 2, 14; Jó 32, 8; Lc 24, 45 e Sl 119, 18. Mas nenhum desses versículos fala que a interpretação da Bíblia depende de revelação, de modo que “sem revelação, nada feito” ! A própria interpretação é necessária para desprender essa doutrina desses versículos! Se a interpretação só pode vir mediante revelação, por que estudar a Bíblia? Por que os famosos bereanos analisavam se o ensinamento estava direitinho de acordo com as escrituras e são chamados de nobres (At 17, 11)?
Além das reflexões acima, a respeito da diversidade de interpretações e de traduções da Bíblia, de acordo com a crítica, baseada em diversos manuscritos, muitos textos não estariam nos originais, por exemplo, do Novo Testamento. Foram acrescentados posteriormente, vários deles, por interesses religiosos. Apenas para citar alguns exemplos:

a)    Mt 17, 21
b)   Mc 16, 8
c)    Jo 7, 53 – 8, 11
d)   I Jo 5, 7 (em parte)

Portanto, eu deixo para o leitor sincero as seguintes perguntas: se devemos seguir a Bíblia, que Bíblia devemos seguir?

1-      Em que interpretação?
2-      Em que tradução?
3-      Seguindo ou não a crítica textual, arqueologia etc.?
4-      Com ou sem os apócrifos (um monte de livros antigos que ficaram de fora da Bíblia)? Que livros são os sagrados?

Se por um lado a falta de clareza e as ambiguidades da Bíblia mostram que ela não pode ser totalmente entendida ao estilo protestante, por outro, se tomamos a Bíblia como a medida para todas as coisas, logo, quem deveria determinar o cânon da Bíblia seria a própria Bíblia! Quem deveria dizer que a Bíblia é o manualzinho também seria a própria Bíblia! Ora, quem determinou os livros que compõem a Bíblia não foi a própria Bíblia, foi algo de fora da Bíblia, seres humanos! Então, quem usa a Bíblia de 66 livros está testemunhando que uma tradição determinou os livros que são apropriados e os que não são! A propósito, o que a Bíblia diz de si mesma? Ela reclama inspiração divina? Diz que ela é o único livro portador de autoridade?


O que a Bíblia diz de si mesma?

