terça-feira, 2 de maio de 2017

Guia para Shavuôt ("Pentecostes")






a)     O que comemora:

A Torá não menciona especificamente um motivo para a celebração da festa de Shavuôt. O nome significa “semanas” (Dt 16, 10). O motivo do nome é que a festa sempre acontece sete semanas (ou seja, no quinquagésimo dia) após Pêssah. Em português, é comum que essa festa receba o nome de “pentecostes”, palavra de origem grega que faz referência ao número cinquenta. A data da festa de Shavuôt é calculada através da contagem desses cinquenta dias, em cumprimento de Levítico 23, 16. A contagem chama-se sefirat haômer (contagem do ômer). Ômer (literalmente: feixe) é o nome de uma medida, e a referência é a uma quantidade de cevada que deveria ser ofertada após Pêssah (Lv 23, 10-11). Em Nm 28, 26, Shavuôt é chamado “iom habicurim” (dia dos primeiros frutos). Outro nome desta festa é “atzêret”, que significa “interrupção” ou “conclusão”. Na tradição judaica, a festa recebe motivos e nomes como “Festa da Safra” e “Tempo da entrega da Torá (Lei)”. Portanto, tradicionalmente, Shavuôt comemora o aniversário da entrega da Torá.

b)     Datas (em 2017):

30 de maio de 2017 (terça-feira) – Véspera de Shavuôt
31 de maio (quarta) - Iom tov (dia santo) de Shavuôt
1 de junho (quinta)- Dia santo adicional na diáspora  

c)     Mitzvôt (preceitos): Excluíndo-se a “sefirat haômer”, por ser feita antes de Shavuôt, temos na festa nove mitzvôt da Torá Escrita, das quais são sempre praticáveis dois, marcados com asterisco (*), e obviamente a proibição 325.

M. 45 – Trazer um sacrifício adicional (mussaf) em Shavuôt (Nm 28, 27);
M. 46 – Trazer dois pães com os sacrifícios em Shavuôt (Lv 23, 17);
M. 52 – Festejar nas três peregrinações anuais; (Ex 23, 14);
M. 53 – Comparecer diante de Deus durante as festas. (Dt 16, 16);
M. 54* – Alegrar-se nas festas (Dt 16, 14);
M. 162* – Descansar em Shavuôt (Lv 23, 21);
P. 156 – Não comparecer ao santuário numa festa sem sacrifício. (Ex 23, 15);
P. 229 – Não abandonar os levitas durante as festas. (Dt 12, 19);
P. 325 – Não trabalhar em Shavuôt (Lv 23, 21);

d)     Outras práticas:

·        A oração é diferente da que se faz usualmente. A bircat hamazon (bênção após refeição com pão) ganha um pequeno acréscimo.
·        Recita-se em Shavuôt o Halel (louvor- salmos 113 - 118). A leitura é feita após a Amidá da manhã, e pode ser encontrada no sidur ou hagadá de Pêssah. Antes da leitura, recita-se a bênção:
Baruch Atá Ado-nai Elo-hênu, Mêlekh haolam, asher kideshânu bemitzvotáv, vetzivânu ligmor et hahalel.
Bendito sejas, Senhor, nosso Deus, rei do universo, que nos santificaste com Teus mandamentos e nos ordenaste a concluir o Halel.

e)     Costumes folclóricos (não obrigatórios):

É muito popularizado na véspera da festa o chamado ticun lêl Shavuôt (retificação da noite de Shavuôt), que consiste em passar a noite inteira em claro, lendo textos bíblicos e cabalistas.  Alguns enfeitam a sinagoga com flores e ramos verdes, comem neste dia muitos alimentos derivados de leite e doces e leem o livro de Rute após o Shaharit (oração da manhã). Alguns poemas são inseridos na liturgia, dependendo das comunidades.

f)      Saudação:
חג שבועות שמח! (Hag shavuôt samêah) – Feliz festa de Shavuôt!

domingo, 16 de abril de 2017

A tradição judaica é usurpadora da autoridade da Torá Escrita?



Muitas pessoas que estão começando a entrar em contato com o judaísmo e suas práticas percebem que várias dessas práticas não se encontram na Bíblia. Isso pode trazer algum desconforto, dependendo de qual era a religião anterior dessa pessoa. Como sabemos, a religião protestante afirma que segue unicamente a Bíblia como autoridade, e tem sempre acusado o catolicismo de ser uma religião “humana”, “inventora de tradições” e coisas semelhantes. Certamente, um protestante deveria ter o mesmo problema em relação à tradição judaica, o que muitas vezes não acontece devido ao amor e identificação que muitos evangélicos atuais têm em relação aos judeus, Israel e o judaísmo. Neste texto, que é apenas um esboço, uma rápida coletânea de versículos, verificaremos se a tradição judaica, a chamada lei judaica (halachá) é uma usurpadora da autoridade Torá Escrita, e se ela deve ou não ser aceita por pessoas que creem na Torá.  

