domingo, 16 de abril de 2017

A tradição judaica é usurpadora da autoridade da Torá Escrita?



Muitas pessoas que estão começando a entrar em contato com o judaísmo e suas práticas percebem que várias dessas práticas não se encontram na Bíblia. Isso pode trazer algum desconforto, dependendo de qual era a religião anterior dessa pessoa. Como sabemos, a religião protestante afirma que segue unicamente a Bíblia como autoridade, e tem sempre acusado o catolicismo de ser uma religião “humana”, “inventora de tradições” e coisas semelhantes. Certamente, um protestante deveria ter o mesmo problema em relação à tradição judaica, o que muitas vezes não acontece devido ao amor e identificação que muitos evangélicos atuais têm em relação aos judeus, Israel e o judaísmo. Neste texto, que é apenas um esboço, uma rápida coletânea de versículos, verificaremos se a tradição judaica, a chamada lei judaica (halachá) é uma usurpadora da autoridade Torá Escrita, e se ela deve ou não ser aceita por pessoas que creem na Torá.  

1-      A Torá escrita não é clara o suficiente quando enuncia os mandamentos. Exemplo:
a)      Lembrança e guarda do shabat (Ex 20, 8; Dt 5, 12) – Como cumprir estes mandamentos? A Torá não diz!
b)      Fazer franjas nas bordas das vestes (Nm 15, 39) – Que vestes? Como seriam as franjas?
c)      Certo mês deve ser o primeiro dos meses (Ex 12, 2) – Que mês? Quem define mês?

Muitas outras interessantes ocasiões como essas podem ser vistas na palestra de Sha’ul Bensiion: Halakhá, Torá e Corte Mosaica¹

2-      Uma unificação na prática é necessária!
a)      “Não fareis conforme a tudo o que hoje fazemos aqui, cada qual tudo o que bem parece aos seus olhos.” (Dt 12, 8)
b)      “Também guardarás a festa das semanas, que é a festa das primícias da sega do trigo, e a festa da colheita no fim do ano. Três vezes ao ano todos os homens aparecerão perante o Senhor DEUS, o Deus de Israel;” (Ex 34, 22-23) – Deveria aparecer cada um com uma intenção diferente? Com rituais diferentes, de acordo com seu entendimento da Torá escrita?
c)      Uma mesma lei haja para o natural e para o estrangeiro que peregrinar entre vós.” (Ex 12, 49)
d)     E se os sacerdotes tivessem interpretações diferentes sobre o serviço no tabernáculo? Cada um deveria interpretar por sua cabeça? Não ficaria um serviço desordenado?

3-      Resposta ao uso de textos bíblicos como suposta refutação à tradição judaica:
a)      Acréscimos à Torá escrita (Dt 4,2 e outros textos):
- Os utensílios e práticas ligados ao templo, e não mais ao tabernáculo, não são supressões e acréscimos?
- Purim não é um acréscimo? (Et 9, 20-21)
- Neemias e Jeremias ordenaram contra o transporte de cargas no dia de sábado. Onde está isso na Torá Escrita? (Jr 17, 22; Ne 13, 15-19)

b)      Leis de homens (Is 29, 13)
- A Torá Escrita institui o mandamento de homens autorizados!!!: “E virás aos sacerdotes levitas, e ao juiz que houver naqueles dias, e inquirirás, e te anunciarão a sentença do juízo. E farás conforme ao mandado da palavra que te anunciarem no lugar que escolher o Senhor; e terás cuidado de fazer conforme a tudo o que te ensinarem. Conforme ao mandado da lei que te ensinarem, e conforme ao juízo que te disserem, farás; da palavra que te anunciarem te não desviarás, nem para a direita nem para a esquerda.” - Dt 17, 9-11
- Mandamento de Mardoqueu – Et 9, 20-21
- Mandamento de Davi – II Cr 23, 18
- Mandamento de Salomão – II Cr 35, 4

O texto de Isaías 29, 13 fala que o temor que o povo devotava a Deus estava sendo entendido como mandamento de homens. O texto não condena instituições de homens autorizados a legislarem. E se o texto estivesse fazendo isso, seria uma afirmação contra a Torá, como vimos acima!