            Não existe passagem nenhuma do Antigo Testamento que reclame autoria ou inspiração divina para todo esse livro! Nenhuma! Ora, os salmos estão assinados por seus autores: Salmo de David, salmo de Asaf (exemplos: 72, 73, 74, 141, 143)! Como é possível que esses autores escrevam as palavras de Deus e assinem em seus nomes? Também constatamos que os salmos relatam os dramas pessoais de David, por exemplo. Existem salmos escritos em momentos de dor, angústia, quando David estava fugindo de seus inimigos, outros estão carregados de arrependimento, em momentos em que o rei foi castigado por seus pecados (ver 51, 57 etc.). Ou seja: são poemas, escritos por um ser humano cheio de talento para falar de seus sentimentos! Os provérbios são ditos sapienciais, compostos e compilados por escritores (Pv 25, 1). As crônicas são... adivinhe! Crônicas de reis, a história de Israel colocada em escrito, assim como qualquer povo escrevia suas crônicas. O autor das Crônicas chega a ocultar, de propósito, pecados de reis como Salomão, pecados sobre os quais lemos nos livros dos Reis. Eclesiastes é composto por reflexões a respeito da vida humana, feitas por uma pessoa que viveu diversas situações diferentes e agora deseja contar o que tira de lição de tudo que observou (Ec 1, 12-14). Cântico dos Cânticos é uma poesia romântica, sobre amor e sexo! Perceba como as pessoas entendem tudo de modo errado!
            Por outro lado, existe uma parcela da Bíblia que, essa sim, afirma ter sido ordenada pelo próprio Deus. Essa parcela compreende a Torá (Pentateuco), chamada “Lei do Senhor”, cuja afirmação mais frequente é “E falou o Senhor a Moisés, dizendo...” (Ex 40, 1; Nm 20, 7 etc.), e boa parte dos livros dos profetas, que contém ditos do Criador (ex.: Jr 1, 4; Zc 1,3). Perceba: se toda a Bíblia fosse composta e ditada por Deus, por que apenas uma parte dela afirma repetidamente, de modo muito bem assinalado, que o autor de certos parágrafos é Deus? Em outras palavras, seria como se você escrevesse uma carta de nove páginas para sua namorada e, a cada parágrafo, no começo, colocasse um “sou eu, Fulano, quem digo o seguinte...”! Não faz o menor sentido! Portanto, apenas parte (Lei e parte dos profetas) do Antigo Testamento afirma ter autoria divina.
            Só que vem o Novo Testamento e muda bastante a situação. Versículos no Novo Testamento alegam que os salmos foram escritos sob “inspiração do Espírito Santo” (Mc 12, 36; At 1, 16 etc.). Existe também um versículo que, em algumas traduções afirma que “Toda a Escritura é inspirada por Deus (...)” (II Tm 3,16 TEB). É claro que isso se referia ao Antigo Testamento, porque o Novo não estava terminado ainda! Porém, como vimos acima, nenhum lugar do Antigo Testamento afirma que todo o livro possui inspiração divina. Muito pelo contrário: as passagens do Antigo Testamento que dizem ter autoria Divina deixam isso muito claro, afirmando que Deus falou! Por outro lado, o versículo da carta a Timóteo, citado acima, também é um caso de tradição variável. Outras versões podem trazer “Toda a Escritura divinamente inspirada é também útil (...)” (idem, SBB), o que não obrigatoriamente significa que tudo o que está entre as capas da Bíblia é inspirado, e sim que as coisas que aí estão e que são inspiradas são úteis para ensinar, repreender, corrigir etc.!
            Curiosamente, portanto, o ensinamento que diz que a Bíblia inteira foi ditada ou dada por Deus é estranho à própria Bíblia! Deixo aqui mais uma reflexão: sabendo que vários livros do chamado Antigo Testamento não têm pretensão de serem inspirados, tendo gêneros textuais bem definidos (poesia, história, provérbio etc.), o mesmo não poderia ser dito sobre as cartas do Novo Testamento? Alguns textos do Novo Testamento citam até mesmo coisas como conselhos do autor em relação à saúde do destinatário (I Tm 5, 23) e ordens para que o destinatário traga livros e roupas para o remetente (II Tm 4, 13)!
            Há também uma questão impressionante que, surpreendentemente passa despercebida por muitos leitores que acham que a Bíblia é o único livro com autoridade, que torcem a cara se você citar outra fonte e pedem “base bíblica” para tudo: a própria Bíblia e o Novo Testamento citam livros de fora de seu conteúdo! Veja com seus próprios olhos estes versículos que citam:

a)      Livro das guerras do Senhor (Nm 21,14-15)
b)      Livro do justo (Js 10,12-13 e II Sm 1,18)
c)      Vários provérbios e cânticos exteriores de Salomão (1Rs 4,32-33)
d)     Livro dos Atos de Salomão (1Rs 11,41)
e)      Epístola de Paulo aos coríntios, prévia a I Co (I Co 5, 9-10)
f)       Carta de Paulo aos Laodicenses (Cl 4,15-16)
g)      A profecia de Enoc e a disputa pelo corpo de Moisés (Jd 1, 9. 14-15)

Ora, a própria Bíblia, que muitos dizem ser a única autoridade, cita como autoridades outros livros, livros estranhos à Bíblia! Isso não significa que a Bíblia é apenas parte de uma tradição literária muito maior, como afirmam os judeus e católicos? Como se pode dizer ou se comportar como se a Bíblia fosse o único manualzinho para todas as coisas nesta vida, unica e objetivamente a Bíblia, quando a própria Bíblia e o Novo Testamento citam coisas de fora da Bíblia?


Os protestantes realmente “seguem só a Bíblia”?
           
