quarta-feira, 23 de março de 2016

"Resumão" de todos os dízimos e ofertas da Torá (Lei)

Neste artigo, tentarei apresentar brevemente uma visão geral de todas as doações que um israelita fiel que possuísse terras (colheitas e gado) faria na época em que o Templo em Jerusalém estava em pé. As ofertas serão detalhadas e seguidas por versículos bíblicos/citações rabínicas para que se confira o que está sendo dito. Claro que queremos responder à pergunta que milhares de pessoas fazem todos os dias: afinal de contas, qual era o dízimo de que Malaquias falava? Quem não dá dez por cento de seu salário a um líder religioso hoje estaria em pecado?

Não há dúvida sobre que os versículos da Torá citados se referem às práticas enumeradas¹. No entanto, a Torá não dá às ofertas os nomes (exemplo: Ma`asser richon ²— primeiro dízimo). Para organizarmos as doações de acordo com os nomes que recebem na tradição judaica, recorremos ao Sêfer hamisvot ³. Algumas ofertas, como os sacrifícios e a pele dos animais queimados em holocaustos, que poderia ser dada ao sacerdote (descendente de Arão), não foram contadas.

 Enumeremos as ofertas:

Nome da oferta
Beneficiário
Referências
Observações
Mahassit hachéquel – Meio siclo
Despesas do santuário
Ex 30, 13-16
(sêfer hamisvôt, M. 171)
Esta oferta tinha a finalidade de fazer a contagem do povo. Só é válida, naturalmente, na existência do Templo de Jerusalém e era anual.  Era a única dada por todas as pessoas, pobres e ricas!
Terumá guedolá – Grande oferenda
Sacerdote (descendente de Arão)
Dt 18, 4
(sêfer hamisvôt, M. 126)
Era a primeira oferta separada do produto do campo (sêfer hamisvot P.154). Entre 1/40 e 1/60 da produção
Ma`assêr richon – Primeiro dízimo
Levitas (descendentes de Levi)
Nm 18, 24
(sêfer hamisvôt, M. 127)
Separado após a Terumá guedolá, dos produtos do campo.
Ma`assêr cheni – Segundo dízimo
Contribuinte
Dt 14, 22 ss
(sêfer hamisvôt, M. 128)


