segunda-feira, 5 de julho de 2010

Versões da Bíblia Hebraica


Recebemos questionamentos sobre onde conseguir o Tanakh ou Torá em português, ou através da internet. Bom, infelizmente, não temos disponível "on-line" uma versão judaica em português, mas temos em português versões ótimas e altamente recomendadas para o leitor em sua busca pela verdade, ambas a serem adquiridas através do site www.sefer.com.br

O que não significa, no entanto, que não existam excelentes versões judaicas em outros idiomas, disponíveis na internet, totalmente gratuitas, e até mesmo material em português que muito pode ajudar o estudante a compreender a Torá e sua mensagem, interpretados de forma autorizada, ou seja, através da exegese hebraica, e não de formas estranhas ao pensamento original. Vamos aos "links".

1- Bíblia interlinear hebraico português , com comentários assim que necessários, do grande rabino J. de Oliveira. Seria essa a principal ferramenta do falante português que procura estudar a bíblia, não fosse pelo fato de que esse site está "trancado", o que significa que é necessário possuir uma senha para ter acesso ao conteúdo. Experimente enviar um e-mail para rabino@judaismo-iberico.org, expondo suas intenções com o conteúdo do site.

2- Bíblia on line - Excelente site contando com inúmeras versões da bíblia em vários idiomas. Você pode ver, lado a lado, o texto da bíblia em português, na versão que mais lhe aprouver, e o texto hebraico do códex de Alepo.

3- La Torá, traducción al español a los cinco libros dela Torá - excelente tradução judaica em espanhol!

4- The Hebrew Bible in English (JPS 1917 edition) - Versão judaica em inglês.

5- The Complete Jewish Bible, with Rashi comentary - Excelente versão inglesa da Bíblia Hebraica (JP), com comentários de Rashi, o maior exegeta hebreu!

E para você que procura o texto original hebraico:

6- www.mechon-mamre.org - Aí você encontra a Bíblia Hebraica da forma que você quiser, inclusive com sinais de cantilação (te'amim).

Chalom!

Você Conhece Mesmo a Bíblia?

Costuma-se dizer que a Bíblia é o livro mais publicado, traduzido e lido no mundo. Hoje temos a Bíblia em absolutamente todas as línguas do mundo e até mesmo em quase todos os dialetos, incluindo os mais exóticos.

A pergunta é: será que todas as pessoas que leem a Bíblia realmente sabem o que ela quer dizer? Será que a Bíblia pode ser traduzida a que língua se queira de forma fiel, fazendo com que todos entendam sua mensagem?

É sabido que "toda tradução é uma traição", ou seja, é impossível que se traduza de uma língua a outra mantendo todas as ideias presentes no texto original. Nesse artigo em particular vamos conhecer razões suficientes para mostrar que pessoas que estudam a bíblia em traduções têm acesso apenas a uma pequena "face" do texto original

A questão linguística


1- Expressões só entendidas em hebraico
Vamos citar um único exemplo, muito eficaz para mostrar a perplexidade do leitor em português que é explicada por particularidades do texto hebraico:

Jeremias 1, 11-12 - "Ainda veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Que é que vês, Jeremias? E eu disse: Vejo uma vara de amendoeira. E disse-me o SENHOR: Viste bem; porque eu velo sobre a minha palavra para a cumprir."

O leitor acostumado a sua bíblia em português perguntará "O que tem a ver o ramo de amendoeira visto pelo profeta com o fato de que Deus vela pela sua palavra para cumpri-la?" Acontece que no original hebraico a palavra amendoeira em hebraico é chaqed (שקד) enquando "velo", verbo velar é chaqad (שקד). Fácil é até para o leitor leigo que ambas as palavras têm origem comum, assim como "pasto" e "pastor" em português.

