terça-feira, 3 de outubro de 2017

Carta aberta a quem acabou de trocar a igreja fanática pelo judaísmo

Carta aberta a quem acabou de trocar a igreja fanática pelo judaísmo

Primeiramente, meus cumprimentos! Você acabou de deixar uma situação de opressão, barulho e limitação do seu potencial para estudar uma religião que historicamente tem sido o berço de pessoas que deram contribuição para a ciência (Maimônides, Ibn Ezra, Os sábios do Talmud, como testemunha o Sêfer haCuzari), filosofia (Maimônides) e influenciaram as duas maiores religiões do mundo. Trata-se de um caminho que (pelo menos relativamente!) não despreza a ciência, a modernidade e a sociedade que eu gosto de chamar de “normal”, o que certamente não é o caso de muitas igrejas pentecostais no Brasil.
Dito isso, quero deixar uma coisa clara aqui: você certamente tem várias concepções erradas sobre o que é o judaísmo e como ele pensa, você apenas está engatinhando em judaísmo e não pode falar em nome dessa religião e você está cheio de dúvidas. Ainda que você faça anos que esteja estudando e lendo sobre o judaísmo, vamos admitir: seu comportamento, escrúpulos morais, vontade de ter um templo que frequentar... são resquícios evangélicos que NÃO VÃO DESAPARECER em uma semana só porque você saiu da igreja!  Isso é totalmente normal. Não é o fim do mundo. A boa notícia é: eu, que escrevo este texto, passei por uma situação semelhante à sua, há mais de uma década, desde então estudo judaísmo e quero compartilhar meus pensamentos com você, por meio das próximas linhas – espero que sejam breves.
Sem rodeios, estes são alguns tópicos sobre os quais eu quero dialogar com você. Leia pacientemente e considere o que eu quero dizer:

1-     O judaísmo não é “universalista”! – Muitos interessados no judaísmo que vêm de igrejas cometem o seguinte erro: “vou ensinar a Torá para quem eu puder, passar a palavra da Torá pra meus vizinhos, ensinar a salvação da Lei”. ERRADO! Isso não é judaísmo! Sem você perceber, você está transferindo o pensamento CRISTÃO para sua nova identidade. No cristianismo, só há um padrão para todas as raças, povos e nações: aceitar Jesus. Você está trocando a palavra “Jesus” por “Lei”! O judaísmo não espera que o caminhoneiro que está viajando o tempo todo ou a senhora que trabalha como merendeira na escola  guardem o shabat e cumpram os rituais judaicos, se não forem judeus! Para o judaísmo, Deus tem dois padrões: um é para o povo judeu e quem escolher se juntar a ele (613 mitzvôt + tradição judaica) e uma moralidade básica para todos os outros povos. Em nenhum lugar da Bíblia está escrito que Jonas chegou fazendo proselitismo judaico para os ninivitas! Ele apenas disse: “vocês não estão sendo éticos”! Então não confunda as coisas! O judaísmo não acha que o mundo está acabando e você precisa levar a “mensagem da Lei” pra “salvar” (termo não judaico, no sentido espiritual) quem quer e quem não quer!

2-     O judaísmo não é a “verdade científica” a ser provada a todas as pessoas – Existem indivíduos que praticam o esporte de pular de galho em galho em busca de uma “verdade” que possam provar para todas as pessoas. A verdade inequívoca, comprovada “cientificamente”. Se você está procurando a luz no final da estrada de tijolos amarelos que leva ao arco-íris, sinto muito, mas POUPE TEMPO E REVELE-SE ATEU HOJE MESMO! Como é que você vai provar de forma inequívoca a todo mundo que a Torá foi historicamente dada no Sinai, com a tradição judaica e todos os aspectos do judaísmo? É necessário sim ter fé! Não sejamos hipócritas. O judaísmo não deixa de ser uma escolha! Claro que achamos que ele seja a escolha mais acertada em termos de religião. Mas isso não significa que o que me convence convencerá todos!

