quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Fenômenos no céu, como "lua de sangue", são "sinais do fim do mundo"?


Tivemos, na véspera de Sucot (domingo passado) um fenômeno muito particular na lua: ela assumiu uma cor avermelhada, devido a um eclipse, ou, melhor dizendo, um alinhamento incomum entre o satélite, o sol e nosso planeta. Imagem muito bonita, por sinal! Os judeus que viram agradeceram a Deus pela criação, com uma bênção especial. 

Só que aí, como em muitos assuntos, sempre tem um pra inventar um "alarmismo", uma conversa maluca para assustar o povo. Dessa vez o que disseram foi que isso era um sinal do fim do mundo, cumprimento de profecias bíblicas, que aconteceu na festa dos tabernáculos, e por isso o mundo vai acabar, blá blá blá.

Acho "o máximo" as pessoas fazendo alarmismos com fenômenos astronômicos naturais, produtos simples da criação de nosso Deus. Aí alguém poderia perguntar: mas o que dizer de versículos que falam de o céu cair, o sol se escurecer, as estrelas caírem, coisa do tipo? Bem, se vocês lerem, por exemplo, o livro de Nahum, verão em várias passagens esse tipo de linguagem, referindo-se TÃO SOMENTE à queda de Nínive e Senaqueribe. Se duvida, vai ver!

Achei importante incluir nesta publicação uma porção¹ do "Morê Nebukhim", de Maimônides, na qual ele explica passagens bíblicas que parecem falar nesses fenômenos astronômicos. Deliciem-se:
Feitas essas observações iniciais, gostaria de salientar um fato que acontece frequentemente nas profecias de Isaías e mais raramente nos outros profetas: quando ele fala da ruína ou desgraça de uma grande nação, o expressa dizendo que as estrelas caíram e que os céus ruíram, o sol escureceu, a terra está devastada e metáforas similares. O mesmo passa-se com os árabes, que dizem que quando alguém foi acometido por algum infortúnio "os céus desabaram sob seus pés". Do mesmo modo, quando Isaías descreve a ascensão de uma dinastia ou o acúmulo de suas fortunas, usa expressões como o incremento da luz do sol e da lua, a emergência de um novo céu e de uma nova terra, assim como as pessoas comuns, quando descrevem a ruína de alguma pessoa, nação ou cidade, atribuem a Deus qualitativos de ira ou ódio violento contra estes e quando falam da ascensão de uma nação, atribuem a Deus emoções de regozijo e alegria. Referem-se aos estados de ira contra si mesmos em termos de Ele ter saído (à guerra), Ele descendeu, Ele vocifera, Ele grita, e muitos outros. (...)Após esta prestação de contas fraseológica, darei agora provas detalhadas da veracidade de minhas afirmações. Quando Deus informou Isaías do colapso do império babilônico e da destruição de Senaquerib, de seu sucessor Nabucodonosor e do final do seu reinado, começou a descrever seu infortúnio e a série de derrotas e sofrimentos que teriam antes de sua queda, assim como o que aconteceu com cada exército que os derrotou pela força da espada. Disse o profeta: "Pois as estrelas dos céus e as constelações não mais lançarão sua luz; o sol escurecerá e a luz não mais terá sua luz para iluminar (Isaías 13:10). Segundo a mesma descrição, diz mais adiante: "Por isso, Eu estremecerei os céus e a terra será removida de seu lugar, no dia da raiva do Deus das hostes e no dia da sua ira bravia" (ibid. 13). Não creio que alguém seja tolo, cego e apegado ao sentido literário das metáforas e à retórica das figuras de linguagem como para acreditar que os céus e a luz do sol e da lua poderiam ter sido afetadas pelo colapso do império Babilônico, ou que a terra chegou a dobrar-se, como ele também disse. Tudo isso não é senão alusão ao estado da nação derrotada. Para eles, de fato, o sol parecerá ter escurecido e tudo o que é doce terá gosto amargo. (...)No final desta mesma passagem [nota: Isaías 24, 17-20] o profeta descreve o que Deus fará a Senaquerib, a aniquilação pela qual passará por seu arrogante domínio sobre Jerusalém e a desgraça na qual Deus o envolverá. O profeta diz por meio de metáforas: “Então a lua será destruída e o sol envergonhado, quando o Senhor das hostes reinar etc (ibid. 23). Ionatan ben Uziel, que em paz esteja, interpretou muito bem esta passagem, dizendo que quando estas coisas acontecerem a Senaquerib por causa de Jerusalém, os idólatras saberão que este ato é Divino e ficarão temerosos além de confusos. Diz ainda que “aqueles que servem à lua ficarão confusos e os que se prostram perante o sol serão dejetados quando a soberania de Deus se revelar...”. Uma vez mais, quando o profeta descreve como Israel repousará após a morte de Senaquerib, como sua terra será próspera e fértil e seus negócios prosperarão pelos esforços de Ezequias, diz por meio de uma metáfora que a luz do sol e da lua arrefecerão e serão tomados pela escuridão que cerca os derrotados, enquanto a luz aumente do lado dos vitoriosos.”

Conclusão: tem MUITA coisa na Bíblia que, talvez, com essa mentalidade ocidental moderna, não entendemos, porque a Bíblia é um livro escrito por e para (a princípio) semitas de milênios atrás! Ora, se pegarmos um livro chinês, fazendo menções à cultura chinesa, não entenderemos bem! Sabe por que qualquer livro que se preze tem notas com a biografia do autor, sobre a época em que ele escreveu, às vezes até rodapés explicando a tradução? Porque ninguém entende NADA de um livro sem saber quem é o autor, o que o motivou a escrever, como era a cultura da época! Nenhum japonês pode jamais entender a Divina Comédia, a não ser que ele estude um pouco sobre o catolicismo da época, no qual havia a crença naqueles elementos. Eu me pergunto: por que as pessoas acham que podem entender a Bíblia traduzida para o português de hoje, sem saberem nada sobre a cultura da época, sobre, por exemplo, como os judeus a explicam!

Um ótimo mês de outubro a todos!
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 MAIMÔNIDES. O guia dos perplexos. Editora sêfer 2013, pg. 161-2 

3 comentários:

  1. Ótima observação.
    Na minha time line do facebook, apareceram enormes postagens da vinda de Jesus.
    Descobri seu blog por acaso, gostei muito.
    Por favor, deixe seu e-mail para que eu tire algumas duvidas contigo, obrigado.

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