quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Usar midrachim para validar o Novo Testamento?



Usar midrachim¹ para validar o Novo Testamento?

            O judaísmo tradicional e os cristianismos possuem diferenças irreconciliáveis. Qualquer pessoa que afirme que “é tudo a mesma coisa” não pode ser levada a sério. Isso ocorre porque o judaísmo se baseia num livro ou em livros: a Torá e a literatura talmúdica. Os cristianismos (Catolicismo, Protestantismos e outras religiões cristãs que não aceitam esses rótulos) também se baseiam em um livro: o Novo Testamento. Para QUALQUER pessoa que aceite a mensagem de Jesus ou Yeshua – ou qualquer outra transliteração ou tradução desse nome –, a mensagem central de Deus para este mundo é o evangelho de salvação, e não a Torá (Lei), independentemente de ter ela sido anulada ou não. Não há como juntar essas duas formas de ver o mundo! Juntá-las é criar um Frankenstein, um monstro.
            É impossível unir uma fé num Deus transcendental² a que jamais se pode associar uma imagem à mensagem de que Jesus é a imagem de Deus, e talvez o mesmo Deus. Não se pode crer ao mesmo tempo na responsabilidade intransferível da responsabilidade pelas ações humanas e no sacrifício humano vicário de Jesus. Não “dão no mesmo” um messias político e um “filho de Deus”. São muitas as diferenças, realmente não dá para unir as duas coisas. São como água e óleo, ou água e fogo. 
            No entanto, há quem tente unir esses elementos em uma só criação. E qual é o processo através do qual fazem a maravilha alquímica? Usam o caminho mais fácil: pegam no Novo Testamento o que há de judaico, e com esses argumentos, repetem como o novo chemá’: “viu? Esse é um livro judaico!!!”. Ora, TODO SANTO MUNDO sabe que o Novo Testamento está repleto de motivos judaicos! Não é nenhum mistério. Há referências ao Templo, ao talit, às festas, aos sacerdotes, várias histórias acontecem na Terra de Israel, entre judeus, “messias”, “Davi” e “Abraão” estão entre as primeiras palavras do livro, e “amém” entre as últimas. Vemos entre os sermões de Jesus várias máximas sapienciais semelhantes a ensinamentos dos mestres fariseus. É um livro cheio de coisas judaicas. Quem vai negar isso? Mas a grande pergunta é: E DAÍ que é um livro judaico?
            O Alcorão também tem motivos judaicos! Noé, Abraão, Moisés, Arão, Davi, Isaac, todos esses figuram nas páginas do Alcorão. O livro começa com um louvor ao Deus único, que julga os humanos e sua última surata encerra uma afirmação humana na confiança em Deus, o Rei dos humanos! Ora, isso não é judaísmo também? Mas não precisamos apelar para o Alcorão, escrito por um não-judeu, já que dizem que o Novo Testamento foi escrito por judeus. Em livros escritos DENTRO do judaísmo há coisas consideradas erradas! Existe um livro judaico chamado Chi`ur Qomá, que trata de nada menos que as MEDIDAS DE TAMANHO DE DEUS, o que é blasfêmia do ponto de vista do judaísmo ortodoxo! Ou seja: o fato de haver motivos judaicos ou mesmo uma autoria judaica em um livro só nos mostra que o autor dos textos tinha conhecimentos de coisas judaicas. Não prova que o livro está alinhado com o judaísmo tradicional. Isso deve estar claro.
            Após essa introdução, vamos ao ponto central. Eu já tive a oportunidade de assistir, através do Youtube, a alguns debates entre judeus tradicionais e judeus crentes na mensagem cristã da salvação por Jesus que não abandonaram práticas judaicas. Estes últimos têm uma tendência a citar, além do que foi dito sobre a judaicidade do Novo Testamento, fragmentos da literatura judaica que parecem validar as crenças cristãs contrárias ao judaísmo tradicional. Essa é a grande arma dos messiânicos. Pegam essas michnaiôt aqui, tiradas de um artigo messiânico traduzido, aqueles midrachim ali, vindos dos poucos livros judaicos em português, temperam com uma pitadinha da cabala, e PRONTO! está provado que não é errado para um judeu fiel à Torá crer na carta aos Tessalonicenses e no evangelho de Marcos! 
            Será que estamos lidando com um argumento válido? Em um dos vídeos que eu vi, inclusive trechos das orações judaicas e operações matemáticas de guematria com o nome de Jesus foram usados como argumentos de que está tudo bem para um judeu aceitar a mensagem cristã! Vamos questionar:

1-     É correto usar trechos de obras isolados, sem conhecer nada das mesmas profundamente?
2-     Por que “judeus-cristãos”³ citam textos cabalísticos como provas, já que a literatura cabalística envolve magia, astrologia, crenças como reencarnação, superstições etc., que, convenhamos, NÃO SOAM BEM, para dizer o mínimo, aos ouvidos deles? Pode-se citar como autoridade o que se considera inadequado?
3-     Que sentido faz citar a oração de judeus não-crentes em Jesus, por eles composta, como prova de que Jesus é o messias?
4-     Sabemos que, com TANTAS técnicas de guematria que existe, eu posso fazer agora mesmo uma revelação “sagrada” sobre Dilma Rousseff, comparando-a a alguma coisa da Torá ou do livro de Daniel. Como posso usar algo assim em um debate como evidência?

Está claro que aqui estamos lidando com argumentos muito forçados e absurdos. Mas os judeus-cristãos continuam com esse hábito o tempo todo! Pegam aquele comentário de rodapé da Torá em português e “viu? Na literatura judaica há citação a uma pessoa ser expiação por outras!”! A literatura judaica, leitor, é imensa. Estamos falando de mais de 3000 anos de escrita! Temos a Bíblia e seus comentários, a Michná e os Talmudim e seus comentários e os comentários dos comentários, os midrachim e suas compilações, o Michnê Torá e seus comentários, O Chulhan `Arukh e seus comentários, suas abreviações e seus comentários, isso pra nem começar a falar das obras de filosofia, cabala e ética/moral! Será que pode ser um argumento válido usar o que pode chegar traduzido a nossas mãos desses textos e usar como argumentos, dizendo que o próprio povo judeu, guardião desses textos, não entende o que eles querem dizer? Mais uma vez, é muito forçar a barra!
Existe algo que precisa ser dito para o público, sobre midrachim. Na literatura judaica, temos vários “tipos”: destacam-se as obras de lei (halakhá), que tratam do que é dever para o judeu, e as lendas e tradições (hagadá) que estão no Talmud e que podem até ser “saltadas” sem prejuízo para a vida judaica de ninguém. O rabino Mochê ben Nahman, mais conhecido como Nahmânides ou RAMBAN (1194-1270), comparou os midrachim a sermões ditos por religiosos quaisquer, e é dele a afirmação de que não é de nenhum modo necessário acreditar nesses textos. Moisés Maimônides foi além, e chamou as pessoas que entendem midrachim de modo literal de “ignorantes” e pessoas que não têm o intelecto saudável.
O que é, então, um midrach? Como podem esses sábios “diminuírem” a importância de uma literatura que parece ter um prestígio tão grande no judaísmo? Na verdade, os midrachim não são pensados para parecerem literais e verossímeis. São, por assim dizer, “brincadeiras” com o sentido de textos bíblicos. Meios engenhosos para interpretar a Torá. Frequentemente há diversos midrachim CONFLITANTES sobre um mesmo texto da Torá, o que mostra que não são literais. Por exemplo: o Talmud faz-nos saber que os sábios estavam discutindo sobre o motivo pelo qual a Torá diz que “subiu a rã” e não “subiram as rãs” em Êxodo 8, 6. Rabi El`azar disse que subiu apenas uma rã, que procriou e gerou muitíssimas outras. Rabi `Aquiba disse que era apenas uma rã sobre todo o Egito, o que nos leva a crer que era uma rã gigante. O Talmud registra a reação de R. El`azar ben Azaria: “`Aquiba, o que você tem a ver com hagadá? Cesse suas palavras e devote-se ao estudo de ‘leprosos’ e ‘tendas’!”!
Impressionante, não? O texto nos mostra que os sábios inventavam diversos midrachim, contraditórios, às vezes, e alguns absurdos, não na minha opinião, mas na do próprio rabino El`azar bem Azaria. O midrach requer talento e engenhosidade para explicar uma passagem da Torá através desse tipo de produção.
            A ideia da rã gigante, de R. `Aquiba, não é o único midrach inverossímil na literatura rabínica: existem textos dessa literatura que afirmam, por exemplo, que o monte Sinai, na época da entrega da Torá se ergueu acima da cabeça dos israelitas para forçá-los a aceitar os mandamentos (Chabat 88a) e até mesmo há quem diga que Rebeca, quando casou-se com Isaac, tinha apenas 3 anos de idade (Soferim 1, 1:4)! Imaginem que grande problema moral essa interpretação causa! É necessário deixar claro que é uma interpretação sem o menor sentido, pois lemos que, antes de encontrar Isaac, Rebeca era capaz de tomar suas próprias decisões e até carregava água para dar de beber a camelos.
Concluindo, após o leitor ter adquirido um pouco de conhecimento a respeito de o que é um midrach e qual sua relevância para o judaísmo, eu pergunto: é um argumento válido procurar coisinhas em textos dessa natureza, não obrigatórios e não literais, para validar assuntos contrários às BASES da fé judaica na Torá? O que vale um midrach afirmando que Nadab e Abihu morreram para “expiar os pecados de uma geração” perto do ensinamento do próprio Criador que diz que ninguém paga pelos pecados de outros? Por que essa supervalorização do folclore judaico, ainda mais quando não se aceita o judaísmo tradicional? Qual é o sentido disso?