3-     O judaísmo e o Estado de Israel – Não passe vergonha! Está cheio de “recém-judeus” por aí confundindo tudo e achando que é parte da religião judaica ostentar hino, bandeira de Israel, notícias de Israel o tempo todo: o tal do “amor por Israel”. Essas são práticas de cristãos que querem converter Israel por motivos “proféticos”, do ponto de vista deles. Israel, o país da bandeira azul e branca, é só um país! É um país que tem a ver com a religião judaica até certo ponto, mas não é uma teocracia, não é um país que todos os judeus tenham que apoiar ou ser fãs... NÃO! Inclusive Israel tem aspectos seculares que muitas vezes são problemáticos para os judeus observantes, e existem milhares de judeus ANTISSIONISTAS, que são contra o país de Israel com argumentos religiosos judaicos! Você não precisa “pagar pau” pra Israel. Às vezes soa ridículo um brasileiro se importar tanto com outro país.

4-     Povo e religião – Não confunda! Quando se diz que personalidades tal e tal eram ou são judeus, isso não quer dizer que eles tinham ou têm nada a ver com a religião judaica, a Torá. É possível que alguém nessa categoria tenha sido ou seja CONTRA a Torá! Nunca seja fã de “judeus do prêmio nobel” só por serem judeus. Isso também soa muito ridículo!

5-     O judaísmo não é único e nem todas as facções judaicas são construtivas – Cuidado ao falar em nome de O JUDAÍSMO. Nunca existiu UM cristianismo, UM islã, UM judaísmo. Existem vários judaísmos. Várias correntes, várias tendências. E isso não se resume a “ortodoxos, conservadores e reformistas”. Longe disso! Mesmo dentro da ortodoxia judaica SEMPRE HOUVE várias tendências. Existem versões muito místicas do judaísmo— os de roupa preta que falam bastante em temas cabalísticos—, mas um dos mestres mais importantes para o judaísmo, Maimônides, costumava criticar gravemente as tendências místicas de sua época! Não ache que pra ser judeu tem que crer em reencarnação, tzadic milagreiro etc! Outra coisa: não idolatre o judaísmo! Tem gente EM IGREJAS EVANGÉLICAS que quando vai falar em judeu ou judaísmo só falta escovar os dentes antes e depois de pronunciar tão santas palavras! Não sei como não escrevem “jud-us”! Quer saber de uma coisa? Eu poderia postar aqui páginas e páginas de imagens, vídeos e notícias de judeus ultraortodoxos praticando atos graves de fanatismo (contra os cristãos que os idolatram!), dizendo coisas pesadas ou metidos em coisas criminosas... ações que deixariam sua igreja anterior parecendo o berço da tolerância e positividade! Cuidado com o (tipo de) judaísmo que você estuda!

6-      Você não necessariamente é aceito como judeu pelos judeus praticantes- Pense duas vezes antes de adicionar um rabino de preto no facebook e chegar teclando “shalon, rabi! shanah tovah! eu sou um yehudins que ama Ysrael”... Não seja ingênuo! Do ponto de vista da norma judaica ortodoxa, não interessa o que você leu sobre “sobrenomes judaicos”, “não sei quê de DNA”, “costumes judaicos na minha família”... Pouca gente (se é que tem) no mundo judaico observante considera alguém judeu só porque se diz judeu. Para a norma judaica, certamente você precisa de um árduo processo de conversão. Infelizmente não há garantia nem mesmode que você vá ser BEM TRATADO por todos os judeus natos!