O próprio contribuinte comia esse dízimo, em Jerusalém apenas. Caso morasse longe, poderia converter em dinheiro e levá-lo para comprar o que desejasse.
Terumat ma`asser – Oferta extraída do dízimo
Sacerdote (recebe do levita)
Nm 18, 26
(sêfer hamisvôt, M. 129)
Dízimo do dízimo, dado pelo levita, após receber o Ma`assêr richon, ao sacerdote.
Ma`assêr `ani—Dízimo do pobre
Pobres
Dt 14, 28
(sêfer hamisvôt, M. 130)
Esse dízimo era dado no terceiro e sexto anos no ciclo de sete anos.
Halá – Oferta de parte das massas
Sacerdote (descendente de Arão)
Nm 15, 21
(sêfer hamisvôt, M. 133)
Só válido na Terra de Israel.
Neta` reva`i – colheita do quarto ano
Contribuinte
Lv 19, 25
(sêfer hamisvôt, M. 119)
Frutos da colheita do quarto ano no ciclo de sete anos eram levados a Jerusalém e comidos pelo ofertante.
Parte de cada animal abatido
Sacerdote (descendente de Arão)
Dt 18, 3
(sêfer hamisvôt, M. 143)
Algumas partes dos animais sacrificados eram direitos dos sacerdotes.
A primeira tosquia das ovelhas
Sacerdote (descendente de Arão)
Dt 18, 4
(sêfer hamisvôt, M. 144)
Obrigatório somente em Israel
Ma`assêr behemá – O dízimo do gado
Contribuinte, após oferecer parte no altar
Lv 27, 32
(sêfer hamisvôt, M. 78)
Pela determinação dos sábios, só deve ser dado quando o Templo estiver em pé.
`Arakhin/ Haramim –  Avaliações/Coisas consagradas
Sacerdote (descendente de Arão)
Lv 27, 11-12; 14; 16; 28
(sêfer hamisvôt, M. 115, 116, 117, 145)
Havia `Arakhin e Haramim de animais, casas e campos. A pessoa poderia fazer voluntariamente essas consagrações para o sacerdote ou para Deus (Templo).
Pidion haben – Dinheiro do resgate do primogênito
Sacerdote (descendente de Arão)
Ex 22, 29
(sêfer hamisvôt,
M. 80)
Os primogênitos originalmente deveria ser sacerdotes. O resgate é uma forma de “eximi-los”, através da quantia de cinco moedas.
Pidion péter hamor – Resgate do primogênito de um jumento
Sacerdote (descendente de Arão)
Ex 34, 20; 13, 13
(sêfer hamisvôt,
M. 81)
O dono do animal poderia decidir entre matar o jumento ou resgatá-lo, dando um cordeiro, carneiro ou cabrito ao sacerdote.
Bicurim – Primícias
Sacerdote (descendente de Arão)
Ex 23, 19
(sêfer hamisvôt,
M. 125)
Só eram separadas as primícias (primeiros frutos) de sete espécies, de frutas de Israel, Síria e Transjordânia estando o Templo em pé.
Peá – Canto dos campos
Pobres
Lv 19, 9
(sêfer hamisvôt,
M. 120)
Como obrigação, o mandamento refere-se à Terra de Israel apenas.
Léquet – Espigas caídas
Pobres
Lv 23, 22
(sêfer hamisvôt,
M. 121)
Como obrigação, o mandamento refere-se à Terra de Israel apenas.
`Olelôt – Cachos de uva não totalmente desenvolvidos
Pobres
Lv 19, 10
(sêfer hamisvôt,
M. 123)
Como obrigação, o mandamento refere-se à Terra de Israel apenas.
Péret – Uvas caídas (“bagos”)
Pobres
Lv 19, 10
(sêfer hamisvôt,
M. 124)
Como obrigação, o mandamento refere-se à Terra de Israel apenas.
Chihekhá – Cereais esquecidos
Pobres
Dt 24, 19
(sêfer hamisvôt,
M. 122)
Como obrigação, o mandamento refere-se à Terra de Israel apenas.
Sedaqá – Caridade
Pobres
Dt 15, 11; lv 25, 35-36
(sêfer hamisvôt,
M. 195)
Devem-se sustentar os pobres em todas as suas necessidades.

Constatações:

Das vinte e uma ofertas que enumeramos, nove deveriam ser entregues ao sacerdote (descendente de Arão), que servia no Templo. Uma deveria ser dada aos levitas (descendentes de Levi), que ajudavam os sacerdotes, sete beneficiariam os pobres, órfãos viúvas e outras pessoas vulneráveis, três ofertas eram comidas pelo próprio ofertante e apenas o “meio siclo” era usado para as despesas do santuário.

A única contribuição dada por todos, pobres e ricos, era o “meio siclo”, usado para manter as despesas do Templo de Jerusalém (atualmente inexistente).

Em lugar nenhum de toda a Lei Mosaica existe o conceito de uma pessoa separar 10% de todas as suas entradas em dinheiro para ajudar nas despesas de templos religiosos ou sacerdotes. O que havia era uma enorme lista de dádivas separadas pelo produtor de cereais e criador de gado, para diminuir a desigualdade social e manter os sacerdotes e levitas, que oficiavam no serviço religioso pelo povo. O assalariado que não tinha gado nem cereais nem frutos não estava obrigado a oferecer o “décimo boi de seu gado” como sacrifício e comer sua carne, assim como não levaria as primícias, não separaria a terumá guedolá e depois 10% e depois outros 10%!

Essas ofertas são apresentadas por certas denominações cristãs de forma extremamente simplificada (para falar a verdade, distorcida), como um dízimo que os israelitas levavam. Nunca existiu tal dízimo, e sim dízimos e outras ofertas, que eram feitas em um contexto agropecuário, na Terra de Israel, morasse o judeu onde fosse! O único dízimo que poderia significar dinheiro era o segundo dízimo, unicamente se o ofertante morasse longe de Israel, para, ao lá chegar, gastar seu dinheiro em comida e bebidas, como está claro no capítulo 14 de Deuteronômio.