Observação: a origem do sistema “Pardês” (Pechat-Rêmez-Derach-Sod)
Outros argumentos “judeu-cristãos” clássicos afirmam que há variedades de interpretação no judaísmo e que há quatro formas de interpretar os textos da Torá, a forma literal (Pechat), a alegórica (Rêmez), o midrach (Derach) e a interpretação mística (Sod), formando suas iniciais a palavra “Pardês”. Este último argumento é usado para dizer, por exemplo, que as “profecias messiânicas” ao mesmo tempo se cumpriram antes da época de Yeshua e ao mesmo tempo com ele, porque a diversidade de interpretações permite esse tipo de coisa, além de que as interpretações esquisitas feitas pelos apóstolos são facilmente explicadas como “judaicas”. Muito bem, vamos responder a uma coisa de cada vez.
É verdade que há diversidade de opiniões no judaísmo. O judaísmo está mais voltado à prática dos mandamentos da Torá do que para crenças ou dogmas. O judeu tem a liberdade, por exemplo, de especular sobre a vida após a morte ou sobre a razão por trás de cumprir os preceitos da Torá, já que esses são temas “livres”, não terminados, dentro do judaísmo. Por outro lado, há SIM crenças inegociáveis aceitas pelo povo judeu fiel à Torá. Essas crenças foram compiladas em sistemas diversos, que não se resumem aos treze princípios de Maimônides, que são a expressão mais popular da crença judaica.
De certo modo, pode-se resumir toda a crença do judaísmo em: o Deus único e invisível criou todas as coisas, deu o livre-arbítrio e uma responsabilidade individual e intransferível para o homem e se comunicou posteriormente com ele (através do povo de Israel), dando-lhe a Lei para todo o sempre, sendo que a obediência aos preceitos divinos levam o homem a uma recompensa após a morte e a desobediência torna-o digno de punição. Pronto! É verdade que é pouquíssimo, como qualquer um pode ver. O resto é resto. Mas será que nessas “lacunas de fé” pode-se incluir a crença cristã? Vejamos: a crença cristã diz que a Lei era só por um tempo (Gl 3, 24-25; 4, 4-5; Ef 2, 15 etc.); o que importa no Antigo Testamento é o que os profetas anunciaram: o messias, que seria o filho de Deus, esse sim, o salvador do mundo. Veio para mudar algumas coisas na Lei, era o próprio Deus ou divino, de alguma forma e se sacrificou no lugar das pessoas, sendo que toda a humanidade precisa exercer fé em seu sacrifício substitutivo, sob pena de perder a salvação. É sério que alguém tenta harmonizar dois sistemas tão diferentes?
Não é possível negociar as crenças fundamentais do judaísmo. Elas são incompatíveis com o que o cristianismo ensina! Passemos ao Pardês: esse sistema de interpretações é universalmente aceito no judaísmo? Qual sua origem? Uma pesquisa em fontes judaicas vai nos mostrar que esse sistema de interpretação só veio surgir na Idade Média, nos escritos de R. Bahia ben Acher de Zaragoza (1291) e no Zohar, livro mais popular da Cabala. A Jewish Encyclopedia afirma inclusive que provavelmente a origem do sistema quádruplo de exegese é cristã (havia um sistema de exegese que falava em interpretação literal, moral, alegórica e mística)!  Dá pra mensurar o nível de absurdo que é alguém dizer que os apóstolos usaram interpretação “rêmez” ou “sod” para interpretar o Tanakh?.

