terça-feira, 8 de dezembro de 2015

“Elementos pagãos” na Bíblia: um problema?



Estamos nos aproximando das festas do fim do ano, e, sem um pingo de dúvida, você, leitor religioso, vai receber de suas redes sociais, e-mail, da mídia ou mesmo de amigos uma tempestade de artigos, áudios e vídeos com argumentos mostrando que as festas têm origens pagãs, que os próprios católicos assumem isso, que Jesus não nasceu em dezembro, etc. Eu mesmo confesso que em anos anteriores insistia muito nesse negócio de nos distanciarmos de elementos do paganismo. Talvez vocês achem até neste blog, em postagens antigas, resquícios desse tipo de abordagem. Nunca vimos tantas frentes de combate às influências pagãs e busca por uma religião pura: festas, nomes, produtos culturais (filmes, desenhos animados), comemorações como aniversários e até formas de chamar Deus são vítimas da limpeza religiosa dos “antipagãos”.

Mas minha opinião mudou um pouco, e gostaria de falar sobre isso neste artigo, que, garanto, será polêmico para muitos, e extremamente importante e revelador para outros.

Em primeiro lugar, gostaria de fazer uma pergunta para os “antipagãos” que estão lendo, dentro do tema do natal: se os próprios católicos SABEM que essa festa tem origem pagã, é algo claro e patente e não tem ninguém querendo esconder, você não percebe que eles NÃO ESTÃO ACHANDO NISSO UM PROBLEMA QUE IMPEÇA A CELEBRAÇÃO DO NATAL? Eles sabem que a celebração do domingo tem origem em costumes pagãos, os próprios padres acadêmicos, estudiosos, revelam isso em artigos, sem nenhum tipo de constrangimento! Será que eles não acham problemático celebrar coisas dos “malditos pagãos” dando uma roupagem religiosa cristã?

Que tal lermos a opinião de um católico convicto sobre isso? Vamos lá?

A adoção do 25 de dezembro de maneira nenhuma pode ser vista como adoção de alguma crença pagã pelos cristãos. Ao contrário, é precisamente este o melhor sentido da data de celebração do Natal, no mesmo dia de uma antiga festa pagã. Não é fraqueza da Igreja diante do paganismo: é uma solene declaração de vitória da fé cristã sobre o paganismo! Cristo triunfa: os falsos deuses são esquecidos, substituídos pela Luz da Verdade. É a conversão dos pagãos. É o nascer do verdadeiro Sol invicto sobre as trevas das antigas crenças: se antes celebravam um mito, agora celebram o Filho de Deus!¹

            Ou seja: é claro que todo mundo sabe que a origem da celebração é pagã! Não é a pólvora que você está descobrindo. Aliás, pra quem só lê Bíblia é sim uma descoberta, mas pra quem ESTUDA a Bíblia e OUTROS ASSUNTOS, nem tanto. Não sou cristão – sou judeu— e não celebro natal, mas entendo a comemoração dessa festividade como algo que faz sentido para os cristãos, embora não faça para mim. O que fizeram as pessoas que instituíram essa festa foi pegar a celebração pagã e colocar a simbologia cristã ali, mostrando que esta venceu e que o “povão” pagão agora continuaria com a mesma data e certos costumes, mas com OUTRO SIGNIFICADO! Entendeu?

Até aqui falei da questão da influência pagã numa crença que não é a minha, que é o cristianismo. Mas o que dizer da utilização de símbolos pagãos pelo JUDAÍSMO e pela BÍBLIA SAGRADA? Você sabia que ela existe? Para introduzir o assunto, vejamos a seguinte imagem tomando a tela inteira:


            Chocado? Pois é! Recentemente foi descoberto um selo do rei Ezequias, mencionado na Bíblia, em circunstâncias que batem com as informações bíblicas sobre esse personagem, e o selo tem dois símbolos pagãos que representam a imortalidade impressos nele! Lembrando que Ezequias não foi um rei dos maus reis de Judá não, e sim foi o melhor de todos eles, confiando no Senhor e combatendo a idolatria:

E sucedeu que, no terceiro ano de Oséias, filho de Elá, rei de Israel, começou a reinar Ezequias, filho de Acaz, rei de Judá.
(...) E fez o que era reto aos olhos do Senhor, conforme tudo o que fizera Davi, seu pai.
Ele tirou os altos, quebrou as estátuas, deitou abaixo os bosques, e fez em pedaços a serpente de metal que Moisés fizera; porquanto até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso, e lhe chamaram Neustã.
No Senhor Deus de Israel confiou, de maneira que depois dele não houve quem lhe fosse semelhante entre todos os reis de Judá, nem entre os que foram antes dele.
Porque se chegou ao Senhor, não se apartou dele, e guardou os mandamentos que o Senhor tinha dado a Moisés.

2 Reis 18, 1- 6

            Como explicar isso? Bem, eu tentaria te explicar que o povo de Deus e as próprias Escrituras utilizam linguagem e símbolos POPULARES, de modo que o povo entenda. As pessoas do tempo de Abraão, Isaac e Jacob NÃO ERAM JUDEUS ORTODOXOS, NEM CRISTÃOS PROTESTANTES! Eles viviam no meio de povos idólatras e politeístas! A cultura deles era cheia de referências ao politeísmo. É claro que a linguagem que o próprio Deus usaria para falar com eles, apesar de ser Santo, precisava ser uma linguagem dentro da cultura deles, que eles compreendessem. Vou citar um exemplo: quando Deus fez a aliança com Abraão, ele mandou que Abraão partisse vários animais pelas metades (Gn 15, 9). Por que Deus usou essa simbologia? Tem alguma coisa mística e espiritual aqui? Há alguma magia que exigisse o uso de animais esquartejados? A resposta é NÃO! Acontece que a forma que as PESSOAS, OS SERES HUMANOS usavam para fazer aliança na cultura de Abraão era aquela! Eles cortavam animais pela metade e os contratantes passavam pelo meio fazendo um juramento que se tornariam como aquelas carcaças se o quebrassem².