Os dízimos de que Malaquias falava NÃO ERAM apenas 10% do dinheiro dados aos líderes religiosos! Os líderes religiosos que pedem 10% do dinheiro hoje em dia afirmando que estão cumprindo leis bíblicas estão enganando as pessoas em benefício próprio. Peço que o leitor compartilhe esse estudo com todas as pessoas que conhece que estão sendo enganadas neste exato momento no assunto do dízimo.
____________________
¹ Existe um relato no livro apócrifo (ou deuterocanônico) chamado Tobit que expõe como eram feitos os dízimos e demais ofertas. Compare com o que é afirmado pela tradição rabínica e reproduzido em nosso artigo:
“E eu me via muitas vezes sozinho para ir a Jerusalém por ocasião das festas, conforme prescrito em todo Israel por um decreto perene. Eu acudia a Jerusalém com as primícias, os primogênitos, o dízimo do gado e a primeira tosquia das ovelhas e os dava aos sacerdotes, filhos de Aarão, para o altar. Eu também dava o dízimo do trigo, do vinho, das azeitonas, das romãs, dos figos e das demais frutas aos filhos de Levi em serviço em Jerusalém; o segundo dízimo, eu o tributava em dinheiro e ia apresenta-lo cada ano em Jerusalém. O terceiro, eu o dava aos órfãos, às viúvas e aos estrangeiros que residiam com os filhos de Israel; eu o trazia e lho dava de três em três anos, e nós o comíamos de acordo com a prescrição dada a este respeito na Lei de Moisés e as instruções dadas por Debora, mãe de Ananiel nosso pai (...)”
Bíblia TEB, Tobit 1, 6-8

² Para compreender o sistema de transliteração de termos hebraicos que usamos, leia o artigo: http://biblia-hebraica.blogspot.com.br/2015/02/sobre-transliteracao.html
CH, por exemplo, deve ser lido COMO EM PORTUGUÊS, chá, por exemplo, e não como em alemão.


³ Sêfer hamisvot (“livro dos mandamentos”) é uma obra escrita pelo filósofo, médico e grande rabino Moisés Maimônides (1135 -1204). O livro separa e dá uma pequena explicação para os 613 mandamentos da Torá (Lei de Moisés), usando como fontes o Talmud e midrachim. Pode ser encontrado em português, na editora e livraria sêfer. Nas citações ao sêfer hamitzvot, “M” significa Mandamento, e P, Proibição. Não atribuímos aqui qualquer caráter de “cânon” a esse livro. Apenas o usamos como forma de organizar os mandamentos da Torá.  




terça-feira, 22 de março de 2016

Mentiram para você! A Bíblia NÃO garante uma vida de bênçãos para as pessoas!

O ser humano, em sua arrogância por ser o "animal racional", está sempre orgulhoso de sua suposta propriedade de planejar, de dominar a natureza, de controlar as coisas. Mas, se pararmos para observar o mundo ao redor, veremos que pouquíssimas coisas estão realmente sob nosso controle. Não controlamos doenças, catástrofes naturais, acidentes, crises econômicas. Quantas vezes planejamos algo para certa data e nos frustramos por não ter dado certo? Isso acontece a todo mundo. Não controlamos a criação. Qualquer um que já tenha assistido a um telejornal sabe disso. 

Só que o sentimento de não termos poder sobre os elementos é insuportável. Não conseguimos lidar com o fato de que podemos morrer a qualquer momento e criamos, sem que percebamos, os mais variados trambiques para provarmos o contrário. Vou citar exemplos. Em primeiro lugar, o misticismo. O misticismo (astrologia, bruxaria, crença em carma, magia, simpatias com santos, espiritualidade pentecostal etc.) é a forma mais fácil e colorida de jogar a outras coisas as nossas responsabilidades, nossos altos e baixos, perdas e vitórias. É muito agradável dizer que algo aconteceu a fulano por castigo devido a seus pecados. Isso liberta a psicologia da velhinha beata de pensar que o mesmo pode acontecer com ela, que vive "louvando a Deus".

A religião mais primitiva surgiu para "enganar" a morte. Percebemos que somos mortais e, para acalmar os "espíritos da natureza" (mais tarde chamados deuses), que não controlamos naturalmente, começaram-se a oferecer sacrifícios. Esta é a raiz e o tronco do paganismo: louvam-se os deuses para que o "adorador" obtenha boas chuvas, colheitas, e não sofra a ira dos espíritos. A Torá (Pentateuco) aceitou algumas das práticas do paganismo, segundo o filósofo Maimônides, porque o povo não conhecia outra forma de religião. As mentes das pessoas da época não eram capazes de absorver a verdade monoteísta assim da noite pra o dia. Assim, foram aceitas práticas como os sacrifícios, só que receberam novas regras, no caso, só poderiam ser oferecidos sacrifícios ao Senhor, e no local designado. Sugiro que o leitor, para mais informações sobre este tema, leia o artigo “Elementos pagãos” na Bíblia: um problema?