Concluímos com a citação da "Jewish encyclopedia", sobre os "quatro níveis":


    Contemporaneamente com esses começos da Cabala no norte da Espanha, surgiu outro tipo de misticismo relacionado às Escrituras na Alemanha, nos escritos de Eleazar b. Judá de Worms. Seu método exegético consiste no intercâmbio e combinação das letras do texto bíblico e no cálculo do seu valor numérico (Gematria). O método exegetico A exegese cabalística é reconhecida, juntamente com os outros métodos de exegese, no comentário do Pentateuco de Baḥia ben Asher de Saragossa (1291), que se tornou uma das obras exegéticas mais populares. Quatro métodos de exegese são enumerados na introdução deste comentário, cada um dos quais deve ser aplicado às passagens das Escrituras: (1) o caminho do Peshaṭ, (2) o caminho do Midrash, (3) o caminho da Razão ( isto é, exegese filosófica), e (4) o caminho da Cabala, "sobre o qual a luz habita, um caminho para a alma que se recusa a ser iluminado pela luz da vida". Contemporaneamente com o comentário do Pentateuco de Baḥia, também apareceu na Espanha um livro que se destinava a tornar-se o trabalho básico da Cabala e que devia seu sucesso sem precedentes ao fato de que pretendia ser uma relíquia do misticismo mais antigo e uma obra da mesma escola de sábios que produziu as antigas obras tradicionais, Mishná, Talmud e Midrash. Este livro é o Zohar, com sua forma de um comentário midráshico sobre o Pentateuco, mas interrompido por várias digressões diversas e complementado por adições originais. Como o livro de Baḥia b. Asher, mas sobre uma base diferente, o Zohar também assume quatro tipos de exegese, ou melhor, um significado quádruplo: Peshaṭ, Remez (alusão, sentido tipológico, alegoria), Derash e Sod (sentido secreto e místico). Ao formular esta doutrina de um significado quádruplo, o modo de exegese cristão (que era bem conhecido dos judeus espanhóis) provavelmente serviu de modelo; Nesse sentido, o sentido quádruplo (histórico ou literal, tropológico ou moral, alegórico e anagógico) já foi formulado há muito tempo (pelo Venerável Bede no oitavo e por Rhabanus Maurus no século IX). As letras iniciais das palavras Peshaṭ, Remez, Derash e Sod formam a palavra "Pardes" e tornaram-se a designação de um significado quádruplo, no qual o sentido místico dado na Cabala era o ponto mais alto. O princípio do significado quádruplo e sua designação, "Pardes", foram erroneamente atribuídos ao início da exegese da Bíblia judaica, o período tanaíta, por conta da expressão "Pardes" (jardim de prazer), que é usado metaforicamente em um relato do misticismo dos Tanaítas (Ḥag. 14b)

_____________
¹ Nesta página, transliteramos a letra שׁ como “ch”, ח como h e כ como kh.

² Leia, para um maior esclarecimento sobre as diferenças irreconciliáveis entre Antigo e Novo Testamentos o nosso artigo Bíblia: um livro de dois testamentos?
http://biblia-hebraica.blogspot.com.br/2016/02/biblia-um-livro-de-dois-testamentos.html

³ Que ninguém se ofenda. Aqui, o termo apenas significa “judeu que professa fé nos ensinamentos de Jesus/Yeshua”.

Leia a citação a Nahmâmides e uma excelente explicação do que é midrach e agadá, neste artigo, por Sha’ul Bensiion:


Acima, idem.         

Tamud Bavli, Sanhedrin 67b. Você pode conferir em: http://www.come-and-hear.com/sanhedrin/sanhedrin_67.html (inglês)
http://www.jewishencyclopedia.com/articles/3263-bible-exegesis

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Carta aberta a quem acabou de trocar a igreja fanática pelo judaísmo