            Perguntar não ofende: se os protestantes seguem apenas a Bíblia, por que têm costumes e regras estranhos às Escrituras? Exemplos: Natal, veneração ao domingo, roupas obrigatórias, proibição de música não-religiosa, álcool, festas etc., dízimos (que são do Antigo Testamento, que eles afirmam ter sido abolido; além disso, o dízimo era outra coisa!) e muitos outros costumes. Proibir com advertências de punições o que a Escritura não proíbe significa tirar do cristão sua liberdade, em termos luteranos! Ora, por que têm costumes? Pensei que a Bíblia era a única coisa a ser seguida! Por que dizem que a questão do véu, trazida por Paulo em Coríntios, é questão de cultura local da época e não aplicam a mesma lógica a outros assuntos? A resposta é simples: os protestantes não seguem unicamente a Bíblia! São uma religião como qualquer outra. E existem milhões de igrejas protestantes com crenças diferentes entre si, muito mais do que qualquer outra religião do mundo, exata e ironicamente porque essa religião diz seguir apenas a Bíblia! Cada uma das centenas de milhares de igrejas segue “apenas a Bíblia” a seu modo!
            Eu peço perdão se tudo isso dito acima soou antiprotestante, porque, definitivamente, não foi minha intenção fazer juízo de valor entre religiões. Não estou aqui propondo uma escala de religiões “boas” e “ruins”. Não é isso! Minha proposta é esclarecer que essa afirmação de que existem igrejas que “só seguem a Bíblia” é uma falácia! Desculpe, mas é obviamente uma falácia! Por outro lado, posso respeitar totalmente, sem nenhuma reserva, as igrejas protestantes e evangélicas que não demonizam a palavra “religião”, assumem que são uma religião, abraçam as demais religiões, ensinam a civilidade e o respeito à pluralidade! Essas instituições merecem toda a nossa consideração!

Constatações

  • ·         Só existe uma das grandes religiões que afirma seguir somente a Bíblia: a religião protestante/evangélica, em todas as suas ramificações;
  • ·         As religiões judaica e católica afirmam que possuem tradições milenares, além do Antigo e Novo Testamentos. A interpretação desses livros precisa ser feita, para elas, de acordo com essas tradições;
  • ·         Não faz o menor sentido tentar convencer, portanto, um católico usando a interpretação protestante da Bíblia. O católico instruído na doutrina não crê que precisa ler a Bíblia entendendo-a por si só, e sim através da Igreja;
  • ·         Existem enormes polêmicas envolvendo a interpretação, tradução e composição da Bíblia;
  • ·         A Bíblia contém lacunas (“falta dizer uma coisa” para preencher alguns textos), ambiguidades (textos que se prestam a mais de uma interpretação) e controvérsias quanto à tradução;
  • ·         O argumento de que “só se entende a Bíblia por revelações” não é verificável na prática e não tem base bíblica; 
  • ·         Pelo fato de a Bíblia conter lacunas, “crer só na Bíblia” não existe; Você precisa confiar, no mínimo, também em suas habilidades para interpretá-la;
  • ·         A Bíblia não afirma que ela é a única coisa a ser seguida / manual para tudo;
  • ·         A Bíblia não afirma que o autor da Bíblia inteira é Deus;
  • ·         A Bíblia cita textos e instituições de fora da Bíblia como autoridades;
  • ·         A Bíblia não diz que ela possui 66 livros e quais são eles. Quem estabeleceu o que é a Bíblia foram seres humanos;
  • ·         As pessoas que dizem “seguir só a Bíblia”, na verdade seguem apenas uma interpretação da Bíblia, uma versão do texto etc.;
  • ·         Os protestantes/evangélicos possuem costumes estranhos ao texto bíblico, assim como as outras religiões;
  • ·         Os protestantes/evangélicos possuem uma religião, por mais que rejeitem o termo;
  • ·         A quantidade imensa de igrejas protestantes/evangélicas que surgem a cada dia é causada pela livre interpretação individual da Bíblia;
  • ·         Existem várias religiões “bíblicas” porque existem várias formas de se interpretar a Bíblia. Essa diversidade não deve ser combatida, e sim respeitada;
  • ·         Todas as religiões possuem lógica e explicações. Todas devem ser respeitadas. No entanto, é chegado o momento de os protestantes e evangélicos admitirem que não são “a religião que segue só a Bíblia”.