            Vamos para alguns outros exemplos de símbolos/ elementos da cultura “humana” ou até mesmo pagã em textos bíblicos:


Querubins

            Você acha que existe mesmo uma categoria espiritual/metafísica de anjos chamados ‘querubins’, com asas e tal? Diga-me: por que Deus precisaria de criaturas com matéria para realizar seus objetivos? Na verdade, os querubins estão presentes na Bíblia porque faziam parte do imaginário e de itens decorativos de outros povos próximos aos hebreus, como divindades, inclusive, chamadas “karabu” ou “kuribu”!!! Veja na imagem³:


Seol

É impressionante! As pessoas ficam procurando “estudos bíblicos” para saber o que é, na realidade, o Seol, o que é o Hades, etc. Ora, na verdade esses são representações do IMAGINÁRIO dos personagens, que não necessariamente condizem com nenhuma realidade! Quer dizer que porque as pessoas na época de Jacob acreditavam no Seol, esse lugar existe? Sabe onde ficava o Sheol, no imaginário das pessoas da época? Veja a imagem:

A terra é plana? Tem colunas? O céu é assim? Josué 10, 12 diz que o sol parou, atendendo à oração de Josué. Ora, sabemos que a terra é que gira em torno do sol, e não o contrário. Por que a Bíblia diz que o sol parou, e não a terra? A Bíblia é falsa e não tem nada de Deus nela? NÃO!!! A Torá continua sendo a palavra de Deus, mas ela fala em uma linguagem QUE O HOMEM ENTENDA, inclusive usando a cultura deste!!! É o que os sábios judeus de uns dois mil anos atrás já sabiam, e muitos hoje não perceberam ainda: “A Torá fala na linguagem dos homens, para que eles possam entender!” (Talmud babilônico, Berakhot 31b). A Bíblia é um livro escrito para homens, por homens, com linguagem humana, e que contém a Lei de Deus. Não há que idolatrar a Bíblia e achar que ela é mais que isso!


Elementos da narrativa da criação

Gênesis 1, 21 diz que “Deus criou os monstros marinhos” (taninim, em hebraico). Essas criaturas são as únicas mencionadas nominalmente na criação. Por quê? De acordo com nossos comentaristas4 , porque os povos idólatras da Babilônia e outros povos antigos acreditavam que a criação se deve a lutas entre grandes répteis como serpentes e dragões, que seriam os deuses. O que o Gênesis quer dizer é que esses seres não são deuses, e sim são, eles mesmos, criados por Deus. Nem mesmo é necessário que esses seres existam, é apenas uma forma de combater a concepção errada daqueles povos. Algo semelhante acontece com a narrativa do “pecado original” e a serpente, que muitos consideram ser um diabo. Muitos deuses dos povos antigos tinham forma de serpente, no imaginário popular. Isso vem da propriedade que esse animal tem de trocar a pele, dando uma ilusão de imortalidade e eterna juventude. As narrativas da criação dos sumérios e outros povos continham referências à fruta e à serpente, assim como a Bíblia, mas a serpente era representada como um deus. O Gênesis (3,1) insiste em que ela é apenas uma criatura5. De acordo com a visão judaica, aqueles primeiros capítulos do Gênesis não são históricos/literais, e devem ser entendidos como uma alegoria ou poesia. Escreveremos posteriormente sobre isso.


Sacrifícios

            A teologia cristã afirma que o derramamento de sangue animal e, posteriormente, o sacrifício humano de Jesus é a fonte para o perdão dos pecados. Essa não corresponde à forma judaica de ver o texto bíblico. Não acreditamos que Deus precisa de sangue para perdoar pecados, e nos apoiamos em vários textos bíblicos que falam de perdão através de outros meios, como boas obras e oração (veja Lv 5, 11-13; Nm 16, 46-48; 1Rs 8, 46- 50; Os 14, 1-; Mq 6, 7-8. Faremos um artigo detalhado sobre esse tema). Por que, então, foram ordenados os sacrifícios? A seguinte explicação é do rabino Moisés Maimônides, o RAMBAM (1135 - 1204) , com tradução de Sha’ul Bension6:

Muitos preceitos em nossa Torá são resultado de um curso semelhante adotado pelo mesmo Ser Supremo. É, a saber, impossível ir de repente de um extremo ao outro. É portanto - segundo a natureza do homem - impossível para ele subitamente abandonar tudo o que está acostumado… Os israelitas foram ordenados a se devotarem ao serviço dEle e a ‘serví-lo de todo o teu coração’ [Dt. 11:13], ‘e servirás a ADONAY teu Elohim’ [Ex. 23:25], ‘e vós o servireis’ [Dt. 13:5]. Mas o costume era geral naqueles dias dentre todos os homens, e a forma geral de adoração na qual os israelitas haviam sido criados, consistia em sacrificar animais naqueles templos que continham certas imagens, para se prostrar a essas imagens e queimar incenso perante elas… O Eterno em Sua sabedoria não achou apropriado nos ordenar a rejeitar completamente todas essas práticas - algo que o homem não poderia conceber de aceitar, segundo a natureza humana que é inclinada ao hábito. Teria sido comparável a um profeta aparecer hoje, e clamar por um serviço ao Eterno, declarando que o Eterno agora ordena que não ireis mais orar a Ele, nem fazer jejum nem buscar a Sua ajuda nem tempos de angústia, mas que o vosso serviço a Ele será através da meditação sem qualquer obra de qualquer natureza. Ele portanto permitiu que essas práticas continuassem, mas as transformou de suas associações idólatras… para que o propósito delas fosse direcionado a Ele. Assim, Ele nos ordenou a construirmos um santuário para Ele com um altar para o Seu Nome e a oferecer sacrifícios a Ele…

            Ou seja: para Maimônides, os sacrifícios não são uma prática, digamos, ideal, e sim uma concessão aos costumes da época! Se Deus não tivesse instituído o sacrifício judaico, o povo continuaria a oferecer sacrifícios a deuses falsos, pois estava arraigado no pensamento deles que eles precisavam disso para obter chuvas e consequentemente boas colheitas! Isso pode impressionar você, mas temos que lembrar novamente que o povo de Israel vivia em meio a povos politeístas, que tinham essas práticas, como forma de alimentar os deuses para receber os frutos dessa “bajulação”. Para Deus ir ensinando aos pouquinhos ao povo, era necessário que fosse usada a linguagem do povo, sua cultura. Achar que Deus chegaria para Abraão e cobraria que ele fosse um judeu ortodoxo moderno ou cristão protestante é como achar que você pode chegar para uma criança e dar uma aula avançada de física!