Carta aberta a quem acabou de trocar a igreja fanática pelo judaísmo

Primeiramente, meus cumprimentos! Você acabou de deixar uma situação de opressão, barulho e limitação do seu potencial para estudar uma religião que historicamente tem sido o berço de pessoas que deram contribuição para a ciência (Maimônides, Ibn Ezra, Os sábios do Talmud, como testemunha o Sêfer haCuzari), filosofia (Maimônides) e influenciaram as duas maiores religiões do mundo. Trata-se de um caminho que (pelo menos relativamente!) não despreza a ciência, a modernidade e a sociedade que eu gosto de chamar de “normal”, o que certamente não é o caso de muitas igrejas pentecostais no Brasil.
Dito isso, quero deixar uma coisa clara aqui: você certamente tem várias concepções erradas sobre o que é o judaísmo e como ele pensa, você apenas está engatinhando em judaísmo e não pode falar em nome dessa religião e você está cheio de dúvidas. Ainda que você faça anos que esteja estudando e lendo sobre o judaísmo, vamos admitir: seu comportamento, escrúpulos morais, vontade de ter um templo que frequentar... são resquícios evangélicos que NÃO VÃO DESAPARECER em uma semana só porque você saiu da igreja!  Isso é totalmente normal. Não é o fim do mundo. A boa notícia é: eu, que escrevo este texto, passei por uma situação semelhante à sua, há mais de uma década, desde então estudo judaísmo e quero compartilhar meus pensamentos com você, por meio das próximas linhas – espero que sejam breves.
Sem rodeios, estes são alguns tópicos sobre os quais eu quero dialogar com você. Leia pacientemente e considere o que eu quero dizer:

1-     O judaísmo não é “universalista”! – Muitos interessados no judaísmo que vêm de igrejas cometem o seguinte erro: “vou ensinar a Torá para quem eu puder, passar a palavra da Torá pra meus vizinhos, ensinar a salvação da Lei”. ERRADO! Isso não é judaísmo! Sem você perceber, você está transferindo o pensamento CRISTÃO para sua nova identidade. No cristianismo, só há um padrão para todas as raças, povos e nações: aceitar Jesus. Você está trocando a palavra “Jesus” por “Lei”! O judaísmo não espera que o caminhoneiro que está viajando o tempo todo ou a senhora que trabalha como merendeira na escola  guardem o shabat e cumpram os rituais judaicos, se não forem judeus! Para o judaísmo, Deus tem dois padrões: um é para o povo judeu e quem escolher se juntar a ele (613 mitzvôt + tradição judaica) e uma moralidade básica para todos os outros povos. Em nenhum lugar da Bíblia está escrito que Jonas chegou fazendo proselitismo judaico para os ninivitas! Ele apenas disse: “vocês não estão sendo éticos”! Então não confunda as coisas! O judaísmo não acha que o mundo está acabando e você precisa levar a “mensagem da Lei” pra “salvar” (termo não judaico, no sentido espiritual) quem quer e quem não quer!

2-     O judaísmo não é a “verdade científica” a ser provada a todas as pessoas – Existem indivíduos que praticam o esporte de pular de galho em galho em busca de uma “verdade” que possam provar para todas as pessoas. A verdade inequívoca, comprovada “cientificamente”. Se você está procurando a luz no final da estrada de tijolos amarelos que leva ao arco-íris, sinto muito, mas POUPE TEMPO E REVELE-SE ATEU HOJE MESMO! Como é que você vai provar de forma inequívoca a todo mundo que a Torá foi historicamente dada no Sinai, com a tradição judaica e todos os aspectos do judaísmo? É necessário sim ter fé! Não sejamos hipócritas. O judaísmo não deixa de ser uma escolha! Claro que achamos que ele seja a escolha mais acertada em termos de religião. Mas isso não significa que o que me convence convencerá todos!

3-     O judaísmo e o Estado de Israel – Não passe vergonha! Está cheio de “recém-judeus” por aí confundindo tudo e achando que é parte da religião judaica ostentar hino, bandeira de Israel, notícias de Israel o tempo todo: o tal do “amor por Israel”. Essas são práticas de cristãos que querem converter Israel por motivos “proféticos”, do ponto de vista deles. Israel, o país da bandeira azul e branca, é só um país! É um país que tem a ver com a religião judaica até certo ponto, mas não é uma teocracia, não é um país que todos os judeus tenham que apoiar ou ser fãs... NÃO! Inclusive Israel tem aspectos seculares que muitas vezes são problemáticos para os judeus observantes, e existem milhares de judeus ANTISSIONISTAS, que são contra o país de Israel com argumentos religiosos judaicos! Você não precisa “pagar pau” pra Israel. Às vezes soa ridículo um brasileiro se importar tanto com outro país.