A Torá continuou com muitas práticas da região do Oriente Médio, mas deu-lhes novos significados, para afastar o coração do povo de seus antigos conceitos. As festas, por exemplo, ao invés de comemorações das colheitas, que era o sentido que tinham a princípio, passaram a celebrar a liberdade e feriados nacionais (PêssahHanucá, Purim), a proteção de Deus (Sucôt), etc.

"Não há nada de novo debaixo do sol", como diz o escritor do Eclesiastes. As religiões populares hoje, em 2016 têm os mesmos elementos daquelas antiquíssimas formas de paganismo que bajulavam os deuses à procura de "bênçãos". Para justificarem o "vazio" ocasionado pela contemplação das tragédias do mundo, as pessoas recorrem à Bíblia, distorcendo vários versículos para prometerem aos outros e principalmente a si mesmos que tudo dará certo, sob suposta garantia divina. Neste artigo, analisaremos alguns textos que os "positivos" postam na internet todos os dias, repetem como mantra e gritam nas igrejas. Todos eles foram distorcidos e tirados do contexto, para afirmar que as pessoas justas têm o “direito” de não ficarem doentes, não serem pobres e não sofrerem. 

Em nenhum lugar da Bíblia está escrito que a pessoa que vive com Deus não pode sofrer nem morrer miseravelmente. Muito pelo contrário, temos vários relatos de profetas, homens santos que sofreram, foram abandonados por todo o seu povo, foram celibatários, absolutamente sozinhos, deprimidos, desejaram a morte (Elias, Jeremias, Jonas e outros). José, exemplo clássico da superação e do drama familiar, passou uns vinte anos de grandes sofrimentos antes de chegar a ser governador do Egito. Mas é fácil pular com os olhos os vinte anos e chegar à coroa, não é mesmo? É muito fácil ver os milagres que ocorreram ao povo hebreu no deserto, mas quem pensa que eles sofreram durante quarenta anos? Ora, não está escrito que eles não sofreram! 

Alguns textos que parecem prometer bênçãos

a) Êxodo 15, 26

Se vocês derem atenção ao Senhor, ao seu Deus e fizerem o que ele aprova, se derem ouvidos aos seus mandamentos e obedecerem a todos os seus decretos, não trarei sobre vocês nenhuma das doenças que eu trouxe sobre os egípcios, pois eu sou o Senhor que os cura. 
O texto compara dois povos: o povo judeu, que havia acabado de sair do Egito (Êx 12, 41) e os egípcios, que haviam sofrido as famosas dez pragas (7, 17 em diante). O povo reclamou de sede e Moisés milagrosamente tornou potáveis as águas amargas de Mará (15, 23 ss). Após o milagre, Moisés adverte ao povo que se todos cumprissem as leis, as calamidades que ocorreram com os egípcios, entre elas não poder beber água (na primeira praga do Egito, as águas tornaram-se como sangue), não ocorreriam com o povo hebreu. De que mandamentos o versículo está falando? Dos mandamentos da Torá, a Lei de Moisés. Por que os líderes dizem que a Lei foi abolida, mas as promessas para quem guardam esta Lei não foram? O versículo não promete saúde eterna para as pessoas que temem a Deus. Todas as pessoas adoecem, cedo ou tarde.


b) Deuteronômio 28

 Este texto promete bênçãos dulcíssimas ao povo judeu se ele cumprisse, COLETIVAMENTE, a Lei de Moisés. Veja: aquilo foi dito ao povo, não a indivíduos! Se fosse a indivíduos, os exemplos de fiéis sofredores já citados seriam inaceitáveis! Quando o povo era exilado em consequência de seus erros, até os justos como Jeremias e Daniel sofriam também! Mas não é só isso: o famoso capítulo do "bendito serás", tem apenas 14 versículos de bênçãos para o povo que cumpre os mandamentos , e surpreendentes 55 com as maldições mais pesadas que uma pessoa pode imaginar, para quem não cumpre!!! As mesmas pessoas que dizem que "texto sem contexto é heresia" pregam que todo mundo será abençoado, porque Dt 28 afirma! É claro! Falando a língua do povo: "quem diabo quer saber de coisas ruins?" Muito melhor é se iludir, enganar o povo e fingir que a coisa ruim nem existe! Mas ela existe:

Entretanto, se vocês não obedecerem ao Senhor, ao seu Deus, e não seguirem cuidadosamente todos os seus mandamentos e decretos que hoje lhes dou, todas estas maldições cairão sobre vocês e os atingirão: Vocês serão amaldiçoados na cidade e serão amaldiçoados no campo. A sua cesta e a sua amassadeira serão amaldiçoadas. Os filhos do seu ventre serão amaldiçoados, como também as colheitas da sua terra, os bezerros e os cordeiros dos seus rebanhos. Vocês serão amaldiçoados em tudo o que fizerem. (Dt 28, 15- 19)

Vejam que os primeiros versículos do capítulo falam claramente que as bênçãos eram condicionadas ao povo, coletivamente, se ele cumprisse a Lei:

"Se vocês obedecerem fielmente ao Senhor, ao seu Deus, e seguirem cuidadosamente todos os seus mandamentos que hoje lhes dou, o Senhor, o seu Deus, os colocará muito acima de todas as nações da terra. Todas estas bênçãos virão sobre vocês e os acompanharão, se vocês obedecerem ao Senhor, ao seu Deus" (Dt 28, 1-2)
Perceba que o povo é aqui comparado às demais nações. O texto não fala de indivíduos, fala da nação inteira, se seguisse os mandamentos da Lei Mosaica. Veja também, a esse respeito, Dt 4,1, falando sobre a mesma ideia.


c) Salmo 37, 25

Já fui jovem e agora sou velho, mas nunca vi o justo desamparado, nem seus filhos mendigando o pão.
O livro de Salmos não é uma fala de Deus para o povo. É uma coleção de poesias hebraicas, muitas delas escritas pelo Rei David. O rei expressa seus sentimentos através de sua habilidade com a composição, colocando "no papel" seus sofrimentos, devido aos momentos de perseguição por Saul ou outros inimigos (Salmo 57),  seu amor por Jerusalém (137), seu sentimento de culpa pelos seus pecados (51), seu sentimento de ter alcançado graça aos olhos de Deus etc. 

Assim sendo, não vamos distorcer os textos! O autor está dizendo que nunca viu um justo desamparado. Nem ao menos significa que os justos pobres e sofredores não existem! Ora! Muitos justos foram e são pobres! Veja o que a Lei de Moisés diz:

Sempre haverá pobres na terra. Portanto, eu lhe ordeno que abra o coração para o seu irmão israelita, tanto para o pobre como para o necessitado de sua terra. (Deuteronômio 15, 11)

Nunca vai deixar de haver pobreza. A pobreza é um resultado da ganância e perversidade humanas, da vida do homem como ser social e de circunstâncias externas! Como assim temos o “direito” de sermos todos ricos?


d) Salmo 121 

(...) sim, o protetor de Israel não dormirá, ele está sempre alerta! O Senhor é o seu protetor; como sombra que o protege, ele está à sua direita. De dia o sol não o ferirá, nem a lua, de noite. O Senhor o protegerá de todo o mal, protegerá a sua vida. O Senhor protegerá a sua saída e a sua chegada, desde agora e para sempre.

Os salmos são poesia. São opinião do autor, beleza vinda de sua mente e suas mãos. O salmo 121 representa a fraqueza do ser humano diante dos acontecimentos e sua espera em um Deus Onipotente que PODE atuar na história a favor de seu povo (não estamos negando isso neste artigo!). Quando eu digo a uma pessoa “Deus o abençoe”, estou expressando uma vontade sincera de que aquela pessoa receba coisas boas em sua vida. Mas isso, infelizmente, não significa que a bênção está nos planos de Deus!