Sacrifício grego


Feriados/ festividades

            Se tem uma coisa que não falta no calendário judaico são celebrações: Sábado, Páscoa, Pentecostes, Tabernáculos, Ano Novo, Dia do Perdão, Purim, Hanucá. Todas elas são festas com uma simbologia profunda e belíssima, começando pela comemoração da criação do mundo e da liberdade, e passando pela proteção de Deus, momentos de jejum e auto-exame e mais livramentos de perseguições dos povos. O que poucas pessoas sabem, no entanto, é que várias festas são anteriores à revelação e, a priori, comemoravam eventos não tão ligados a motivos religiosos, e sim às colheitas. Veja o que diz a jewish encyclopedia sobre pêssah7:

Este Pesaḥ pastoral era originalmente distinto do festival Maẓẓot , mas fundiu-se ainda mais prontamente com ele porque ambos ocorriam na primavera , no tempo do equinócio vernal . A festa de Maẓẓot é distintamente agrícola , sendo os bolos Maẓẓot  tanto a oferta natural da cevada recentemente colhida para os deuses que permitiram que a cultura amadurecesse , e , em seguida, o alimento básico das pessoas que faziam a colheita . Oferta e alimentos são quase sempre idênticos nos conceitos e práticas de raças primitivas . A dificuldade de encontrar uma explicação histórica adequada para o Maẓẓot é evidente, mesmo no relato de Ex. xii. O que as tornaria símbolos da pressa da libertação do Egito, porém, foi a suposição de que o Maẓẓot tinha sido usada na refeição da Páscoa antes do Êxodo .

            Ou seja, o festival de Pêssah  , antes de ser uma festa à liberdade e ao livramento do Senhor, era uma festa de agricultura e colheita, comemorada na época do ano propícia para colheita da cevada! Mais uma vez, perceba o que nós estamos querendo dizer: não é que a Bíblia seja uma grande mentira e não sirva de nada mais que enganar as pessoas! Não é isso! Acontece que a revelação de Deus encontrou pessoas primitivas, que precisavam de chuvas e boas colheitas para se sustentarem, e usou suas práticas supersticiosas de “bajulação” dos deuses (forças da natureza) para conseguir seu sustento e, usando as MESMAS DATAS, foi, aos poucos acrescentando liberdade aqui, proteção ali, livramento acolá! Isso é maravilhoso, não é mesmo? É como um pai que vai educando seu filho, pra que ele não fique estagnado em sua linguagem infantil, mas, ao mesmo tempo, respeitando essa linguagem e usando-a para ensinar coisas novas!
           
            Para quem não sabe, no ano judaico, estamos na época da festa de oito dias chamada Hanucá (dedicação do templo), que comemora a vitória dos macabeus sobre a opressão do rei Antíoco Epifanes. Um dos motivos para essa festa durar oito dias é uma estória encontrada no Talmud, que explica que quando os macabeus chegaram ao templo encontraram óleo puro suficiente para acender a menorá (candelabro de sete braços) apenas por um dia, mas o óleo durou, miraculosamente, por oito dias. Eu estava ontem mesmo lendo um artigo8 sobre o milagre do óleo e descobri algo surpreendente: o milagre do óleo, que todo judeu conta para seus filhos, não é histórico, pelo menos não se pegarmos todos os importantes documentos que contam a história da época, como primeiro e segundo Macabeus, a Meguilat Hanucá e Josefo! O mais provável é que o que os rabinos do Talmud descreveram como milagre fosse uma forma codificada de referir-se à vitória militar dos judeus sobre Antíoco, o que seria um assunto perigoso para falar, na época do domínio romano. Mas o que mais me surpreendeu no artigo foi que é possível desprender de textos do Talmud e literatura judaica em geral uma forte associação entre Hanucá e – pasme! – o solstício de inverno e suas festas pagãs, elas mesmas, que estão sendo esculhambadas na forma do natal, pelos zebraicos, internet afora!

Mais uma vez a simbologia é a mesma: a vitória de Deus sobre a idolatria e o uso da simbologia que já estava no imaginário popular para transmitir uma mensagem de monoteísmo e esperança no Senhor.



Conclusão

O homem tem sua cultura, e Deus respeita isso. Você acha que Deus se importa que chamemos o primeiro mês do ano de “janeiro”, mesmo sabendo que o nome vem de um falso deus? Você acha que Deus rejeita o fato de nós fazermos planos para um ano novo de paz e coisas boas só porque dizem que o tal deus Janus tinham uma cara pra o ano passado e outra para o ano novo? Será que os religiosos que moram em países de língua espanhola ou inglesa estão “lascados” por pronunciarem nomes de deuses falsos em seus nomes de dias da semana (thursday, miércoles etc.)? Gente, o que vale é a intenção! Ninguém quando pratica essas coisas culturais está pensando em prestar reverência a deuses falsos! Esses deuses nem são mais adorados, ninguém se lembra deles! Vamos deixar de ser paranoicos! De acordo com a lei judaica, inclusive, se um gentio não trata mais uma coisa idolátrica como seu deus, a idolatria está anulada e a coisa pode ser usada por judeus  (Rambam, hilkhot ‘abodá zará 8,8) !!!

Ou você aceita que Deus respeita e às vezes usa, em sua comunicação com o ser humano, a linguagem humana, e não uma coisa nova, celestial, inventada, ou vira ateu de vez e economize sua cabeça.

Hanucá Samêah!

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¹ “O Natal é uma festa cristã ou pagã?” disponível em: http://www.ofielcatolico.com.br/2004/12/o-natal-e-uma-festa-crista-ou-paga.html

² Esse método de aliança é chamado em hebraico “berit ben habetarim” (aliança entre as metades). Veja Jeremias 34, 18 e https://en.wikipedia.org/wiki/Covenant_(biblical)


4 Veja o comentário na “Torá, a lei de Moisés”, da editora sêfer, sobre esse versículo.

5 Você vai gostar muito de ler, a esse respeito, o seguinte artigo, da autoria de Sha’ul Bension: http://qol-hatora.org/misterios-do-tanakh/segredos-do-eden-o-misterio-da-serpente/

6 A tradução foi copiada do material de acompanhamento da seguinte palestra, por Sha’ul Bension, que é brilhante e discute á exaustão a questão dos sacrifícios: você tem que ouvir e ler! http://qol-hatora.org/audio/por-que-o-eterno-ordenou-sacrificios-palestra-em-audio/