4-     Povo e religião – Não confunda! Quando se diz que personalidades tal e tal eram ou são judeus, isso não quer dizer que eles tinham ou têm nada a ver com a religião judaica, a Torá. É possível que alguém nessa categoria tenha sido ou seja CONTRA a Torá! Nunca seja fã de “judeus do prêmio nobel” só por serem judeus. Isso também soa muito ridículo!

5-     O judaísmo não é único e nem todas as facções judaicas são construtivas – Cuidado ao falar em nome de O JUDAÍSMO. Nunca existiu UM cristianismo, UM islã, UM judaísmo. Existem vários judaísmos. Várias correntes, várias tendências. E isso não se resume a “ortodoxos, conservadores e reformistas”. Longe disso! Mesmo dentro da ortodoxia judaica SEMPRE HOUVE várias tendências. Existem versões muito místicas do judaísmo— os de roupa preta que falam bastante em temas cabalísticos—, mas um dos mestres mais importantes para o judaísmo, Maimônides, costumava criticar gravemente as tendências místicas de sua época! Não ache que pra ser judeu tem que crer em reencarnação, tzadic milagreiro etc! Outra coisa: não idolatre o judaísmo! Tem gente EM IGREJAS EVANGÉLICAS que quando vai falar em judeu ou judaísmo só falta escovar os dentes antes e depois de pronunciar tão santas palavras! Não sei como não escrevem “jud-us”! Quer saber de uma coisa? Eu poderia postar aqui páginas e páginas de imagens, vídeos e notícias de judeus ultraortodoxos praticando atos graves de fanatismo (contra os cristãos que os idolatram!), dizendo coisas pesadas ou metidos em coisas criminosas... ações que deixariam sua igreja anterior parecendo o berço da tolerância e positividade! Cuidado com o (tipo de) judaísmo que você estuda!

6-      Você não necessariamente é aceito como judeu pelos judeus praticantes- Pense duas vezes antes de adicionar um rabino de preto no facebook e chegar teclando “shalon, rabi! shanah tovah! eu sou um yehudins que ama Ysrael”... Não seja ingênuo! Do ponto de vista da norma judaica ortodoxa, não interessa o que você leu sobre “sobrenomes judaicos”, “não sei quê de DNA”, “costumes judaicos na minha família”... Pouca gente (se é que tem) no mundo judaico observante considera alguém judeu só porque se diz judeu. Para a norma judaica, certamente você precisa de um árduo processo de conversão. Infelizmente não há garantia nem mesmode que você vá ser BEM TRATADO por todos os judeus natos!

7-     Confusões conceituais: rabino, sinagoga etc. – Acontece às vezes de o sujeito ter frequentado a igreja, com um pastor e o dízimo, e achar que agora vai só mudar os nomes: “sinagoga, rabino e tzedacá”. Não é assim! OS CONCEITOS judaicos são diferentes. Sinagoga é uma casa de oração, que só é relevante, de acordo com a halakhá, para dez ou mais judeus adultos homens (minián). Você precisa aprender a NÃO PRECISAR de um templo. A maioria absoluta dos costumes e mitzvôt judaicos são perfeitamente observáveis NO SEU LAR, com algumas pessoas, de forma tão válida para o judaísmo como se você estivesse num templo maravilhoso. Não se afobe: o judaísmo não começa com “alugar o prédio para a sinagoga”. Isso é cristianismo evangélico pentecostal de interior, não judaísmo! Imagine que ridículo seria alguém querer começar uma mesquita, um templo islâmico, sem saber rezar e ensinar o islam! Ridículo! Por que com o judaísmo seria diferente? Rabino não é “líder religioso”, no mesmo sentido em que um pastor é líder religioso. Um rabino não é necessário para a comunidade judaica! Rabino não é pastor judeu. Na verdade, ele é um consultor de leis judaicas— alguém que estudou as leis do judaísmo como estão em livros como Shulchan arukh— e que pode auxiliar a comunidade na vida judaica. No judaísmo, a única coisa que você precisa pra fazer uma ação religiosa é SABER FAZER a ação religiosa! Perceba que você está livre de pessoas que pegavam no seu pé. Por outro lado, isso implica uma maior responsabilidade: você precisa controlar/liderar você mesmo!

8-     Sola scriptura não é judaísmo – Ninguém entende de judaísmo apenas lendo a Bíblia. A Bíblia não é o único livro do judaísmo. E ACIMA DISSO, no judaísmo, a Bíblia judaica é lida DENTRO DA TRADIÇÃO JUDAICA. Não é você que interpreta a Torá e “acha” que certa prática deve ser feita assim ou assado. Isso é protestantismo, não judaísmo! No judaísmo você tem uma tradição judaica! Isso separa os meninos dos homens, porque a essa altura, alguns leitores já podem estar revoltados: TRADIÇÕES DE HOOOOMENS!!!