2- Frases idiomáticas
Todos os idiomas têm suas frases idiomáticas, ou seja frases características que o tradutor terá que traduzir para uma frase correspondente em seu idioma, de forma que seja compreendido. O tradutor inglês-português, para citar um exemplo verá que sua tradução ao pé da letra ficará um tanto estranha em português. Isso é melhor notado ainda em traduções eletrônicas. Exemplos em hebraico seriam má chelomekhá?, que significa literalmente "qual a sua paz?", mas como correspondente idiomático à língua portuguesa melhor se traduziria como "Como estás?", ou seja, a frase que se usa para perguntar pelo bem-estar de alguém. A resposta a essa pergunta é chelomi tob, que significa ao pé da letra "minha paz é boa". Se questionado por sua idade, um falante de hebreu bíblico de 30 anos de idade dirá "ani ben cheloshim chaná", literalmente, sou filho de trinta anos (embora chaná seja uma palavra singular em número).

3- Ausência de vocábulos correspondente e múltipla correspondência
Como um terceiro ponto, se por um lado temos palavras no idioma hebreu sem correspondentes em língua portuguesa (exemplo é visto nas primeiras palavras da bíblia: bará, que significa "criar do nada", e não simplesmente "criou Deus"), por outro há palavras hebraicas que correspondem, cada uma delas a várias palavras em português (rúah = vento, espírito, atmosfera, etc.). Nesse caso, o tradutor sempre escolherá a palavra a verter e, claro, colocará aquela que satisfaça suas crenças pessoais.

4 - A questão cultural
Como um quarto ponto, trazemos como problema à tradução as palavras que trazem em si, muito mais que um vocábulo a ser traduzido, uma expressão cultural do seu povo (o que está relacionado ao ponto 2). Exemplo seria a palavra "inferno". Em nossa cultura, um lugar de sofrimento chefiado pelos "demônios". Em inglês, a palavra "Hell" relaciona-se ao nome de uma deusa da mitologia saxônica. O "Hades" grego é a casa do deus da morte, de mesmo nome, para onde vão tanto bons quanto maus, e finalmente, Cheol, palavra traduzida à vontade em nossas bíblias brasileiras como inferno, sepultura, Seol e outros, quando convém ao tradutor, quer dizer a sepultura, às vezes em sentido figurado.

5- Pausas da Bíblia Hebraica
Na Bíblia Hebraica, o sistema de pausas é muitíssimo diferente da nossa ocidental, o que é um dos maiores causadores de problemas de tradução e interpretação, principalmente em pretensas "profecias messiânicas". Para citar o quanto tem a ver simples pausas com a compreensão do texto, vejamos como exemplo a primeira coisa que o leitor da bíblia verá ao abri-la:
Onde esses simples sinais em vermelhos (em hebraico, te'amim), invariáveis em qualquer edição da bíblia hebraica querem dizer, muito mais que erroenamente pensam alguns: as notas musicais usadas na leitura cantada no culto hebraico (e essas notas variam de uma etnia judaica a outra), servem para separar ou unir uma palavra à outra. Nesse caso, o versículo poderia ser traduzido figuradamente em português como "No princípio, criou-Deus; o céu, e a terra.", o que bem estranho ao leitor falante da língua portuguesa. Também pode isso ser representado como
((בְּרֵאשִׁית (בָּרָא אֱלֹהִים)) ((אֵת הַשָּׁמַיִם) (וְאֵת הָאָרֶץ))) Podemos sintetizar essa divisão como se na bíblia hebraica houvesse uma sequencia de perguntas: "No princípio (o que ocorreu?) criou (quem criou?) De'us (a que?) o céu (algo mais?) e a terra.".

Além dessas pausas menores (pontuação), a Bíblia Hebraica está dividida textualmente entre "parchiot" (textos, porções ou parágrafos) petuhot (abertas, singular: parachá petuhá) e setumot (fechadas, singular: parachá setumá), que são os parágrafos do texto hebraico, representados na Bíblia impressa como letras pe (פ) ou sâmekh (ס), o que também têm implicações exegéticas importantíssimas, e desconhecidas em nossas traduções.