4-      Se alguém crê que a tradição legislativa judaica (halachá) é abusiva e usurpadora, não tem razão para seguir como costumes folclóricos hábitos instituídos por “usurpadores”, como:
a)      Cobertura da cabeça (kipá)
b)      Kidush
c)      Havdalá
d)     Acendimento das velas de shabat e outras festividades
e)      Oração judaica
f)       Bênçãos
g)      Sêder de Pêssach
h)      Lavagem das mãos
i)        Chanucá e Purim (não são da Torá escrita)
j)        Jejuns que não estão na Torá
k)      Interpretação rabínica da Torá
E muitas outras práticas. Em alguns casos, as pessoas que se opõem à tradição chegam mesmo a afirmar em bênçãos que Deus os escolheu e os santificou através desses mandamentos rabínicos, em flagrante hipocrisia e brincadeira. Alguém poderia defender esses hábitos como costumes. Mas isso não modifica sua origem! Vêm da halachá!

5-      Considerações finais:
- A Torá escrita contém lacunas e ambiguidades que impossibilitam sua prática unificada, se não recorrermos a uma tradição fora da Torá Escrita.
- A própria Torá Escrita prevê um componente humano no cumprimento da Lei!
- Não há cumprimento de lei nenhuma unicamente a partir de uma constituição. Legislações complementares e tribunais são necessários.
- O próprio texto da Bíblia fala de acréscimos e “mandamentos de homens”, recebidos pelo povo e que não podem ser vistos como transgressões à Torá.
- É incoerente não acreditar na tradição judaica e praticá-la, pois se a tradição é usurpadora, como posso manter como costumes as leis do inimigo?
- A repulsa contra a tradição judaica e a supervalorização da Bíblia são hábitos mentais protestantes que precisam ser desaprendidos pela pessoa que quer cumprir a Torá.
- É impossível seguir só o texto da Bíblia
- Deve-se abandonar a “espiritualização” da Bíblia e voltar-se para a concepção da prática religiosa como um sistema humano e coletivo de ações para fazer a vontade de Deus.
- Respeitemos as outras religiões! Nenhuma religião tem o “privilégio” de não ter influência humana.

“As mitzvot (mandamentos) dadas a Moisés no Monte Sinai foram todas dadas juntamente com suas explicações, como sugerido por (Êxodo 24,12): "E eu lhes darei as tábuas de pedra, a Torá e a mitzvá"."A Torá" refere-se à Lei Escrita; "A mitzvá", à sua explicação. Deus nos ordenou que cumpríssemos "a Torá" de acordo com "a mitzvá". "A mitsvá" é chamada de Lei Oral. Moisés, nosso mestre, transcreveu pessoalmente toda a Torá antes de morrer. Ele deu um rolo da Torá para cada tribo e colocou outro rolo na arca como um testemunho, como Deuteronômio 31, 26 afirma: "Tome este rolo da Torá e coloca-o ao lado da arca ... e ele estará lá como um testemunho. "A mitzvá" - isto é, a explicação da Torá - ele não transcreveu.  Em vez disso, ordenou-a aos anciãos, a Josué e à totalidade de Israel, como está escrito (Deuteronômio 13, 1): "Tenha cuidado para observar tudo o que eu prescrevo para você". Por esta razão, é chamada a Lei Oral. Embora a Lei Oral não tenha sido transcrita, Moisés, nosso mestre, ensinou-a inteiramente em sua corte aos setenta anciãos. Elazar, Finéias e Josué receberam a tradição de Moisés...”- Maimônides, Mishnê Torá, Introdução.