7-     Confusões conceituais: rabino, sinagoga etc. – Acontece às vezes de o sujeito ter frequentado a igreja, com um pastor e o dízimo, e achar que agora vai só mudar os nomes: “sinagoga, rabino e tzedacá”. Não é assim! OS CONCEITOS judaicos são diferentes. Sinagoga é uma casa de oração, que só é relevante, de acordo com a halakhá, para dez ou mais judeus adultos homens (minián). Você precisa aprender a NÃO PRECISAR de um templo. A maioria absoluta dos costumes e mitzvôt judaicos são perfeitamente observáveis NO SEU LAR, com algumas pessoas, de forma tão válida para o judaísmo como se você estivesse num templo maravilhoso. Não se afobe: o judaísmo não começa com “alugar o prédio para a sinagoga”. Isso é cristianismo evangélico pentecostal de interior, não judaísmo! Imagine que ridículo seria alguém querer começar uma mesquita, um templo islâmico, sem saber rezar e ensinar o islam! Ridículo! Por que com o judaísmo seria diferente? Rabino não é “líder religioso”, no mesmo sentido em que um pastor é líder religioso. Um rabino não é necessário para a comunidade judaica! Rabino não é pastor judeu. Na verdade, ele é um consultor de leis judaicas— alguém que estudou as leis do judaísmo como estão em livros como Shulchan arukh— e que pode auxiliar a comunidade na vida judaica. No judaísmo, a única coisa que você precisa pra fazer uma ação religiosa é SABER FAZER a ação religiosa! Perceba que você está livre de pessoas que pegavam no seu pé. Por outro lado, isso implica uma maior responsabilidade: você precisa controlar/liderar você mesmo!

8-     Sola scriptura não é judaísmo – Ninguém entende de judaísmo apenas lendo a Bíblia. A Bíblia não é o único livro do judaísmo. E ACIMA DISSO, no judaísmo, a Bíblia judaica é lida DENTRO DA TRADIÇÃO JUDAICA. Não é você que interpreta a Torá e “acha” que certa prática deve ser feita assim ou assado. Isso é protestantismo, não judaísmo! No judaísmo você tem uma tradição judaica! Isso separa os meninos dos homens, porque a essa altura, alguns leitores já podem estar revoltados: TRADIÇÕES DE HOOOOMENS!!!

9-     Jesus e o Novo Testamento – Por favor, não engane a si mesmo nem aos outros. Jesus e o NT não são partes do continuum do judaísmo tradicional. Judaísmo tradicional é Torá – Talmud – Rabinos medievais – Etc. Não existe lugar para Jesus e o NT no judaísmo tradicional. Os rabinos do judaísmo criticaram Jesus e o NT. Se você quer se dizer judeu e aceitar Jesus e o NT como parte da sua experiência religiosa, SEJA HOMEM, SEJA HONESTO e diga, pelo menos: “eu sou um judeu DIFERENTE, MINORITÁRIO, que aceito essa doutrina não tradicional judaica”. Por outro lado, ATENÇÃO! Isso não significa que você tem que odiar Jesus, chamá-lo de ídolo, zombar do cristianismo e coisas assim! Não seja sem noção! Jesus faz parte do repertório EMOCIONAL das pessoas! Às vezes, até dizer “não creio em Jesus” pode ser muito mal entendido ou comprometedor, dependendo de com quem você está falando. Você não precisa sair dizendo isso. Existem formas de você se expressar! Sugestão: “eu aceito apenas o Antigo Testamento”. Pronto! Você não magoou ninguém! Além disso, o que Jesus representa de ameaçador ou negativo pra que você viva criticando-o? Sendo um zombador de Jesus e do cristianismo, você pode trazer má fama ao judaísmo! Percamos esse péssimo hábito de estar brigando sobre religião! O fato de nós não seguirmos o NT não tem nada a ver com evitar o contato, amizade, diálogo, respeito ou até mesmo cooperação, até certos limites, com cristãos e messiânicos.

10- Devo começar lendo o Talmud? – Se você for começar pelo Talmud, não vai terminar nunca. O Talmud não está acessível para a maioria de nós. É muito ingênuo querer estudar o Talmud logo de cara. Estatisticamente poucos judeus estudam o Talmud sistematicamente. Para o judeu observante, o que mais interessa do Talmud para sua vida diária são as leis. Essas leis não estão organizadas por categorias no Talmud, estão muito praticamente ordenadas em livros como Mishnê Torá e Shulchan Arukh, muito mais acessíveis! Sugestão de livros: comece lendo a Torá numa versão judaica com comentários, depois vá para o Sêfer hamitzvôt de Maimônides e leia sem moderação livros como “O judaísmo vivo”, por Michael Asheri ou “O livro judaico dos porquês”, do rabino Alfred Kolatch.