8 A referência é a Sha’ul Bension, “Hanuká: O Segredo do Milagre do Óleo”, disponível em http://qol-hatora.org/moadim/hanuka-o-segredo-do-milagre-do-oleo/


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

HANUCÁ 2015 - INSTRUÇÕES

a                 
                  a)    Datas
7 de dezembro de 2015 (Primeiro dia)
8 de dezembro de 2015 (Segundo dia)
9 de dezembro de 2015 (Terceiro dia)
10 de dezembro de 2015 (Quarto dia)
11 de dezembro de 2015 (Quinto dia)
12 de dezembro de 2015 (Sexto dia)
13 de dezembro de 2015 (Sétimo dia)
14 de dezembro de 2015 (Oitavo dia)
           
            b)      Práticas
·         Em todos os oito dias, acende-se, preferencialmente de modo público, uma vela no mínimo, sendo o suficiente (Rambam, hilkhot Hanucá 4, 1). Mas o costume popular é ir aumentando uma a cada dia (uma vela no primeiro, duas no segundo, etc.), no candelabro chamado hanuquiá;

·         Quando se acende? No momento do pôr do sol;


·         Quais as bênçãos recitadas?
Na primeira noite (observação: a pessoa que vê nesta noite as velas de outra pessoa acesa, recitam as bênçãos 2 e 3):

 1-  Barukh... Acher quidechânu... vessivânu lehadliq ner chel hanucá (Bendito sejas, Senhor, nosso Deus, Rei do Universo, que nos santificou com teus mandamentos e nos ordenou acender a vela de hanucá).
2- Barukh... Che’assá nissim laabotênu baiamim hahem, bazeman hazê (Bendito sejas, Senhor, nosso Deus, Rei do Universo, que fez milagres para nossos pais, os dias deles, nesta época)
3- Barukh... cheheheiânu vequiiemânu vehiguiânu lazeman hazê (Bendito sejas, Senhor, nosso Deus, Rei do Universo, que nos deste vida, nos mantiveste e nos fizeste chegar a este tempo)

A partir da segunda noite, o ritual é o mesmo, mas não se recita a bênção 3


·         Em cada um dos oito dias de Hanucá, lê-se o halel (louvor) completo (salmos 113 – 118), bendizendo antes: Barukh... Asher quidechânu... vessivânu ligmor et hahalel (Bendito sejas, Senhor, nosso Deus, Rei do Universo, que nos santificou com teus mandamentos e nos ordenou completar o halel)                                                                                             c) saudação: חנוכה שמח - Hanucá samêah! (Feliz Hanucá!)

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

É CLARO que o homem tem livre arbítrio!


Algumas denominações cristãs, baseadas em versículos do Novo Testamento, afirmam que o ser humano é predestinado a fazer tudo que faz, é destinado a salvar-se ou condenar-se à tortura eterna. Bem, considerando o Novo Testamento, essa doutrina TEM SIM suas fontes, nas cartas de Romanos (7, 18 – 24; 8, 29; 9, 10-12), Efésios (1,5; 9) e outras. O Novo Testamento afirma categoricamente também que as pessoas são salvas da condenação sem ter mérito algum por isso, sendo o único fator envolvido o amor de Deus. Mas vamos mostrar neste artigo como esse é outro campo em que o Novo Testamento contradiz o Tanakh, segundo o qual há sim liberdade para o homem escolher em que caminho anda. Mostraremos ainda que a contabilidade dos méritos e pecados é INDIVIDUAL, de modo que ninguém pode pagar pelos pecados dos outros, e que as boas ações trazem SIM méritos para quem as praticam. Este último assunto, no entanto, não é o foco do artigo. Provavelmente escreverei outro artigo sobre isso. Leiamos os seguintes versículos bíblicos:


1-      O ser humano CONHECE o bem e o mal desde o começo:


Gênesis 3, 22 – O SENHOR Deus disse: “Eis que o homem tornou-se como um de nós pelo conhecimento do que seja bom ou mau...” 

Gênesis 4, 5-7 - Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante. E o Senhor disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar.


 Ora, por esse segundo texto temos muito clara a ideia do livre-arbítrio! Deus disse a Cain “não é de qualquer jeito! Se você tivesse feito direito, eu não teria aceitado seu sacrifício? O pecado tá na sua porta, e o seu desejo está SOBRE TI, você escolhe se o abraça ou se domina-o!”!!! Como podem dizer que não temos liberdade?




2-      Na Torá, há a total liberdade de escolha. O que acontece se escolhermos o bem ou o mal?

Deuteronômio 30, 15 - 18 – Vê: hoje ponho diante de ti a vida e a felicidade, a morte e a infelicidade, eu, que hoje te ordeno ames o SENHOR, teu Deus, andes nos seus caminhos (...) Então, viverás e te tornarás numeroso (...) Mas se teu coração se desvia, se não o escutas, e se deixa arrastar a prosternar-se diante de outros deuses e servi-los, eu hoje vos declaro: desaparecereis totalmente (...)

Deuteronômio 10, 12 – E agora, Israel, o que o SENHOR, teu Deus espera de ti? Ele espera apenas que temas o SENHOR, teu Deus, com todo o teu coração, com todo o teu ser.



Que sentido teriam esses textos se não houvesse livre arbítrio? Por que Deus pediria que fizéssemos o bem, se estamos destinados? Esse “se” do primeiro texto faz toda a diferença: se escolhermos A, teremos isso, se escolhermos B, teremos aquilo. A escolha é nossa!


3-      De onde vêm as desgraças que ocorrem ao ser humano?
Resposta: de suas próprias escolhas!

Lamentações 3, 39 - 40 – De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus pecados. Esquadrinhemos os nossos caminhos, examinemo-los; Voltemos ao Senhor

Deuteronômio 32, 4 ss – É ele o Rochedo, perfeita é sua ação, todos os seus caminhos são judiciosos; é o Deus fiel, injustiça nele não há, ele é justo e reto. Para ele nada são senão corrupção, por causa de sua tara, já não são filhos, mas uma geração pervertida e transviada. Isto é o modo de tratar o SENHOR, povo idiota e sem sabedoria? Não é Ele o teu pai que te deu a vida?


Provérbios 19, 3 – A tolice de um homem destrói seu destino e ele, furiosamente, culpa o SENHOR por isso.


Ezequiel 33, 10-11 - Tu, pois, filho do homem, dize à casa de Israel: Assim falais vós, dizendo: Visto que as nossas transgressões e os nossos pecados estão sobre nós, e nós desfalecemos neles, como viveremos então?
Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel?