“Existem outros mandamentos que foram instituídos após a entrega da Torá. Eles foram estabelecidos pelos profetas e sábios para todo o Israel, por exemplo, a leitura da Meguilá (Ester), Acendimento da vela em Chanucá, jejuar no Tish'á beav, eruvim, e lavagem das mãos. (...) Somos obrigados a aceitar e observar todos estes mandamentos que os rabinos instituíram, como implícito em Deuteronômio 17, 11: "Não se desviem as instruções que eles lhe dão, para a esquerda ou para a direita". Esses preceitos não são considerados como adições aos mandamentos da Torá. Então qual seria a intenção da advertência da Torá (Deuteronômio 13,11): "Não acrescente e não retire dela"? Que um profeta não é permitido a introduzir uma nova medida e dizer que o Santo, bendito seja, ordenou uma nova mitzvá para nós e que ela deve ser adicionada às mitzvot da Torá Escrita, ou dizer que Ele ordenou que nós eliminássemos uma das 613 mitzvot mencionadas acima.

No entanto, se um tribunal, juntamente com o profeta daquela época, acrescenta um mandamento como uma ordenança, uma lição, ou como um decreto, isso não é considerado como uma adição. Ele não está dizendo que o Santo, abençoado seja Ele, mandou-nos fazer um eruv ou ler a Meguilá no seu tempo. Se ele dissesse isso, estaria adicionando à Torá!
Em vez disso, estamos dizendo que os profetas e os tribunais ordenaram e estabeleceram que a Meguilá fosse lida no seu tempo para recordar o louvor do Santo, bendito seja Ele, a salvação que Ele fez por nós e Sua resposta A nossos clamores, para que o abençoemos, o exaltemos e informemos as futuras gerações da verdade da promessa da Torá (Deuteronômio 4, 7): "Que nação é tão grande que tem Deus perto dela? ...” Maimônides, Mishnê Torá, Mandamentos Negativos.

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¹ É uma riquíssima palestra em três partes.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Aprenda Hebraico com pequenas doses da Torá. Aula 3: Gn 13, 15

ATENÇÃO! É sempre importante ter visto as dicas ANTERIORES, para entender bem.

 Clique na imagem para ver normalmente.

Dúvidas? Será um prazer responder!! 

Aprenda Hebraico com pequenas doses da Torá. Aula 2: Gn 7, 6

ATENÇÃO! É sempre importante ter visto as dicas ANTERIORES, para entender bem.






Dúvidas? Será um prazer responder!!

terça-feira, 8 de novembro de 2016

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

AVISOS: Receba nossos conteúdos por E-MAIL e inscreva-se no nosso YOUTUBE



Bom dia a todos os nossos leitores :)

Temos alguns recadinhos para vocês. O primeiro é que agora, graças à sugestão de nosso amigo Francisco, vocês agora podem assinar para receberem nossos conteúdos em seu e-mail, se desejarem. Veja o procedimento na imagem:




Em segundo lugar, para quem não sabe, eu, Danilo Almeida, de vez em quando estou gravando vídeos para o YOUTUBE, compartilhando minhas opiniões sobre Bíblia, religiões, sociedade, educação etc. Assista aos vídeos e inscreva-se no canal. Os vídeos são bem informais e simples, gravados da forma mais básica possível. Mas, se as pessoas gostarem, quem sabe no futuro eu decida melhorar a estrutura.

Link do canal do Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCxY8n2N9SAqxwMiZW3XPmnA

Nossos próximos artigos aqui no blog serão sobre:

  • É correto usar textos judaicos rabínicos para validar o Novo Testamento?
  • Jesus cumpriu as "profecias messiânicas" do Tanakh?
  • O que é o ESPÍRITO SANTO / ESPÍRITO DE DEUS em uma visão judaica?
Abraços!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Vinho e bebida forte: a voz da Bíblia sobre as bebidas alcoólicas