11- Falar em Deus o tempo todo e sua relação com a sociedade – Decidi concluir essa série de conselhos com a dica mais importante, na minha opinião. Na sua religião anterior, você era colocado contra a parede com uma série de regras santarronas destinadas a manter você longe do “mundo lá fora”. Música, bebida alcoólica, amizade com as pessoas “normais”, tudo isso eram e SÃO, sejamos francos, grandes tabus para nós. Saiba: o judaísmo não acredita em santarronice. Você não precisa viver uma tal de “vida de louvor e adoração”, só falando em Deus o tempo todo, morrendo de medo do fim do mundo e não se relacionando com as pessoas. RELAXE SUA MENTE! Você não precisa se vestir destacado das outras pessoas no calor de 40º nem falar “amém”, “amado irmão” e outros termos gospel a cada cinco palavras! A sua vida AUTOMÁTICA, DURA, EXAGERADA, ESTÁ EM PROCESSO DE ACABAR! Você vai revolucionar (com anos e anos) positivamente sua cabeça, ser mais leve e sociável! Atenção: como eu falei acima, você também precisa tomar cuidado para “equalizar” suas interações e manter sua moralidade nos valores de Deus. Não se trata de negar este mundo, e sim de sermos éticos dentro dele! Despeço-me com as seguintes palavras, do grande rabino ortodoxo Adin Steinsaltz (2006, p. 79):

(...) precisamos aprender a sorrir. Não é aconselhável fazer tudo com o rosto fechado e temeroso. Algumas coisas podem ser tomadas com mais leveza, e em muitos contextos, a alegria é permissível. Não é simplesmente uma questão de evitar a tristeza, que os sábios consideram o pior dos pecados, mas de manter um senso de proporção, poupando a sua seriedade e determinação grave para as situações que precisam disso. O judaísmo apresenta um desafio espiritual especialmente difícil, pois ele nos pede que vivamos uma vida de santidade, não em reclusão monástica, mas aqui fora, no mundo. É um desafio que exige equilíbrio e senso de humor.


Referências


STEISALTZ, Adin, Teshuvá, um guia para o judeu recém-praticante – Maayanot - 2006

terça-feira, 2 de maio de 2017

Guia para Shavuôt ("Pentecostes")






a)     O que comemora:

A Torá não menciona especificamente um motivo para a celebração da festa de Shavuôt. O nome significa “semanas” (Dt 16, 10). O motivo do nome é que a festa sempre acontece sete semanas (ou seja, no quinquagésimo dia) após Pêssah. Em português, é comum que essa festa receba o nome de “pentecostes”, palavra de origem grega que faz referência ao número cinquenta. A data da festa de Shavuôt é calculada através da contagem desses cinquenta dias, em cumprimento de Levítico 23, 16. A contagem chama-se sefirat haômer (contagem do ômer). Ômer (literalmente: feixe) é o nome de uma medida, e a referência é a uma quantidade de cevada que deveria ser ofertada após Pêssah (Lv 23, 10-11). Em Nm 28, 26, Shavuôt é chamado “iom habicurim” (dia dos primeiros frutos). Outro nome desta festa é “atzêret”, que significa “interrupção” ou “conclusão”. Na tradição judaica, a festa recebe motivos e nomes como “Festa da Safra” e “Tempo da entrega da Torá (Lei)”. Portanto, tradicionalmente, Shavuôt comemora o aniversário da entrega da Torá.

b)     Datas (em 2017):

30 de maio de 2017 (terça-feira) – Véspera de Shavuôt
31 de maio (quarta) - Iom tov (dia santo) de Shavuôt
1 de junho (quinta)- Dia santo adicional na diáspora  

c)     Mitzvôt (preceitos): Excluíndo-se a “sefirat haômer”, por ser feita antes de Shavuôt, temos na festa nove mitzvôt da Torá Escrita, das quais são sempre praticáveis dois, marcados com asterisco (*), e obviamente a proibição 325.