O versículo acima, de Ezequiel, é claro e transparente: as pessoas estavam afirmando que o seu pecado estava SOBRE ELES, de modo que ninguém poderia viver. Deus responde a esse pensamento errado, dizendo que não é assim, e que o ímpio não deve morrer, e sim ESCOLHER A CONVERSÃO (retorno a Deus), para que viva!

Isaías 66, 3- Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão; quem oferece uma oblação é como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações.

4-      Como pode Deus julgar as pessoas, se tudo já está destinado?


Eclesiastes 11, 9 - Alegra-te, jovem, na tua mocidade, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade, e anda pelos caminhos do teu coração, e pela vista dos teus olhos; sabe, porém, que por todas estas coisas te trará Deus a juízo.

Gênesis 18, 25 – Longe de ti tal conduta, de fazer o justo morrer junto com o culpado! Sucederá ao justo o mesmo que ao culpado? Longe de ti! O juiz de toda a terra não aplicaria o direito?

5-      Uma pessoa inocente paga pelo pecado de outra? 

Ezequiel 18, 20 – Aquele que peca é que morrerá; o filho não arcará com a iniquidade do pai, nem o pai pela iniquidade do filho; a justiça do justo estará sobre este, e a maldade do mau estará sobre ele.


Conclusão: não existe esse negócio de predestinação. Nós escolhemos nossas próprias ações, e lidamos com as consequências delas! Temos a total liberdade. Se não fosse assim, que sentido faria Deus mandar os profetas para corrigirem o povo, mandando-o voltar à prática das boas obras? Não faria sentido nenhum, porque as pessoas já estariam destinadas ao que quer que acontecesse em seu fim. Em sua famosa obra o Cuzari, o grande pensador judeu da idade média, Iehudá Halevi, questiona¹:

Quanto aos que negam a existência do livre-arbítrio, não se zangariam se alguém os prejudicasse propositalmente? Permitiriam a um ladrão roubar suas vestes, fazendo com que corressem o risco de adoecer se pegarem uma rajada de vento? Submeter-se-iam sem reagir a forças climáticas, com os impiedosos ventos frios do norte, que causam males à saúde? Na opinião dessas pessoas, a ira deve ter sido criada sem propósito algum, porque não podemos louvar ou censurar as pessoas, se partimos da premissa que tudo é designado ou premeditado. No entanto, vemos que a ação humana de modo algum é refreada ou impedida, e por isso merece ser louvada ou censurada, dependendo da escolha feita. (...) Se as ações humanas são pré determinadas pelos Céus, quem serve a Deus não estaria em melhores condições que os que se rebelam contra Ele, pois ambos estariam de acordo com o propósito para o qual foram criados.

O que dizer dos textos que parecem provar o destino?

Há alguns textos no Tanakh que afirmam que Deus endureceu o coração de Faraó (Ex 4,21; 14,4), do rei Sihon (Dt 2, 30), dos cananeus (Js 11, 20) etc. Como as explicamos? O Rambam (Maimônides), em seu Michnê Torá, hilkhot techubá cap. 5, explica que há pecados que são TÃO GRAVES que o castigo que é consequência delas é o fechamento da porta do arrependimento. Repare: em um primeiro momento, Faraó PECOU, rejeitando a Deus, negando-se a obedecê-lo, mas, ainda ANTES disso, pecou, maltratando o povo judeu (Êx 1, 10). Deus não obrigou o Faraó a pecar, ELE pecou, e o seu pecado resultou numa insensibilidade moral que o levou à ruína! Deus não decretou que os cananeus tivesse costumes abomináveis, entre eles o sacrifício humano e a prostituição sagrada. Essa questão do Faraó relaciona-se com o que é dito no Talmud: “a consequência de um pecado é outro pecado” (pirquê abot 4, 2).

Que relação há entre a sabedoria eterna de Deus e o livre-arbítrio do homem? Leia o seguinte, do capítulo 6 do livro citado acima, de Maimônides²:

[Um poderia perguntar:] eis que está escrito na Torá [Gênesis 15,13]: "Hão-de escravizá-los e oprimi-los," [aparentemente implicando que] Ele decretou que os egípcios iriam cometer o mal. Da mesma forma, está escrito [Deuteronômio 31,16]: "E esta nação se levantará e perdida após os deuses estranhos da terra," [aparentemente implicando que] Ele decretou que Israel iria servir ídolos. Se assim for, por que Ele os puniu? Porque Ele não decretou que uma determinada pessoa seria aquele que se desviou. Em vez disso, todos e cada um dos que se desviaram para a adoração de ídolos [poderia ter escolhido] não servir ídolos se ele não desejava servi-los. O Criador se limitou a informar [Moisés] do padrão do mundo. A que isso pode ser comparado? A alguém que diz que haverá pessoas justas e maus nesta nação. [Assim,] uma pessoa má não pode dizer que porque Deus disse a Moisés que haveria pessoas perversas em Israel, seria decretado que essa pessoa seria má. Um conceito similar aplica-se a respeito da declaração [Deuteronômio 15, 11]: ". O pobre nunca deixará de existir na terra". Da mesma forma, no que diz respeito aos egípcios, todos e cada um dos egípcios, que causaram dificuldades para Israel tinha a opção de abster-se de prejudicá-los, se assim o desejasse, pois não havia decreto sobre uma pessoa em particular. Em vez disso, [Deus meramente] havia informado [Abraão] que, no futuro, seus descendentes seriam escravizados numa terra que não lhes pertence.Já explicamos que é além do potencial do homem saber como Deus sabe o que vai ser no futuro.

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¹HALEVI, Iehuda. O Cuzarí. São Paulo: 2003. Ed. Sêfer p.278


² Traduzido diretamente de: http://www.chabad.org/library/article_cdo/aid/911905/jewish/Teshuvah-Chapter-Six.htm

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Fenômenos no céu, como "lua de sangue", são "sinais do fim do mundo"?


Tivemos, na véspera de Sucot (domingo passado) um fenômeno muito particular na lua: ela assumiu uma cor avermelhada, devido a um eclipse, ou, melhor dizendo, um alinhamento incomum entre o satélite, o sol e nosso planeta. Imagem muito bonita, por sinal! Os judeus que viram agradeceram a Deus pela criação, com uma bênção especial. 