1-      A Torá escrita não é clara o suficiente quando enuncia os mandamentos. Exemplo:
a)      Lembrança e guarda do shabat (Ex 20, 8; Dt 5, 12) – Como cumprir estes mandamentos? A Torá não diz!
b)      Fazer franjas nas bordas das vestes (Nm 15, 39) – Que vestes? Como seriam as franjas?
c)      Certo mês deve ser o primeiro dos meses (Ex 12, 2) – Que mês? Quem define mês?

Muitas outras interessantes ocasiões como essas podem ser vistas na palestra de Sha’ul Bensiion: Halakhá, Torá e Corte Mosaica¹

2-      Uma unificação na prática é necessária!
a)      “Não fareis conforme a tudo o que hoje fazemos aqui, cada qual tudo o que bem parece aos seus olhos.” (Dt 12, 8)
b)      “Também guardarás a festa das semanas, que é a festa das primícias da sega do trigo, e a festa da colheita no fim do ano. Três vezes ao ano todos os homens aparecerão perante o Senhor DEUS, o Deus de Israel;” (Ex 34, 22-23) – Deveria aparecer cada um com uma intenção diferente? Com rituais diferentes, de acordo com seu entendimento da Torá escrita?
c)      Uma mesma lei haja para o natural e para o estrangeiro que peregrinar entre vós.” (Ex 12, 49)
d)     E se os sacerdotes tivessem interpretações diferentes sobre o serviço no tabernáculo? Cada um deveria interpretar por sua cabeça? Não ficaria um serviço desordenado?

3-      Resposta ao uso de textos bíblicos como suposta refutação à tradição judaica:
a)      Acréscimos à Torá escrita (Dt 4,2 e outros textos):
- Os utensílios e práticas ligados ao templo, e não mais ao tabernáculo, não são supressões e acréscimos?
- Purim não é um acréscimo? (Et 9, 20-21)
- Neemias e Jeremias ordenaram contra o transporte de cargas no dia de sábado. Onde está isso na Torá Escrita? (Jr 17, 22; Ne 13, 15-19)

b)      Leis de homens (Is 29, 13)
- A Torá Escrita institui o mandamento de homens autorizados!!!: “E virás aos sacerdotes levitas, e ao juiz que houver naqueles dias, e inquirirás, e te anunciarão a sentença do juízo. E farás conforme ao mandado da palavra que te anunciarem no lugar que escolher o Senhor; e terás cuidado de fazer conforme a tudo o que te ensinarem. Conforme ao mandado da lei que te ensinarem, e conforme ao juízo que te disserem, farás; da palavra que te anunciarem te não desviarás, nem para a direita nem para a esquerda.” - Dt 17, 9-11
- Mandamento de Mardoqueu – Et 9, 20-21
- Mandamento de Davi – II Cr 23, 18
- Mandamento de Salomão – II Cr 35, 4

O texto de Isaías 29, 13 fala que o temor que o povo devotava a Deus estava sendo entendido como mandamento de homens. O texto não condena instituições de homens autorizados a legislarem. E se o texto estivesse fazendo isso, seria uma afirmação contra a Torá, como vimos acima!

4-      Se alguém crê que a tradição legislativa judaica (halachá) é abusiva e usurpadora, não tem razão para seguir como costumes folclóricos hábitos instituídos por “usurpadores”, como:
a)      Cobertura da cabeça (kipá)
b)      Kidush
c)      Havdalá
d)     Acendimento das velas de shabat e outras festividades
e)      Oração judaica
f)       Bênçãos
g)      Sêder de Pêssach
h)      Lavagem das mãos
i)        Chanucá e Purim (não são da Torá escrita)
j)        Jejuns que não estão na Torá
k)      Interpretação rabínica da Torá
E muitas outras práticas. Em alguns casos, as pessoas que se opõem à tradição chegam mesmo a afirmar em bênçãos que Deus os escolheu e os santificou através desses mandamentos rabínicos, em flagrante hipocrisia e brincadeira. Alguém poderia defender esses hábitos como costumes. Mas isso não modifica sua origem! Vêm da halachá!