M. 45 – Trazer um sacrifício adicional (mussaf) em Shavuôt (Nm 28, 27);
M. 46 – Trazer dois pães com os sacrifícios em Shavuôt (Lv 23, 17);
M. 52 – Festejar nas três peregrinações anuais; (Ex 23, 14);
M. 53 – Comparecer diante de Deus durante as festas. (Dt 16, 16);
M. 54* – Alegrar-se nas festas (Dt 16, 14);
M. 162* – Descansar em Shavuôt (Lv 23, 21);
P. 156 – Não comparecer ao santuário numa festa sem sacrifício. (Ex 23, 15);
P. 229 – Não abandonar os levitas durante as festas. (Dt 12, 19);
P. 325 – Não trabalhar em Shavuôt (Lv 23, 21);

d)     Outras práticas:

·        A oração é diferente da que se faz usualmente. A bircat hamazon (bênção após refeição com pão) ganha um pequeno acréscimo.
·        Recita-se em Shavuôt o Halel (louvor- salmos 113 - 118). A leitura é feita após a Amidá da manhã, e pode ser encontrada no sidur ou hagadá de Pêssah. Antes da leitura, recita-se a bênção:
Baruch Atá Ado-nai Elo-hênu, Mêlekh haolam, asher kideshânu bemitzvotáv, vetzivânu ligmor et hahalel.
Bendito sejas, Senhor, nosso Deus, rei do universo, que nos santificaste com Teus mandamentos e nos ordenaste a concluir o Halel.

e)     Costumes folclóricos (não obrigatórios):

É muito popularizado na véspera da festa o chamado ticun lêl Shavuôt (retificação da noite de Shavuôt), que consiste em passar a noite inteira em claro, lendo textos bíblicos e cabalistas.  Alguns enfeitam a sinagoga com flores e ramos verdes, comem neste dia muitos alimentos derivados de leite e doces e leem o livro de Rute após o Shaharit (oração da manhã). Alguns poemas são inseridos na liturgia, dependendo das comunidades.

f)      Saudação:
חג שבועות שמח! (Hag shavuôt samêah) – Feliz festa de Shavuôt!

domingo, 16 de abril de 2017

A tradição judaica é usurpadora da autoridade da Torá Escrita?



Muitas pessoas que estão começando a entrar em contato com o judaísmo e suas práticas percebem que várias dessas práticas não se encontram na Bíblia. Isso pode trazer algum desconforto, dependendo de qual era a religião anterior dessa pessoa. Como sabemos, a religião protestante afirma que segue unicamente a Bíblia como autoridade, e tem sempre acusado o catolicismo de ser uma religião “humana”, “inventora de tradições” e coisas semelhantes. Certamente, um protestante deveria ter o mesmo problema em relação à tradição judaica, o que muitas vezes não acontece devido ao amor e identificação que muitos evangélicos atuais têm em relação aos judeus, Israel e o judaísmo. Neste texto, que é apenas um esboço, uma rápida coletânea de versículos, verificaremos se a tradição judaica, a chamada lei judaica (halachá) é uma usurpadora da autoridade Torá Escrita, e se ela deve ou não ser aceita por pessoas que creem na Torá.  

1-      A Torá escrita não é clara o suficiente quando enuncia os mandamentos. Exemplo:
a)      Lembrança e guarda do shabat (Ex 20, 8; Dt 5, 12) – Como cumprir estes mandamentos? A Torá não diz!
b)      Fazer franjas nas bordas das vestes (Nm 15, 39) – Que vestes? Como seriam as franjas?
c)      Certo mês deve ser o primeiro dos meses (Ex 12, 2) – Que mês? Quem define mês?