 Pode ser que SEJA A VONTADE DE DEUS nos dar uma vida agradável, assim como pode ser da vontade dele fazer com que um ímpio tenha uma vida de riquezas NESTE MUNDO ¹. Quem somos nós para discutir os planos de Deus? Lemos que José passou por sofrimentos para que no futuro se tornasse aquele que sustentaria o povo de Israel, assim como lemos (Nm 42) que Deus poupou o povo moabita, que tinha acabado de causar um pecado horroroso, resultando em mortes para o povo de Israel, ao mesmo tempo que outro povo, o midianita, deveria receber vingança. Por quê? Temos uma boa explicação da parte dos nossos exegetas: do povo moabita viria Rute, a famosa convertida ao judaísmo que se tornaria ancestral do rei Davi e, portanto, de todos os reis de Judá! Deus, ao contrário de nós, pensa longe, vê a história inteira, e sabe o que é melhor para nós!


e) Isaías 54 

(...) Alargue o lugar de sua tenda, estenda bem as cortinas de sua tenda, não o impeça; estique suas cordas, firme suas estacas. Pois você se estenderá para a direita e para a esquerda; seus descendentes desapossarão nações e se instalarão em suas cidades abandonadas. (...)

Escolhi esse versículo para simbolizar todos os versículos dos profetas (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os doze profetas menores) usados para “prometer bênçãos” para as pessoas. Qual era a função de um profeta? Sabemos que o povo de Israel vivia altos e baixos. Pelos livros históricos da Bíblia, percebemos que houve reis excelentes como Ezequias (II Reis 18, 5ss), que acabou com práticas idolátricas e “pôs sua confiança no Senhor”, e também reis escandalosamente maus, como Manassés (II Reis 21, 2ss), que “fez passar seu filho pelo fogo”. As políticas desses reis influenciavam diretamente na conduta do povo, que lhes obedecia diretamente. Era na época desses reis que viviam os profetas. Isaías, por exemplo, foi contemporâneo de reis como Ozias, Iotâm, Acaz e Ezequias (Is 1, 1).

Os profetas serviam para reprovar as práticas erradas do povo e das elites de Judá e Israel, e também para anunciar a bênção divina, em consequência de eles seguirem ou não as leis de Deus. Lemos, por exemplo, sobre o profeta Jonas, que foi enviado a Nínive com o seguinte comando: “Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até à minha presença.” (Jonas 1, 2). Jonas anunciaria a perdição para a cidade de Nínive caso ela não se arrependesse, o que aconteceu, fazendo com que o povo fosse perdoado (capítulo 3). Esses eram os profetas! Eles enfrentavam os reis, falavam aos povos as mensagens do Senhor. No capítulo 54, o profeta Isaías está falando para a cidade de Jerusalém², comparada a uma mulher estéril, sem vida, porque a cidade estava desolada.

Os profetas traziam uma mensagem clara, real, que as pessoas receberiam EM SUAS ÉPOCAS. Podemos sim usar essas mensagens para fortalecimento e edificação de alguém, mas isso está sendo usado COMO REGRA, como promessa de riqueza e bênção, sem ao menos citar o contexto histórico em que o texto se situava! Isso é errado! Não era isso que o texto estava falando! Amigo, estão SELECIONANDO os textos para passarem para você! Se a regra de “pegar um texto dos profetas” e aplicar aos dias de hoje para QUALQUER CIRCUNSTÂNCIA é válida, então, por favor, explique-me porque pegar textos positivos está tudo bem, e textos como o seguinte, do mesmo profeta Isaías, são ignorados:
“Diz ainda mais o Senhor: Porquanto as filhas de Sião se exaltam, e andam com o pescoço erguido, lançando olhares impudentes; e quando andam, caminham afetadamente, fazendo um tilintar com os seus pés; Portanto o Senhor fará tinhoso o alto da cabeça das filhas de Sião!” (Is 3, 16 – 17) “E será que em lugar de perfume haverá mau cheiro; e por cinto uma corda; e em lugar de encrespadura de cabelos, calvície; e em lugar de veste luxuosa, pano de saco; e queimadura em lugar de formosura. Teus homens cairão à espada e teus poderosos na peleja. E as suas portas gemerão e prantearão; e ela, desolada, se assentará no chão.” (Is 3, 24-26)


Ninguém quer saber desses versículos, não é verdade?

Não é nossa intenção aqui falar de TODOS os versículos usados para prometer positividade, pois isso resultaria em um artigo infinito. Expusemos textos centrais usados para essa finalidade, nos profetas, nos salmos, e no pentateuco. Todos os demais textos, sem exceção, devem passar pelas mesmas regras: em que época foram escritos? Qual o gênero literário desse texto? Para quem o autor escreveu? Qual era a situação da pessoa/povo para quem o autor escreveu?