Só que aí, como em muitos assuntos, sempre tem um pra inventar um "alarmismo", uma conversa maluca para assustar o povo. Dessa vez o que disseram foi que isso era um sinal do fim do mundo, cumprimento de profecias bíblicas, que aconteceu na festa dos tabernáculos, e por isso o mundo vai acabar, blá blá blá.

Acho "o máximo" as pessoas fazendo alarmismos com fenômenos astronômicos naturais, produtos simples da criação de nosso Deus. Aí alguém poderia perguntar: mas o que dizer de versículos que falam de o céu cair, o sol se escurecer, as estrelas caírem, coisa do tipo? Bem, se vocês lerem, por exemplo, o livro de Nahum, verão em várias passagens esse tipo de linguagem, referindo-se TÃO SOMENTE à queda de Nínive e Senaqueribe. Se duvida, vai ver!

Achei importante incluir nesta publicação uma porção¹ do "Morê Nebukhim", de Maimônides, na qual ele explica passagens bíblicas que parecem falar nesses fenômenos astronômicos. Deliciem-se:
Feitas essas observações iniciais, gostaria de salientar um fato que acontece frequentemente nas profecias de Isaías e mais raramente nos outros profetas: quando ele fala da ruína ou desgraça de uma grande nação, o expressa dizendo que as estrelas caíram e que os céus ruíram, o sol escureceu, a terra está devastada e metáforas similares. O mesmo passa-se com os árabes, que dizem que quando alguém foi acometido por algum infortúnio "os céus desabaram sob seus pés". Do mesmo modo, quando Isaías descreve a ascensão de uma dinastia ou o acúmulo de suas fortunas, usa expressões como o incremento da luz do sol e da lua, a emergência de um novo céu e de uma nova terra, assim como as pessoas comuns, quando descrevem a ruína de alguma pessoa, nação ou cidade, atribuem a Deus qualitativos de ira ou ódio violento contra estes e quando falam da ascensão de uma nação, atribuem a Deus emoções de regozijo e alegria. Referem-se aos estados de ira contra si mesmos em termos de Ele ter saído (à guerra), Ele descendeu, Ele vocifera, Ele grita, e muitos outros. (...)Após esta prestação de contas fraseológica, darei agora provas detalhadas da veracidade de minhas afirmações. Quando Deus informou Isaías do colapso do império babilônico e da destruição de Senaquerib, de seu sucessor Nabucodonosor e do final do seu reinado, começou a descrever seu infortúnio e a série de derrotas e sofrimentos que teriam antes de sua queda, assim como o que aconteceu com cada exército que os derrotou pela força da espada. Disse o profeta: "Pois as estrelas dos céus e as constelações não mais lançarão sua luz; o sol escurecerá e a luz não mais terá sua luz para iluminar (Isaías 13:10). Segundo a mesma descrição, diz mais adiante: "Por isso, Eu estremecerei os céus e a terra será removida de seu lugar, no dia da raiva do Deus das hostes e no dia da sua ira bravia" (ibid. 13). Não creio que alguém seja tolo, cego e apegado ao sentido literário das metáforas e à retórica das figuras de linguagem como para acreditar que os céus e a luz do sol e da lua poderiam ter sido afetadas pelo colapso do império Babilônico, ou que a terra chegou a dobrar-se, como ele também disse. Tudo isso não é senão alusão ao estado da nação derrotada. Para eles, de fato, o sol parecerá ter escurecido e tudo o que é doce terá gosto amargo. (...)No final desta mesma passagem [nota: Isaías 24, 17-20] o profeta descreve o que Deus fará a Senaquerib, a aniquilação pela qual passará por seu arrogante domínio sobre Jerusalém e a desgraça na qual Deus o envolverá. O profeta diz por meio de metáforas: “Então a lua será destruída e o sol envergonhado, quando o Senhor das hostes reinar etc (ibid. 23). Ionatan ben Uziel, que em paz esteja, interpretou muito bem esta passagem, dizendo que quando estas coisas acontecerem a Senaquerib por causa de Jerusalém, os idólatras saberão que este ato é Divino e ficarão temerosos além de confusos. Diz ainda que “aqueles que servem à lua ficarão confusos e os que se prostram perante o sol serão dejetados quando a soberania de Deus se revelar...”. Uma vez mais, quando o profeta descreve como Israel repousará após a morte de Senaquerib, como sua terra será próspera e fértil e seus negócios prosperarão pelos esforços de Ezequias, diz por meio de uma metáfora que a luz do sol e da lua arrefecerão e serão tomados pela escuridão que cerca os derrotados, enquanto a luz aumente do lado dos vitoriosos.”

Conclusão: tem MUITA coisa na Bíblia que, talvez, com essa mentalidade ocidental moderna, não entendemos, porque a Bíblia é um livro escrito por e para (a princípio) semitas de milênios atrás! Ora, se pegarmos um livro chinês, fazendo menções à cultura chinesa, não entenderemos bem! Sabe por que qualquer livro que se preze tem notas com a biografia do autor, sobre a época em que ele escreveu, às vezes até rodapés explicando a tradução? Porque ninguém entende NADA de um livro sem saber quem é o autor, o que o motivou a escrever, como era a cultura da época! Nenhum japonês pode jamais entender a Divina Comédia, a não ser que ele estude um pouco sobre o catolicismo da época, no qual havia a crença naqueles elementos. Eu me pergunto: por que as pessoas acham que podem entender a Bíblia traduzida para o português de hoje, sem saberem nada sobre a cultura da época, sobre, por exemplo, como os judeus a explicam!