O objetivo deste texto é analisar parte dos textos bíblicos que falam a respeito das bebidas alcoólicas, expondo a forma como o tema é visto nesse livro, e causando reflexões a respeito do tratamento atual do assunto em algumas religiões. Existem muitos “estudos” e coisas complicadas na internet a respeito do vinho, mas nossa abordagem aqui será simples e leve. Vamos deixar a Bíblia falar, simplesmente, e o leitor tem a liberdade de chegar a sua conclusão. É verdade que existe mais de uma palavra hebraica para o vinho. Geralmente é ensinado que um tipo era embriagante e outro não. Nesta coleção de textos, serão expostos apenas versículos que citam a bebida chamada yáyin (יין) em hebraico, para evitar a confusão.

a)     O vinho (yáyin, em hebraico) da Bíblia era com certeza embriagante:

“E bebeu do vinho (מִן-הַיַּיִן – min hayáyin), e embebedou-se; e descobriu-se no meio de sua tenda.”
Gênesis 9, 21-21

“E disse-lhe Eli: Até quando estarás tu embriagada? Aparta de ti o teu vinho (אֶת-יֵינֵךְ et yenêkha). Porém Ana respondeu: Não, senhor meu, eu sou uma mulher atribulada de espírito; nem vinho nem bebida forte (וְיַיִן וְשֵׁכָר – veyáyin vechekhar) tenho bebido; porém tenho derramado a minha alma perante o SENHOR.”
I Samuel 1, 14-15

“Absalão ordenou aos seus homens: "Ouçam! Quando Amnom estiver embriagado de vinho (בַּיַּיִן - bayáyin) e eu disser: 'Matem Amnom!', vocês o matarão. Não tenham medo; eu assumo a responsabilidade. Sejam fortes e corajosos!"
II Samuel 13:28

“Acerca dos profetas: Meu coração está partido dentro de mim; todos os meus ossos tremem. Sou como um bêbado, como um homem dominado pelo vinho (יָיִן - yáyin), por causa do Senhor e de suas santas palavras.”
Jeremias 23, 9


b)     Os personagens bíblicos, justos inclusive, podiam beber e bebiam vinho (yáyin):

“Então Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, trouxe pão e vinho (וָיָיִן - vayáyin)”
Gênesis 14:18

“Então disse (Jacó): Faze chegar isso perto de mim, para que coma da caça de meu filho; para que a minha alma te abençoe. E chegou-lhe, e comeu; trouxe-lhe também vinho (יַיִן - yáyin), e bebeu.
Gênesis 27, 25-25

“Com prata comprem o que quiserem: bois, ovelhas, vinho ou outra bebida fermentada (וּבַיַּיִן וּבַשֵּׁכָר – uvayáyin uvachekhar), ou qualquer outra coisa que desejarem. Então juntamente com suas famílias comam e alegrem-se ali, na presença do Senhor, o seu Deus.”
Deuteronômio 14, 26


c)     O vinho é considerado bênção na Bíblia, e sua falta, maldição:

“Ele amarrará seu jumento a uma videira; e o seu jumentinho, ao ramo mais seleto; lavará no vinho (בַּיַּיִן - bayáyin) as suas roupas; no sangue das uvas, as suas vestimentas.”
Gênesis 49:11

“(Maldição: ) Plantarão vinhas e as cultivarão, mas não beberão o vinho (וְיַיִן - veyáyin) nem colherão as uvas, porque os vermes as comerão.”
Deuteronômio 28, 39

o vinho (וְיַיִן - veyáyin), que alegra o coração do homem; o azeite, que lhe faz brilhar o rosto, e o pão, que sustenta o seu vigor.”
Salmos 104, 15



d)     Vinho (yáyin) como parte dos sacrifícios para Deus:

“Com o primeiro cordeiro ofereça um jarro da melhor farinha misturada com um litro de azeite de olivas batidas, e um litro de vinho (יָיִן - yáyin) como oferta derramada.”
Êxodo 29,40