Conclusão
           
Este artigo não foi escrito “para afirmar que os protestantes estão errados”. Esse tipo de combate religioso é perda de tempo. O fato é que o fanatismo religioso é, infelizmente, uma característica marcante de várias denominações religiosas. Quando um religioso afirma que “não tem religião”, “não segue doutrinas de homens”, “segue apenas a palavra de Deus”, sabe o que ele está dizendo? Que todas as pessoas que seguem outras religiões são incompetentes para ler a mensagem de Deus, que seria clara e sem nenhum tipo de confusão! Está dizendo que as pessoas não sabem ler! Não sabem interpretar textos! É claro que os católicos leem a Bíblia! É claro que os judeus leem o “Antigo Testamento”. O motivo pelo qual essas pessoas não aceitam o mesmo sistema de crenças que o cristianismo protestante é: católicos e judeus não afirmam que a Bíblia deve ser “interpretada pela própria Bíblia” ou que ela é “o manual único de fé e prática”. As religiões, por mais que se baseiem em livros, têm vida própria. Os livros são mortos, o que as pessoas fazem deles é que dá origem a práticas vivas. Cada religião interpreta os textos de modo diferente. Inclusive as pessoas que acreditam em uma tradição fora da Bíblia muitas vezes usam de habilidade argumentativa para mostrar como supostos textos da Bíblia provam a existência das tradições. Todas as religiões podem ter bons argumentos e podem vencer debates, basta apenas que tenham porta-vozes hábeis o suficiente! Que cesse o orgulho de quem pretensamente tem sabedoria porque segue a Bíblia! O que existe são religiões. E não é ruim que uma coisa seja apenas isso: uma religião! Isso não é uma coisa negativa! As religiões podem fazer coisas ruins ou boas, de acordo com as pessoas e os valores que as orientam.
O que se propõe com as constatações dessa discussão não é uma tal união “hippie” de todas as religiões, nem uma rajada de ódio ateu contra todas elas. Se alguém interpretou de alguma  dessas maneiras, entendeu tudo errado. Ninguém precisa sair de sua casa e dizer pra seu amigo católico que ele está certo em sua religião! As religiões têm grandes diferenças entre si, e isso nunca vai acabar. Os debates nunca vão acabar. Ninguém deve ver uma questão de ódio em simplesmente discordarem as pessoas umas das outras. Não há ódio algum em discordar! Discordamos e somos diferentes o tempo todo! O que deve haver não é a fusão dos opostos, é a convivência, a tolerância! Convivência é você poder até mesmo discordar do seu vizinho, às vezes considerá-lo idólatra, ter até certas restrições em relação a comer com ele ou coisa parecida, mas não fazer cara feia para ele. Não levar para o público sua questão de consciência. No público, respeito e cooperação. No privado, as pessoas são livres para terem sistemas de pensamento diferentes! Não se deve misturar discordância com ódio ou perseguição. Mas é óbvio que quando você diz que você (que é religioso) não é de religião e o seu vizinho é, você “já ganhou o debate”! Você não está vendo nem mesmo a remota possibilidade de seu vizinho saber de alguma coisa! O tempo talvez mostre que você estava errado, como mostrou a muitos. Apenas comece a questionar e ter opiniões próprias, e você verá.

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¹ Fonte: Creating the Canon, disponível em http://www.myjewishlearning.com/article/creating-the-canon/#
Acesso em 07 de junho de 2016

²           O sétimo dos treze princípios da fé judaica afirma que Moisés é o “pai” de todos os profetas anteriores e posteriores, sendo, portanto, muito mais importante. A lei judaica diz que qualquer profeta, mesmo fazendo milagres, que tentar desfazer a Torá, não deve ser ouvido (Michnê Torá, Fundamentos da Torá 8, 7). Maimônides também opinou que durante a Era Messiânica, todos os livros dos profetas e escritos serão anulados, com a exceção do livro de Ester. A Torá Escrita e também a Oral, no entanto jamais serão anuladas (Leis de Meguilá e Hanucá 2, 18).

³           Oitavo princípio do judaísmo: A Torá como vinda dos Céus.

          BALTA, Paul – Islã. Tradução William Lagos – Porto Alegre, L&PM, 2010 p. 16-17

          Idem, p. 131, vocábulo “Charia”.

          O Catecismo da Igreja Católica pode ser visualizado em português (e em diversos outros idiomas) no portal do Vaticano, através do endereço http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/prima-pagina-cic_po.html
Acesso em 14 de junho de 2016

           LUTERO, Martinho. O cativeiro babilônico da Igreja.São Paulo: Martin Claret, 2006. P. 111

          Jó 32, 8 – Essa é a opinião de Eliú (v.6), e diz que o homem tem entendimento porque possui espírito;

Sl 119, 18 – Essa é uma oração do salmista pedindo que ele se torne mais sensível a perceber as maravilhas da Lei ou das instruções de Deus. Isso implica que Deus pode nos dar entendimento, mas não que se entende o texto por revelações. Refere-se à Torá, não ao Novo Testamento; 

Lc 24, 45 – Aqui um homem (não Deus!) explica textos das escrituras para que outros entendam. Qualquer pessoa pode “abrir o entendimento” de outra!

I Co 2, 14 – O texto não se refere à Bíblia, e sim à pregação dos apóstolos.