Muitas outras interessantes ocasiões como essas podem ser vistas na palestra de Sha’ul Bensiion: Halakhá, Torá e Corte Mosaica¹

2-      Uma unificação na prática é necessária!
a)      “Não fareis conforme a tudo o que hoje fazemos aqui, cada qual tudo o que bem parece aos seus olhos.” (Dt 12, 8)
b)      “Também guardarás a festa das semanas, que é a festa das primícias da sega do trigo, e a festa da colheita no fim do ano. Três vezes ao ano todos os homens aparecerão perante o Senhor DEUS, o Deus de Israel;” (Ex 34, 22-23) – Deveria aparecer cada um com uma intenção diferente? Com rituais diferentes, de acordo com seu entendimento da Torá escrita?
c)      Uma mesma lei haja para o natural e para o estrangeiro que peregrinar entre vós.” (Ex 12, 49)
d)     E se os sacerdotes tivessem interpretações diferentes sobre o serviço no tabernáculo? Cada um deveria interpretar por sua cabeça? Não ficaria um serviço desordenado?

3-      Resposta ao uso de textos bíblicos como suposta refutação à tradição judaica:
a)      Acréscimos à Torá escrita (Dt 4,2 e outros textos):
- Os utensílios e práticas ligados ao templo, e não mais ao tabernáculo, não são supressões e acréscimos?
- Purim não é um acréscimo? (Et 9, 20-21)
- Neemias e Jeremias ordenaram contra o transporte de cargas no dia de sábado. Onde está isso na Torá Escrita? (Jr 17, 22; Ne 13, 15-19)

b)      Leis de homens (Is 29, 13)
- A Torá Escrita institui o mandamento de homens autorizados!!!: “E virás aos sacerdotes levitas, e ao juiz que houver naqueles dias, e inquirirás, e te anunciarão a sentença do juízo. E farás conforme ao mandado da palavra que te anunciarem no lugar que escolher o Senhor; e terás cuidado de fazer conforme a tudo o que te ensinarem. Conforme ao mandado da lei que te ensinarem, e conforme ao juízo que te disserem, farás; da palavra que te anunciarem te não desviarás, nem para a direita nem para a esquerda.” - Dt 17, 9-11
- Mandamento de Mardoqueu – Et 9, 20-21
- Mandamento de Davi – II Cr 23, 18
- Mandamento de Salomão – II Cr 35, 4

O texto de Isaías 29, 13 fala que o temor que o povo devotava a Deus estava sendo entendido como mandamento de homens. O texto não condena instituições de homens autorizados a legislarem. E se o texto estivesse fazendo isso, seria uma afirmação contra a Torá, como vimos acima!

4-      Se alguém crê que a tradição legislativa judaica (halachá) é abusiva e usurpadora, não tem razão para seguir como costumes folclóricos hábitos instituídos por “usurpadores”, como:
a)      Cobertura da cabeça (kipá)
b)      Kidush
c)      Havdalá
d)     Acendimento das velas de shabat e outras festividades
e)      Oração judaica
f)       Bênçãos
g)      Sêder de Pêssach
h)      Lavagem das mãos
i)        Chanucá e Purim (não são da Torá escrita)
j)        Jejuns que não estão na Torá
k)      Interpretação rabínica da Torá
E muitas outras práticas. Em alguns casos, as pessoas que se opõem à tradição chegam mesmo a afirmar em bênçãos que Deus os escolheu e os santificou através desses mandamentos rabínicos, em flagrante hipocrisia e brincadeira. Alguém poderia defender esses hábitos como costumes. Mas isso não modifica sua origem! Vêm da halachá!