Finalmente a divisão em capítulos e versículos, que associamos assim que alguém pronuncia a palavra "Bíblia", não é algo original, e infelizmente causa inúmeras falsas interpretações, pois sugere uma pausa entre os capítulos. Logo, os capítulos 52 e 53 do profeta Isaías deveriam ser entendidos como uma continuação, e não como capítulos distintos. A divisão de capítulos e versículos das Bíblias Hebraicas também é diferente da nossa. Enquanto Malaquias, o último livro do Velho Testamento cristão tem quatro capítulos, o livro que está mais ou menos a um terço da Bíblia Hebraica tem apenas três. Na "profecia messiânica" de Isaías capítulo 9, o primeiro versículo na Bíblia Bristã, é o último do capítulo anterior na Bíblia Hebraica, o que traz, além de numeração de versículos diferente, provas que o texto de Isaías está ligado um capítulo ao outro, e não entendido separadamente, o que é o motivo de ser chamado Isaías de "o profeta messiânico", pelos cristãos. Isso é apenas um exemplo, há inúmeros desencontros entre versículos entre as bíblias. Aqueles titulozinhos de textos das versões cristãs não existem no original, e infelizmente também inserem interpretações pessoais dos tradutores, causando grande confusão.

Penso que essa seja a altura certa do texto para falar da diferença entre a ordem dos livros na Bíblia Hebraica e a nossa. A Bíblia Hebraica está dividida em três partes: a primeira é o humach, ou pentateuco, a segunda são os profetas, e finalmente, os "escritos". Historicamente esses livros estão classificados pelo judaísmo como diferentes graus de importância, e Daniel, o mais futurista dos profetas, na visão cristã, não é profeta*, e é colocado ao lado de livros históricos e poéticos.

Até aqui falamos apenas de meras implicações linguísticas da Bíblia Hebraica. Pois bem, deve-se ter em mente que o hebraico, muito mais que uma "língua original" que o seminarista deve estudar para conhecer a Bíblia, é um mundo totalmente diferente, onde temos aberrações linguísticas e gramáticas que os escribas nunca mudaram, porque têm seu significado, onde as letras são números e símbolos, falando tanto quanto as palavras que formam! Passemos a considerar agora um pouco desses aspectos:


A questão Exegética

Infelizmente, e como já citamos, as pessoas que estudam hebraico em muitos seminários cristãos acham que conhecem a Bíblia como uma totalidade, e que o estudo do "original" trará mero esclarecimento linguístico, traduzindo do hebraico para o português como se traduz do espanhol para o português. Essas pessoas ignoram, ou pensam que mais conhecem o idioma hebraico que os exegetas, gramáticos e místicos judeus dos últimos dois mil anos (e na literatura judaica há muitíssimas páginas sobre por que a Torá começa com B e não com A [berechit...]), esquecendo-se de que a Bíblia Hebraica não seria compreensível sem a cuidadosa edição massorética, pois sem ela não teríamos sequer o texto hebraico vocalizado, impossibilitando-nos distinguir uma palavra de outra com as mesmas consoantes.

É dever citar o cuidado jamais visto que o povo judeu teve em preservar seu texto sagrado: os sábios massoretas cuidaram em contar as letras do texto sagrado (e você conhecerá essa contagem em qualquer edição impressa do Tanakh), os judeus iemenitas passaram uma verdadeira história separados da civilização judia europeia conservaram sua Torá até hoje com menos de dez letras de diferença das que usamos, quase sempre letras vocálicas, sem falar do zelo excessivo que tem, até os nossos dias um escriba judeu (sofer) para copiar o texto da torá**, isso para evitar ser excessivo em louvores e homenagens.

Começando a citar as implicações exegéticas do texto da bíblia hebraica, convém citar em primeiro lugar os conhecidos

6- códigos da bíblia
Que são jogos incríveis com as letras da Bíblia Hebraica. Para citar um primeiro exemplo, vejamos o texto de gênesis 1,31-2,2, sobre a consagração do sábado nos primórdios da criação:

O leitor que conhece as letras hebraicas perceberá que, aparece, em um intervalo de sete em sete letras (e sete é um número significativo na bíblia), as letras da palavra Israel (ישראל - as letras marcadas com quadrados azuis), em quanto as iniciais de "Iom Hachichi. Vaikhúlu Hachamáiim" (dia sexto, e foram criados o céu) formam o nome inefável de Deus (I-H-V-H - letras indicadas com quadrados vermelhos). Implicando ser o sétimo dia uma estreita ligação entre Deus e o povo de Israel! Veja muito mais desses códigos incríveis em http://www.chabad.org.br/datas/shavuot/a%20tora/codigos_tora.html


A probabilidade de que tais códigos sejam feliz coincidência é de 1 em 62.500.