Para cada novilho deverá haver uma oferta derramada de meio galão de vinho (יָיִן - yáyin); para o carneiro, um litro; e para cada cordeiro, um litro. É o holocausto mensal, que deve ser oferecido cada lua nova durante o ano.
Números 28, 14


e)     Apenas algumas pessoas específicas eram proibidas temporariamente de beber vinho (yáyin), por motivo de voto feito ou de função desempenhada:

"Você (Arão) e seus filhos não devem beber vinho nem outra bebida fermentada (יַיִן וְשֵׁכָר – Yáyin vechekhar) antes de entrar na Tenda do Encontro, senão vocês morrerão. É um decreto perpétuo para as suas gerações.”
Levítico 10, 9

“Terá (o nazireu) que se abster de vinho e de outras bebidas fermentadas ( מִיַּיִן וְשֵׁכָר – miyáyin vechekhar) e não poderá beber vinagre feito de vinho ou de outra bebida fermentada. Não poderá beber suco de uva nem comer uvas nem passas.”
Números 6, 3

“O sacerdote os moverá perante o Senhor como gesto ritual de apresentação; são santos e pertencem ao sacerdote, bem como o peito que foi movido e a coxa. Depois disso o nazireu poderá beber vinho (יָיִן - yáyin).”
Números 6, 20


f)      A função do vinho está explícita em alguns versículos bíblicos: alegrar o homem! Um prazer lícito:

o vinho (וְיַיִן - veyáyin), que alegra o coração do homem; o azeite, que lhe faz brilhar o rosto, e o pão, que sustenta o seu vigor.”
Salmos 104, 15

Dê bebida fermentada aos que estão prestes a morrer, vinho (וְיַיִן - veyáyin) aos que estão angustiados; para que bebam e se esqueçam da sua pobreza, e não mais se lembrem da sua infelicidade.”
Provérbios 31, 6-7

“Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho (יֵינֶךָ - yenêkha) de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz.”
Eclesiastes 9, 7

O banquete é feito para divertir, e o vinho (וְיַיִן - veyáyin) torna a vida alegre, mas isso tudo se paga com dinheiro.”
Eclesiastes 10, 19


g)     É possível cometer transgressões e ter problemas ao beber vinho (yáyin) em excesso, assim como ao comer carne ou fazer outras coisas prazerosas lícitas:

“Ana respondeu: "Não se trata disso, meu senhor. Sou uma mulher muito angustiada. Não bebi vinho nem bebida fermentada (וְיַיִן וְשֵׁכָר – veyáyin vechekhar); eu estava derramando minha alma diante do Senhor. Não consideres, pois, a tua serva por mulher má (...)”
I Samuel 1, 15-16

O vinho (הַיַּיִן - hayáyin) é zombador e a bebida fermentada provoca brigas; não é sábio deixar-se dominar por eles.”
Provérbios 20, 1

“Quem se entrega aos prazeres passará necessidade; quem se apega ao vinho (יַיִן - yáyin) e ao azeite jamais será rico”.
Provérbios 21, 17

“Não ande com os que se encharcam de vinho (יָיִן - Yáyin), nem com os que se empanturram de carne.”
Provérbios 23, 20

“Ai dos que se levantam cedo para embebedar-se, e se esquentam com o vinho (יַיִן - Yáyin) até a noite!”
Isaías 5, 11

Harpas, liras, tamborins, flautas e vinho (וָיַיִן - vayáyin) há em suas festas, mas não se importam com os atos do Senhor, nem atentam para a obra que as suas mãos realizam.”
Isaías 5, 12