Um ótimo mês de outubro a todos!
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 MAIMÔNIDES. O guia dos perplexos. Editora sêfer 2013, pg. 161-2 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Sucot (festa das cabanas) 2015 - Instruções para principiantes


PRÓXIMA COMEMORAÇÃO:
סוכות - SUCOT - (TABERNÁCULOS OU CABANAS)

Danilo Almeida Pinheiro's photo.
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a) Datas:
* 27 de setembro de 2015 (domingo): véspera
* 28 (segunda-feira): 1º dia
* 29 (terça-feira): 2º dia
* 30 de set. a 3 de out.: dias intermediários (hol hamo'ed)
* 4 de outubro (domingo): 7º dia 
* 5 de outubro (segunda): chemini 'assêret (8º dia)
* 6 de outubro (terça): simhat Torá.
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b) Práticas
* Construir com antecedência a sucá (cabana), procurar as instruções em um livro ou site judaico confiável ( http://www.pt.chabad.org/…/754…/jewish/A-Construo-da-Suc.htm ). Deve-se "morar na sucá", o que significa, no mínimo, fazer refeições sob a mesma.
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* Se velas forem acesas, não se deve dizer bênção, ao contrário do costume comum
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* Na véspera e na noite do primeiro dia e em chemini ‘assêret faz-se o quiduch (preferencialmente na sucá). Texto: 
Bendito sejas, Adonai, nosso Deus, rei do Universo, criador do fruto da videira.
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Bendito sejas, Adonai, nosso Deus, que nos escolheste dentre todos os povos, nos exaltaste acima de todas as línguas e nos santificaste com teus mandamentos. E Tu nos tens dado com amor, ó Adonai, nosso Deus, tempos fixados para alegria festas e estações de regozijo; este dia (EM CHEMINI ‘ASSÊRET E SIMHAT TORÁ: festivo de chemini ‘assêret, época de nossa alegria) festivo de sucot, época de nossa alegria ,dia festivo de santa convocação, em memória da saída do Egito. Porque Tu nos escolheste e nos santificaste dentre todos os povos, e as Tuas festas sagradas, com alegria e júbilo nos deste como herança. Bendito sejas, Adonai, que santificas Israel e as festas.

(Se debaixo da sucá:) Bendito és, Adonai, nosso Deus, rei do Universo, que nos santificas com Teus mandamentos e nos ordenas sentar na sucá.
Bendito És, Adonai, nosso Deus, rei do Universo, que nos dás vida, nos sustentas e nos tem trazido a esse tempo. 
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* Em todos os dias de sucot, exceto em CHabat , agita-se o lulab (comumente: lulav, que é um conjunto de quatro vegetais: lulab, etrog, hadassim e arabot, incomuns no Brasil). Antes, abençoa-se: 
Bendito És, Adonai, nosso Deus, rei do Universo, que nos santificas com Teus mandamentos e nos ordenas acerca de levantar o lulab.
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*O primeiro dia e Chemini ‘assêret têm o status de iom tob, ou seja: dias santos, quase como o chabat, com proibições de trabalhos específicas.
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* Leituras: ver Torá, haftarot especiais.
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* Em simhat Torá, que na verdade é o segundo dia adicional de chemini’assêret na diáspora, conclui-se, na sinagoga, a leitura da Torá e recomeça-se por berechit. (todos os feriados judaicos, menos iom kipur, têm um segundo dia na diáspora, por motivos históricos de dúvidas)
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c) Saudação:
חג סוכות שמח - Hag sucot samêah (Feliz festa das cabanas)

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

IOM KIPUR (DIA DO PERDÃO) 2015: INSTRUÇÕES

PRÓXIMA COMEMORAÇÃO:
יום כפור - IOM KIPUR (O DIA DO PERDÃO)



a) Data:
Véspera: 22 de setembro de 2015 (Terça-feira)
Dia: 23 de setembro de 2015 (Quarta)

b) Práticas:
Na véspera, é costume acender velas, mas não é correto dizer bênção. Diz-se Cheheheiânu: "Bendito És, Adonai, nosso Deus, Rei do Universo, que nos dás vida, nos manténs e nos fazes chegar a este tempo".
É feito o jejum absoluto de 24 horas, sendo proibido comer e beber água, lavar-se (a não ser por higiene), passar óleos ou cremes, usar sapatos de couro e ter relações conjugais.
É um dia de completo arrependimento, meditação e CONFISSÃO DE NOSSOS PECADOS. É muito apropriado fazer atos de caridade nos dias entre Roch hachaná e iom kipur. As orações do dia podem ser encontradas neste PDF:

c) Saudação:
Guemar hatimá tová! (גמר חתימה טובה ) - Que sejas selado para o bem!*
Som cal! (צום קל ) - Que tenhas um jejum fácil!
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* De acordo com a tradição judaica, Deus julga todas as pessoas em Roch hachaná, decretando se merecem ou não viver um ano mais. Às pessoas que não são tão boas nem tão más, o "selar" da sentença é adiado para depois do Iom Kippur, quando terão a chance de se arrependerem.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Tanakh e Política: qual deve ser nossa posição?

Pergunta: Uma pessoa que diz seguir os ensinamentos da Bíblia pode estar totalmente alheia à política deste mundo, ou mais que isso: pode votar e/ou defender partidos que espalham corrupção?


Muitas pessoas que dizem seguir a Bíblia em todos os assuntos não se envolvem em política, porque dizem que a religião tem a ver com assuntos "espirituais", "do outro mundo", e não deste. Alguns chegam a defender partidos que são CONTRÁRIOS à ideologia de sua fé, partidos sutilmente perseguidores de sua religião, numa aceitação do caos no país, alegando que política é política, religião é religião. Muito bem. Neste breve artigo, darei minha opinião sobre o tema.

Pra começo de conversa, quem crê em Deus não pode fazer abstração de Deus em outros assuntos! Uma pessoa não pode adorar a Deus e querer que o mundo rode na posição contrária à Sua vontade. Isso é hipocrisia! Eu posso respeitar as religiões que acreditam que o fim desse mundo é um apocalipse caótico, mas ISSO NÃO SIGNIFICA que podemos ficar de braços cruzados como se este fosse um mundo abandonado por Deus!! Como provo isso pela Bíblia? Vejamos:


Qual foi o propósito primeiro que levou à aliança entre Deus e Abraão, o  "pai na fé" das grandes religiões?



Visto que Abraão certamente virá a ser uma grande e poderosa nação, e nele serão benditas todas as nações da terra? Porque eu o tenho conhecido, e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para agir com justiça e juízo; para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado. (Gênesis 18, 18-19)

Na leitura em português perdemos muitos sentidos originais das palavras. A palavra "justiça", contida no texto, diz-se, em hebraico צדקה  (sedaqá), que na verdade significa JUSTIÇA SOCIAL, FAZER O BEM, ALIMENTAR OS FAMINTOS! Por exemplo, vejamos Salmo 10, 18:

Para fazer justiça ao órfão e ao oprimido, a fim de que o homem da terra não prossiga mais em usar da violência.