É possível sim, repito, usarmos os acontecimentos e histórias narradas na Bíblia, assim como os salmos, provérbios etc, para nos edificar, encorajar e citar exemplos para nossa vida prática. Não há problema algum nisso! O problema é criar uma REGRA, uma promessa! Isso não é válido! É uma atitude problemática, pois, afinal de contas, se a pessoa não for abençoada, a conclusão óbvia seria que a promessa é falsa! É a coisa mais óbvia do mundo! Não custa nada citar a situação em que o texto se situa na Bíblia. Exemplo: "amigo, o povo de Israel aqui estava passando por problemas, assim como você, e Deus pode te ajudar...". Faça isso sempre!

Conclusão: o problema da “positividade”


Além de ser falsa, como espero ter provado nesse artigo, a positividade baseada no mau uso de textos bíblicos está associada a um forte problema: esperar por coisas do céu acreditando estar amparado por promessas pode fazer com que você desvie o seu pensamento da realidade do dia a dia!

Os poderosos adoram a positividade do povo, porque ela mantém este totalmente cego, sem ver as crises, sem ver os problemas e sempre esperando pelo melhor, com amuletos, com repetição do nome de Deus e com pensamento positivo! Uma pessoa “positivinha” nunca reclama de sua sorte, nunca vê as injustiças sociais, nunca vê os abusos de poder, porque enxerga o mundo apenas com olhos de "vencer", de "Deus" e de "bons sentimentos". Quantas pessoas já postam na internet momentos após acordar sua primeira coisinha positiva do dia? Desejos bons, boas sementes...? acordemos para a vida! Há poderosos detendo direitos de vida e morte sobre o povo! Há leis injustas! Há políticos roubando milhões! Por tudo que compramos, pagamos altos impostos e não recebemos nada em troca! Enquanto isso, uma enorme massa, ao invés de entrar na ação política, de se informar, pelo menos, fica postando Maria e Jesus na internet e postando amém em fotos de criancinhas deficientes!

Percebam que a positividade, a crença PAGÃ em direitos a bênçãos faz muito mais mal do que bem, pois nos mantém alienados deste mundo e acomodados, atribuindo sempre a coisas sobrenaturais coisas que estão na esfera dos seres humanos, da nossa ação e responsabilidade! Vamos concluir com um versículo que se situa no contexto da travessia do mar, quando os israelitas rogaram a Deus para que agisse em favor deles. Se você foi impactado por este artigo, peço que passe adiante.

“Então disse o Senhor a Moisés: Por que clamas a mim? Dize aos filhos de Israel que marchem” (Êxodo 14, 15).

_________________________

¹ Nossa real esperança deve ser no pós morte, na recompensa que nosso Deus nos dará (ver Daniel 12, 2). Muitos ímpios parecem ser felizes aqui na terra, e muitos justos não têm suas riquezas materiais. Devemos sim buscar uma vida feliz aqui, e podemos pedir a Deus por proteção, não há nada de errado nisso. Mas quem sabe os melhores caminhos para nós é o Criador!

² Segundo o comentário de Rachi sobre o primeiro versículo desse capítulo.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Manual rápido para PURIM 2016!


PRÓXIMA COMEMORAÇÃO: פורים – PURIM (“Sortes”) 

a) O que comemora:

Comemora o livramento da morte de todas as comunidades judaicas do império persa sob o rei Assuero (Xerxes[485-465 a.e.c.] para alguns), de acordo com o livro bíblico de Ester. O povo judeu seria destruído devido a um decreto antissemita produzido por Haman, por inveja dos judeus. Mas o livramento veio mediante a intercessão da rainha Ester. Desde então, o dia seguinte ao que seria o genocídio dos judeus tornou-se a data da comemoração.

b) Datas: 

  • 24 de Março (quinta-feira) - Purim (14 de Adar) 
  • 25 de Março - (sexta-feira) Chuchan Purim (15) 

c) Misvot (Preceitos) 

  • Da Torá escrita: -- (não há) 
  • Dos rabinos: 1 – A leitura da meguilá 

d) Práticas 

• O jejum de Ester (13 de adar), feito no dia anterior a Purim NÃO É OBRIGATÓRIO, apesar de ser um costume fortemente difundido e lembrar o episódio bíblico. Todos os jejuns judaicos, com a exceção do nove de Ab e do Iom Kipur, são PARCIAIS. Pode-se comer à noite, e não no dia.