Constatações

·        A bebida citada na Bíblia como yáyin (vinho) causa embriaguez, e não é suco de uvas;
·        A Bíblia permite claramente o uso do vinho (yáyin). Deuteronômio deixa claro que o fiel poderia comprar a bebida com o dinheiro de seu segundo dízimo (14, 26), e os autores de textos poéticos (Salmos, Provérbios e Eclesiastes) elogiaram o vinho como fonte de alegria e prazer, ou seja, o uso recreativo do vinho é lícito de acordo com as Escrituras;
·        Não só o vinho (yáyin) é permitido na Bíblia. Muitos dos textos acima, inclusive o já citado de Deuteronômio, também citam como permitido o que se chama “bebida forte” ou “bebida fermentada”, chekhar, em hebraico;
·        É absurdo, portanto, afirmar que o consumo de bebidas alcoólicas é sempre impróprio para pessoas que seguem os valores da Bíblia;
·        É verdade que existem textos bíblicos “moralistas” que associam o vinho à imprudência e ao pecado, como vimos acima. Não há dúvida quanto a isso. Mas os mesmos textos também citam o consumo de carne (Pv 23, 20), azeite (21, 17), e música (Is 5, 12). Se esses versículos proíbem o vinho, como algumas pessoas que ignoram todo o resto da Bíblia afirmam, então o consumo de carne, o de azeite de oliva e ouvir instrumentos musicais também são proibidos;
·        Se o vinho, apesar de ser totalmente permitido, pode ser fonte de erro, é por falta de moderação e de bom comportamento da pessoa que dele faz uso, e não da bebida em si. Os versículos que aconselham cautela quanto ao vinho não usam frases como “é proibido beber” e “é pecado beber”, e sim expressões mais parecidas com “não se deixar dominar” e “não se encharcar”;
·        As pessoas que usam textos em que o vinho é temporariamente (!) proibido a sacerdotes e aos “nazireus” para afirmar que a bebida é proibida a todos estão distorcendo seriamente a Bíblia, ignorando muitos versículos “a favor” do uso do vinho e de outras bebidas. O sumo sacerdote e todos os nazireus também não podiam estar na presença de seus parentes mortos (Lv 21,11; Nm 6, 6). Por que os fiéis de hoje não estão proibidos de se despedirem de seus entes queridos?
·        Conclui-se portanto, que os argumentos “anti-bebidas” que as pessoas conseguem criar, através de malabarismos com textos, são falaciosos e surgem apenas por causa de um puritanismo exagerado de muitos religiosos. Quem diz que segue a Bíblia não tem o direito de proibir o que a Bíblia não proíbe. Costumes ligados ao alcoolismo e aos excessos estão proibidos, álcool em si, não está.

Observação: nem o Novo Testamento proíbe as bebidas alcoólicas!

            Neste texto, tratamos da questão do vinho e demais bebidas no que o leitor cristão chamaria de Antigo Testamento, que é nosso objeto principal de estudo neste blog. Mas não é só a Bíblia judaica que permite o vinho. A Bíblia cristã, o Novo Testamento, também tem versículos que deixam claro que até o próprio Jesus bebia vinho (Lucas 7, 34). Jesus transformou água em vinho para o uso em um banquete, segundo João 2, 7-9. O vinho está presente no ritual chamado eucaristia/“ceia” (Mateus 26, 27-29). Apenas o excesso de álcool (embriaguez) e o apego à bebida são condenados (Efésios 5, 18), principalmente para pessoas de destaque nas comunidades (I Timóteo 3, 3; 8; Tito 1, 7). Ora, se o excesso de bebida é proibido para os bispos e diáconos, é porque a bebida em moderação é permitida (até aconselhada por questão de saúde em I Timóteo 5, 23)! O versículo usado para condenar o vinho no Novo Testamento, Romanos 14, 21, diz “É melhor não comer carne nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa que leve seu irmão a cair.”. Se esse texto proíbe vinho, não sei porque os cristãos comem carne! Se a bebida (com a devida moderação) é permitida aos líderes, quanto mais é para os liderados! Daí eu pergunto, finalmente: como pode alguém dizer “não sigo opiniões de homens, sigo a Bíblia apenas”, e defender que o consumo de bebidas está totalmente proibido, sendo que não segundo a Bíblia e o Novo Testamento?