5-      Considerações finais:
- A Torá escrita contém lacunas e ambiguidades que impossibilitam sua prática unificada, se não recorrermos a uma tradição fora da Torá Escrita.
- A própria Torá Escrita prevê um componente humano no cumprimento da Lei!
- Não há cumprimento de lei nenhuma unicamente a partir de uma constituição. Legislações complementares e tribunais são necessários.
- O próprio texto da Bíblia fala de acréscimos e “mandamentos de homens”, recebidos pelo povo e que não podem ser vistos como transgressões à Torá.
- É incoerente não acreditar na tradição judaica e praticá-la, pois se a tradição é usurpadora, como posso manter como costumes as leis do inimigo?
- A repulsa contra a tradição judaica e a supervalorização da Bíblia são hábitos mentais protestantes que precisam ser desaprendidos pela pessoa que quer cumprir a Torá.
- É impossível seguir só o texto da Bíblia
- Deve-se abandonar a “espiritualização” da Bíblia e voltar-se para a concepção da prática religiosa como um sistema humano e coletivo de ações para fazer a vontade de Deus.
- Respeitemos as outras religiões! Nenhuma religião tem o “privilégio” de não ter influência humana.

“As mitzvot (mandamentos) dadas a Moisés no Monte Sinai foram todas dadas juntamente com suas explicações, como sugerido por (Êxodo 24,12): "E eu lhes darei as tábuas de pedra, a Torá e a mitzvá"."A Torá" refere-se à Lei Escrita; "A mitzvá", à sua explicação. Deus nos ordenou que cumpríssemos "a Torá" de acordo com "a mitzvá". "A mitsvá" é chamada de Lei Oral. Moisés, nosso mestre, transcreveu pessoalmente toda a Torá antes de morrer. Ele deu um rolo da Torá para cada tribo e colocou outro rolo na arca como um testemunho, como Deuteronômio 31, 26 afirma: "Tome este rolo da Torá e coloca-o ao lado da arca ... e ele estará lá como um testemunho. "A mitzvá" - isto é, a explicação da Torá - ele não transcreveu.  Em vez disso, ordenou-a aos anciãos, a Josué e à totalidade de Israel, como está escrito (Deuteronômio 13, 1): "Tenha cuidado para observar tudo o que eu prescrevo para você". Por esta razão, é chamada a Lei Oral. Embora a Lei Oral não tenha sido transcrita, Moisés, nosso mestre, ensinou-a inteiramente em sua corte aos setenta anciãos. Elazar, Finéias e Josué receberam a tradição de Moisés...”- Maimônides, Mishnê Torá, Introdução.

“Existem outros mandamentos que foram instituídos após a entrega da Torá. Eles foram estabelecidos pelos profetas e sábios para todo o Israel, por exemplo, a leitura da Meguilá (Ester), Acendimento da vela em Chanucá, jejuar no Tish'á beav, eruvim, e lavagem das mãos. (...) Somos obrigados a aceitar e observar todos estes mandamentos que os rabinos instituíram, como implícito em Deuteronômio 17, 11: "Não se desviem as instruções que eles lhe dão, para a esquerda ou para a direita". Esses preceitos não são considerados como adições aos mandamentos da Torá. Então qual seria a intenção da advertência da Torá (Deuteronômio 13,11): "Não acrescente e não retire dela"? Que um profeta não é permitido a introduzir uma nova medida e dizer que o Santo, bendito seja, ordenou uma nova mitzvá para nós e que ela deve ser adicionada às mitzvot da Torá Escrita, ou dizer que Ele ordenou que nós eliminássemos uma das 613 mitzvot mencionadas acima.

No entanto, se um tribunal, juntamente com o profeta daquela época, acrescenta um mandamento como uma ordenança, uma lição, ou como um decreto, isso não é considerado como uma adição. Ele não está dizendo que o Santo, abençoado seja Ele, mandou-nos fazer um eruv ou ler a Meguilá no seu tempo. Se ele dissesse isso, estaria adicionando à Torá!
Em vez disso, estamos dizendo que os profetas e os tribunais ordenaram e estabeleceram que a Meguilá fosse lida no seu tempo para recordar o louvor do Santo, bendito seja Ele, a salvação que Ele fez por nós e Sua resposta A nossos clamores, para que o abençoemos, o exaltemos e informemos as futuras gerações da verdade da promessa da Torá (Deuteronômio 4, 7): "Que nação é tão grande que tem Deus perto dela? ...” Maimônides, Mishnê Torá, Mandamentos Negativos.

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¹ É uma riquíssima palestra em três partes.