De fato, a palavra  צדקה , atualmente transliterada e pronunciada como "tzedaká", é usada no hebraico até hoje para denotar os atos de "caridade" e esmola, que na verdade são visto como ações de justiça. Deus dá recursos para todos, mas cabe a nós organizarmos esses recursos e "não endurecermos o coração nem fecharmos a mão ao nosso irmão pobre" (Dt 15, 7).

E é claro que os atos de justiça social não são unicamente dever dos indivíduos, mas também o são do Estado. Nos profetas o que mais vemos são reprovações veementes às transgressões contra a justiça social praticadas pelo povo em geral, pelo Estado (exemplos: Is 1, 17; Ez 22, 29; Jr 22, 3). Assim, vemos que um dos principais motivos para a existência da aliança entre Deus e o homem, um dos fundamentos da Torá é a justiça social, leis justas, que organizavam a sociedade. Os profetas nos ensinam que o que Deus quer não são bajulações, sacrifícios, rituais vazios, e sim transformação, fazer o bem! Veja estes surpreendentes versículos, do profeta Miquéias:

Agradar-se-á o Senhor de milhares de carneiros, ou de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu ventre pelo pecado da minha alma? Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?( Miquéias 6, 7-8).

A Revelação de Deus é apenas no sentido "espiritual" e nunca "temporal"?


Não sei de onde tiraram isso. As leis do chamado Antigo Testamento não são "celestiais", "espirituais", "angelicais", são LEIS PARA ESTE MUNDO! "Esta lei não está nos céus", como diz o Deuteronômio (30, 12). São leis tão justas e inteligentes que as pessoas de outras nações admiram:

Guardai-os pois, e cumpri-os, porque isso será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos, que ouvirão todos estes estatutos, e dirão: Este grande povo é nação sábia e entendida. (Deuteronômio 4,6)

Ora, se são leis que os outros povos, idólatras, poderiam entender e, portanto, considerar o povo de Israel sábio e entendido, são leis racionais, para ESTE MUNDO! Perceba que na Torá há leis de construção civil (construir um parapeito no teto das casas: Dt 22, 8), leis que regulam o comércio (Deut. 25, 15), leis para o bem-estar e preservação dos animais (Êx 22, 4; Dt 22, 6; v. 10), leis judiciárias, leis sanitárias, feriados nacionais, etc. 

E também tem, claro, leis políticas! Deuteronômio 17, 15 prevê o estabelecimento de um rei para Israel: É UM MANDAMENTO! Não é apenas permissividade. O fato de Deus ter "sido ofendido" quando o povo pediu um rei (relato de I Samuel 8), é que o que OS LEVOU A PEDIR foi "para sermos como todas as nações" (v.5). Como os rabinos percebem, a intenção era errada, não a decisão de estabelecer um rei. Pergunta: se a Bíblia previa até mesmo questões políticas, como podem alguns dizer que devemos ser alheios às leis e à política do mundo?

Que dizer de governos que põem obstáculos às liberdades?

A liberdade é o maior ideal da Torá. Antes de Deus revelar a Torá, o povo de Israel precisou libertar-se dos grilhões. De outro modo, não valeria a pena ter leis. Em vários textos da Torá somos ordenados a lembrar TODOS OS DIAS nossa condição de escravos no Egito, para dar valor a nossa liberdade, celebrando semanalmente o sábado e anualmente festas que relembram os momentos do Êxodo. Sabendo disso, é INACEITÁVEL que o fiel do Deus Único vote em partidos comunistas/socialistas, e, a nível municipal, em políticos que atentam à liberdade dos cidadãos, dificultando a emancipação das pessoas e mantendo-as dependentes. Em uma palavra, a velha prática do coronelismo. Lembrando que em circunstâncias de imposição, em que não se tem a liberdade, não há culpa. Não há culpabilidade em quem age sob uma situação de coerção. Entre dois candidatos: um mais ou menos anti-liberdade e outro um ditador atroz, penso que devemos votar no primeiro, para não permitir que o pior assuma.


Conclusão

Ex- presidente Lula e o antissemita islâmico radical Mahmoud
Ahmadinejad, que quer "Varrer Israel do mapa"
Amigos, que tal pararmos de pensar tanto em nossa "salvação", em condenar severamente a religião alheia, em procurar entender coisinhas pequenas da teologia e passamos a pensar um pouquinho NESTE MUNDO¹ ? O que podemos fazer por ele? Como podemos promover a justiça social aqui e agora? Imagine se os profetas da Bìblia vivessem em nossos dias, o que eles iam dizer a respeito de nós votarmos em candidatos corruptos, que sobrecarregam o povo com impostos, que nadam em ouro e diamantes, que APOIAM DITADURAS OPRESSORAS E ASSASSINAS em Cuba, Venezuela e no Oriente Médio? O que dizer de políticos que andam de braços dados com o presidente da Venezuela, responsável pela fome, censura e sofrimento das pessoas de seu país² ? Amigo, não podemos concordar com isso! Não podemos nos dizer servos de Deus, do mesmo Deus citado nos versículos acima, e compactuar com COMUNISMO, SOCIALISMO, falta de liberdade, sofrimento das pessoas pobres! Como é que você diz que orienta-se por valores bíblicos e defende um Estado opressor e cruel? Isso não está certo!

Dilma e Nicolás Maduro, responsável pela fome de seu
povo, segurando quadro de Chavez, ditador populista que
disse "maldito seja o Estado de Israel!" 
Se você orienta-se realmente por valores de Deus, não há coerência em não se envolver na política desse mundo, deixar o mundo nas mãos dos piores, fazendo com que o nosso irmão não receba sua JUSTIÇA, nem muito menos de votar nos piores, colocando-os no poder, com a desculpa que "política é política, religião é outra coisa"! Errado! Se Deus é a coisa mais importante em nossas vidas, por que deixá-lo de lado para ser "do contra", parecer intelectual e se dar bem com professores socialistas? Não é uma atitude coerente e justa.

Bem, essa é minha opinião sobre o tema.

"Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!" -- Isaías 5,20 

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¹          Veja a importância dada pelos sábios ao cumprimento das leis que dão resultado NESTE MUNDO, em contraste com as religiões que só se preocupam com o pós-vida: "Uma hora de boas obras neste mundo é superior a todo o mundo vindouro!" (Talmud, abot 4, 22)

² http://veja.abril.com.br/noticia/mundo/venezuela-crise-e-escassez-fazem-roubos-de-alimentos-dispararem/