7- Gematria
No alfabeto hebraico, cada letra tem valor numérico, e esse sistema (conhecido como gematria) revela muito da exegese hebraica. A terra que Deus mostraria a Abraão (ar'eca - gênesis 12, 1), tem o mesmo valor numérico de Éres Iisrael (terra de Israel). Em gênesis 29, 19, "titi" (melhor dá-la a ti) significa gematricamente a matriarca Lea, enquanto "mititi" (do que dá-la a outro) significa Rahel, mostrando com antecedência que Jacob desposaria Lea e só depois Raquel. Existem muitos outros exemplos desses jogos espalhados por toda a Bíblia, dos quais ainda vale a pena citar que os dez mandamentos se acham escritos com 620 letras, entendidas como os 613 preceitos dos judeus ao lado dos 7 preceitos dos demais povos (as leis de Deus para os não-judeus, de acordo com o judaísmo, são 7).

8-"Absurdos" textuais
Não é necessário voltar a citar o zelo do povo judeu em preservar a Bíblia Hebraica. Bem, geralmente se vc estiver copiando um livro em português e vê algo absurdo como um erro de ortografia ou de gramática, a tendência é corrigi-lo. O mesmo se aplica à Bíblia Hebraica, certo? Não! Nossas Bíblias Hebraicas conservam ao máximo o texto original, mesmo quando isso pareça absurdo. Como exemplos de "mistérios" no texto sagrado, podemos citar letras invertidas (fenômeno dos "nuns" invertidos em números 10, 35-36), letras finais no meio da palavra (Isa. 9,7 [6]) letras maiores (bet em "berechit - Gên. 1,1) menores (álef em vaiiqrá - Lev. 1,1), pontos estranhos sobre as palavras (e eram a esses pontos a que o NT se refere como "til"), etc. Todos esses textos tem uma vastidão de interpretações no judaísmo, e correspondem, em português, no mínimo a um "Ç" no início de uma palavra.

Por outro lado temos "absurdos" de concordância, por exemplo "ele" referindo-se a uma mulher, e que não são mudados na Bíblia Hebraica, e sim apontam para uma nota marginal.

Convém ressaltar a forma judaica de interpretação da Torá: "Nossos sábios dizem que a Torá tem "setenta faces", pois a torá foi dada também às setenta nações do mundo". Nesse caso, em sua tradução você só terá acesso a uma dessas faces, deixando de ter acesso a inúmeras outras interpretações possíveis para cada palavra. Uma das formas exegéticas judaicas chama-se pardes, o que é uma sigla de pechat, que é o sentido literal do texto, rêmez, o texto como uma alusão, derach, que é uma interpretação do texto, ou seja, pegar o texto para extrair dele uma lição, e por último sod que é o sentido oculto por trás das palavras.

Seria de meu interesse me prolongar muito mais nesse artigo, motivo pelo qual estarei sempre que possível atualizando esse blog, pois são muitas as pessoas, independentes de religião, que estão extraindo da Bíblia apenas histórias e pressupostos para seu apego fanático a uma religião, esquecendo de recorrer à interpretação original do texto. Certos pastores e membros de igrejas costumam citar que leram dezenas de vezes a Bíblia. Pergunto: Por que, ao invés de ficar lendo tanto uma tradução para o português, que só reflete a ideia do tradutor, esses leitores não estudaram O IDIOMA ORIGINAL, a HISTÓRIA BÍBLICA, a CRONOLOGIA BÍBLICA e a CULTURA JUDAICA?



* Daniel não é considerado um livro profético. De acordo com o Talmud (Babilônico, Baba Batra 15a), trata-se de um livro alegórico, uma espécie de código escrito pelos líderes judeus, na época da perseguição religiosa por parte de Antíoco, para que seus compatriotas confiassem em Deus e não transgredissem os mandamentos .

** O sofer tem de escrever em um alfabeto especial, calculando o espaço de cada letra para que as linhas fiquem bem ajustadas, e ainda deixa o espaço justo de escrever todos os nomes de Deus, pois só os escreve em estado de pureza absoluta, sendo que qualquer erro que não se possa apagar invalida toda uma folha de pergaminho. Há leis regulamentando cada parte do processo de escrita do texto.