5-      Considerações finais:
- A Torá escrita contém lacunas e ambiguidades que impossibilitam sua prática unificada, se não recorrermos a uma tradição fora da Torá Escrita.
- A própria Torá Escrita prevê um componente humano no cumprimento da Lei!
- Não há cumprimento de lei nenhuma unicamente a partir de uma constituição. Legislações complementares e tribunais são necessários.
- O próprio texto da Bíblia fala de acréscimos e “mandamentos de homens”, recebidos pelo povo e que não podem ser vistos como transgressões à Torá.
- É incoerente não acreditar na tradição judaica e praticá-la, pois se a tradição é usurpadora, como posso manter como costumes as leis do inimigo?
- A repulsa contra a tradição judaica e a supervalorização da Bíblia são hábitos mentais protestantes que precisam ser desaprendidos pela pessoa que quer cumprir a Torá.
- É impossível seguir só o texto da Bíblia
- Deve-se abandonar a “espiritualização” da Bíblia e voltar-se para a concepção da prática religiosa como um sistema humano e coletivo de ações para fazer a vontade de Deus.
- Respeitemos as outras religiões! Nenhuma religião tem o “privilégio” de não ter influência humana.

“As mitzvot (mandamentos) dadas a Moisés no Monte Sinai foram todas dadas juntamente com suas explicações, como sugerido por (Êxodo 24,12): "E eu lhes darei as tábuas de pedra, a Torá e a mitzvá"."A Torá" refere-se à Lei Escrita; "A mitzvá", à sua explicação. Deus nos ordenou que cumpríssemos "a Torá" de acordo com "a mitzvá". "A mitsvá" é chamada de Lei Oral. Moisés, nosso mestre, transcreveu pessoalmente toda a Torá antes de morrer. Ele deu um rolo da Torá para cada tribo e colocou outro rolo na arca como um testemunho, como Deuteronômio 31, 26 afirma: "Tome este rolo da Torá e coloca-o ao lado da arca ... e ele estará lá como um testemunho. "A mitzvá" - isto é, a explicação da Torá - ele não transcreveu.  Em vez disso, ordenou-a aos anciãos, a Josué e à totalidade de Israel, como está escrito (Deuteronômio 13, 1): "Tenha cuidado para observar tudo o que eu prescrevo para você". Por esta razão, é chamada a Lei Oral. Embora a Lei Oral não tenha sido transcrita, Moisés, nosso mestre, ensinou-a inteiramente em sua corte aos setenta anciãos. Elazar, Finéias e Josué receberam a tradição de Moisés...”- Maimônides, Mishnê Torá, Introdução.

“Existem outros mandamentos que foram instituídos após a entrega da Torá. Eles foram estabelecidos pelos profetas e sábios para todo o Israel, por exemplo, a leitura da Meguilá (Ester), Acendimento da vela em Chanucá, jejuar no Tish'á beav, eruvim, e lavagem das mãos. (...) Somos obrigados a aceitar e observar todos estes mandamentos que os rabinos instituíram, como implícito em Deuteronômio 17, 11: "Não se desviem as instruções que eles lhe dão, para a esquerda ou para a direita". Esses preceitos não são considerados como adições aos mandamentos da Torá. Então qual seria a intenção da advertência da Torá (Deuteronômio 13,11): "Não acrescente e não retire dela"? Que um profeta não é permitido a introduzir uma nova medida e dizer que o Santo, bendito seja, ordenou uma nova mitzvá para nós e que ela deve ser adicionada às mitzvot da Torá Escrita, ou dizer que Ele ordenou que nós eliminássemos uma das 613 mitzvot mencionadas acima.

No entanto, se um tribunal, juntamente com o profeta daquela época, acrescenta um mandamento como uma ordenança, uma lição, ou como um decreto, isso não é considerado como uma adição. Ele não está dizendo que o Santo, abençoado seja Ele, mandou-nos fazer um eruv ou ler a Meguilá no seu tempo. Se ele dissesse isso, estaria adicionando à Torá!
Em vez disso, estamos dizendo que os profetas e os tribunais ordenaram e estabeleceram que a Meguilá fosse lida no seu tempo para recordar o louvor do Santo, bendito seja Ele, a salvação que Ele fez por nós e Sua resposta A nossos clamores, para que o abençoemos, o exaltemos e informemos as futuras gerações da verdade da promessa da Torá (Deuteronômio 4, 7): "Que nação é tão grande que tem Deus perto dela? ...” Maimônides, Mishnê Torá, Mandamentos Negativos.

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¹ É uma riquíssima palestra em três partes.