9-     Jesus e o Novo Testamento – Por favor, não engane a si mesmo nem aos outros. Jesus e o NT não são partes do continuum do judaísmo tradicional. Judaísmo tradicional é Torá – Talmud – Rabinos medievais – Etc. Não existe lugar para Jesus e o NT no judaísmo tradicional. Os rabinos do judaísmo criticaram Jesus e o NT. Se você quer se dizer judeu e aceitar Jesus e o NT como parte da sua experiência religiosa, SEJA HOMEM, SEJA HONESTO e diga, pelo menos: “eu sou um judeu DIFERENTE, MINORITÁRIO, que aceito essa doutrina não tradicional judaica”. Por outro lado, ATENÇÃO! Isso não significa que você tem que odiar Jesus, chamá-lo de ídolo, zombar do cristianismo e coisas assim! Não seja sem noção! Jesus faz parte do repertório EMOCIONAL das pessoas! Às vezes, até dizer “não creio em Jesus” pode ser muito mal entendido ou comprometedor, dependendo de com quem você está falando. Você não precisa sair dizendo isso. Existem formas de você se expressar! Sugestão: “eu aceito apenas o Antigo Testamento”. Pronto! Você não magoou ninguém! Além disso, o que Jesus representa de ameaçador ou negativo pra que você viva criticando-o? Sendo um zombador de Jesus e do cristianismo, você pode trazer má fama ao judaísmo! Percamos esse péssimo hábito de estar brigando sobre religião! O fato de nós não seguirmos o NT não tem nada a ver com evitar o contato, amizade, diálogo, respeito ou até mesmo cooperação, até certos limites, com cristãos e messiânicos.

10- Devo começar lendo o Talmud? – Se você for começar pelo Talmud, não vai terminar nunca. O Talmud não está acessível para a maioria de nós. É muito ingênuo querer estudar o Talmud logo de cara. Estatisticamente poucos judeus estudam o Talmud sistematicamente. Para o judeu observante, o que mais interessa do Talmud para sua vida diária são as leis. Essas leis não estão organizadas por categorias no Talmud, estão muito praticamente ordenadas em livros como Mishnê Torá e Shulchan Arukh, muito mais acessíveis! Sugestão de livros: comece lendo a Torá numa versão judaica com comentários, depois vá para o Sêfer hamitzvôt de Maimônides e leia sem moderação livros como “O judaísmo vivo”, por Michael Asheri ou “O livro judaico dos porquês”, do rabino Alfred Kolatch.

11- Falar em Deus o tempo todo e sua relação com a sociedade – Decidi concluir essa série de conselhos com a dica mais importante, na minha opinião. Na sua religião anterior, você era colocado contra a parede com uma série de regras santarronas destinadas a manter você longe do “mundo lá fora”. Música, bebida alcoólica, amizade com as pessoas “normais”, tudo isso eram e SÃO, sejamos francos, grandes tabus para nós. Saiba: o judaísmo não acredita em santarronice. Você não precisa viver uma tal de “vida de louvor e adoração”, só falando em Deus o tempo todo, morrendo de medo do fim do mundo e não se relacionando com as pessoas. RELAXE SUA MENTE! Você não precisa se vestir destacado das outras pessoas no calor de 40º nem falar “amém”, “amado irmão” e outros termos gospel a cada cinco palavras! A sua vida AUTOMÁTICA, DURA, EXAGERADA, ESTÁ EM PROCESSO DE ACABAR! Você vai revolucionar (com anos e anos) positivamente sua cabeça, ser mais leve e sociável! Atenção: como eu falei acima, você também precisa tomar cuidado para “equalizar” suas interações e manter sua moralidade nos valores de Deus. Não se trata de negar este mundo, e sim de sermos éticos dentro dele! Despeço-me com as seguintes palavras, do grande rabino ortodoxo Adin Steinsaltz (2006, p. 79):

(...) precisamos aprender a sorrir. Não é aconselhável fazer tudo com o rosto fechado e temeroso. Algumas coisas podem ser tomadas com mais leveza, e em muitos contextos, a alegria é permissível. Não é simplesmente uma questão de evitar a tristeza, que os sábios consideram o pior dos pecados, mas de manter um senso de proporção, poupando a sua seriedade e determinação grave para as situações que precisam disso. O judaísmo apresenta um desafio espiritual especialmente difícil, pois ele nos pede que vivamos uma vida de santidade, não em reclusão monástica, mas aqui fora, no mundo. É um desafio que exige equilíbrio e senso de humor.