• A Meguilá (livro de Ester escrito à mão EM PERGAMINHO) deve ser lida, uma vez à noite e outra durante o dia, em Purim (excessão: se cai no chabat. Nesse caso, lê-se na sexta). Se não houver Meguilá, nada impede que as pessoas leiam o livro de Ester em papel, mas NÃO SE DIZEM AS BÊNÇÃOS referentes à leitura.

• Deve-se fazer uma refeição festiva em 14 de Adar, alegrando-se muito.

• Devem-se enviar dois tipos de alimentos para um amigo nesse dia. 

• Devem-se dar presentes (dinheiro, comida etc.) para, pelo menos, dois pobres. 

• A comemoração chamada CHUCHAN PURIM substitui Purim apenas nas cidades cercadas por muro desde os tempos de Josué. A prática foi instituída para lembrar Jerusalém, que num primeiro momento não é o “centro” de Purim. 

e) Costumes 

O folclore judaico é totalmente diferente da LEI, e desenvolveu práticas populares para essa festa. Fazem barulho com instrumentos musicais durante a pronúncia do nome de Haman, na leitura da meguilá, praticam imensos excessos de bebida (o que não deveria ser feito) e transformaram a festa em um “carnaval judaico”, com o povo rezando com máscaras e fantasias. Em minha opinião, nenhuma nova comunidade judaica deveria reproduzir essa prática, que é apenas questão de FOLCLORE, adquirida com o contato do povo judeu com outros povos.

f) Saudação

 פורים שׂמח! (Purim samêah) – Feliz Purim!

quarta-feira, 9 de março de 2016


NÃO REPITA FALÁCIAS NEM INJUSTIÇAS HISTÓRICAS: QUEM MAIS PERSEGUIU E MATOU "BRUXAS" FORAM... OS PROTESTANTES!!!

Muitos protestantes acrescentam o que ouvem na escola sobre as barbaridades da Igreja Católica à sua lista de acusações e discursos bíblicos contra essa religião. Parece, pra quem ouve as palavras deles, que as outras religiões tem alguma coisa má que as fazem chegar ao misticismo doentio, ao fanatismo assassino, à corrupção suja e ao exercício de poder e interesses sobre o povo. O que essas pessoas não sabem é que quem mais condenou mulheres por motivos banais à tortura e morte alegando "bruxaria" foram autoridades protestantes, que futuramente se tornariam os evangélicos! Veja a seguinte citação, de um livro que também acusa o catolicismo, portanto é imparcial:

"Mas para mulheres sob suspeita de bruxaria, os tempos eram difíceis. A caça às bruxas assumiu dimensões de um extermínio suicida da população feminina. Peculiarmente, a obsessão era mais forte nos países nórdicos da Europa e nos que professavam o protestantismo. Os caçadores e farejadores de bruxas, que recebiam por cabeça, incitavam publicamente à denúncia de vizinhos. Toda suspeita, por mais absurda, levava à detenção. A prisão e a tortura arrancavam então confissões de mulheres em sua maioria completamente inocentes. Também os países católicos tiveram caça às bruxas. Porém neles tratava-se mais de apurar a apostasia da verdadeira fé, portanto, a heresia. Em Roma, sede do papado, e em toda a Itália católica, não houve praticamente nenhum processo contra bruxas. Além da bula contra as bruxas, de 1484, nenhum dos quase cinquenta editos papais sobre bruxaria, datados dos séculos XIII a XVI, prevê perseguição criminal" (DOUCET, Friedrich W. O livro de ouro das ciências ocultas. P. 200 -201)

Conclusão: não espalhe falácias. Fanatismo e abuso do poder NÃO ESCOLHE religião. Todas as religiões, como todas as instituições humanas, têm sangue em suas mãos. Essa nem mesmo foi a única barbaridade contra a humanidade feita pelos protestantes, houve outras, sobre que talvez escrevamos depois. Nosso intuito NÃO É apontar o dedo para os protestantes, não se trata disso, mas sim de cessar discursos tendenciosos e conscientizar as pessoas dos perigos do fanatismo religioso. Por favor, passe adiante!