Referências


STEISALTZ, Adin, Teshuvá, um guia para o judeu recém-praticante – Maayanot - 2006

terça-feira, 2 de maio de 2017

Guia para Shavuôt ("Pentecostes")






a)     O que comemora:

A Torá não menciona especificamente um motivo para a celebração da festa de Shavuôt. O nome significa “semanas” (Dt 16, 10). O motivo do nome é que a festa sempre acontece sete semanas (ou seja, no quinquagésimo dia) após Pêssah. Em português, é comum que essa festa receba o nome de “pentecostes”, palavra de origem grega que faz referência ao número cinquenta. A data da festa de Shavuôt é calculada através da contagem desses cinquenta dias, em cumprimento de Levítico 23, 16. A contagem chama-se sefirat haômer (contagem do ômer). Ômer (literalmente: feixe) é o nome de uma medida, e a referência é a uma quantidade de cevada que deveria ser ofertada após Pêssah (Lv 23, 10-11). Em Nm 28, 26, Shavuôt é chamado “iom habicurim” (dia dos primeiros frutos). Outro nome desta festa é “atzêret”, que significa “interrupção” ou “conclusão”. Na tradição judaica, a festa recebe motivos e nomes como “Festa da Safra” e “Tempo da entrega da Torá (Lei)”. Portanto, tradicionalmente, Shavuôt comemora o aniversário da entrega da Torá.

b)     Datas (em 2017):

30 de maio de 2017 (terça-feira) – Véspera de Shavuôt
31 de maio (quarta) - Iom tov (dia santo) de Shavuôt
1 de junho (quinta)- Dia santo adicional na diáspora  

c)     Mitzvôt (preceitos): Excluíndo-se a “sefirat haômer”, por ser feita antes de Shavuôt, temos na festa nove mitzvôt da Torá Escrita, das quais são sempre praticáveis dois, marcados com asterisco (*), e obviamente a proibição 325.

M. 45 – Trazer um sacrifício adicional (mussaf) em Shavuôt (Nm 28, 27);
M. 46 – Trazer dois pães com os sacrifícios em Shavuôt (Lv 23, 17);
M. 52 – Festejar nas três peregrinações anuais; (Ex 23, 14);
M. 53 – Comparecer diante de Deus durante as festas. (Dt 16, 16);
M. 54* – Alegrar-se nas festas (Dt 16, 14);
M. 162* – Descansar em Shavuôt (Lv 23, 21);
P. 156 – Não comparecer ao santuário numa festa sem sacrifício. (Ex 23, 15);
P. 229 – Não abandonar os levitas durante as festas. (Dt 12, 19);
P. 325 – Não trabalhar em Shavuôt (Lv 23, 21);

d)     Outras práticas:

·        A oração é diferente da que se faz usualmente. A bircat hamazon (bênção após refeição com pão) ganha um pequeno acréscimo.
·        Recita-se em Shavuôt o Halel (louvor- salmos 113 - 118). A leitura é feita após a Amidá da manhã, e pode ser encontrada no sidur ou hagadá de Pêssah. Antes da leitura, recita-se a bênção:
Baruch Atá Ado-nai Elo-hênu, Mêlekh haolam, asher kideshânu bemitzvotáv, vetzivânu ligmor et hahalel.
Bendito sejas, Senhor, nosso Deus, rei do universo, que nos santificaste com Teus mandamentos e nos ordenaste a concluir o Halel.

e)     Costumes folclóricos (não obrigatórios):

É muito popularizado na véspera da festa o chamado ticun lêl Shavuôt (retificação da noite de Shavuôt), que consiste em passar a noite inteira em claro, lendo textos bíblicos e cabalistas.  Alguns enfeitam a sinagoga com flores e ramos verdes, comem neste dia muitos alimentos derivados de leite e doces e leem o livro de Rute após o Shaharit (oração da manhã). Alguns poemas são inseridos na liturgia, dependendo das comunidades.

f)      Saudação:
חג שבועות שמח! (Hag shavuôt samêah) – Feliz festa de Shavuôt!